8 De Março

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Texto postado em 8 de Março do ano passado. Continua bem atual.

 

No dia 8 de março de 2003 eu estava na sétima série e estudava em uma escola católica. Todas as manhãs, antes do início das aulas, nos reuníamos no pátio para rezar uma Ave-Maria e um Pai-Nosso. Naquele dia, depois da oração comandada pela diretora da escola, ela disse que aquele era um dia especial porque era o dia da mulher. E por causa disso, os meninos deveriam passar o dia sendo “gentis” com as meninas, começando por levar as mochilas delas para as salas de aula, puxando a cadeira para elas sentarem, etc.
Ela não mencionou que aquele dia havia sido institucionalizado como dia internacional da mulher porque 130 mulheres foram trancadas e queimadas dentro de uma fábrica nos Estados Unidos em 1857. Não mencionou que elas estavam em greve porque queriam equiparação de salário com os homens, tratamento digno no trabalho e redução da carga horária. A diretora não nos contou que aquele dia simbolizava uma luta de anos por igualdade e emancipação. Não. Ela apenas mandou que os meninos levassem nossas mochilas para a sala.
Eu estava numa escola. Num ambiente que deveria me preparar para me tornar uma cidadã consciente. O que eu aprendi lá sobre o dia internacional da mulher é que somos tão delicadas e frágeis, que não deveríamos nem carregar nossas próprias mochilas. Que a data existe para celebrar nossa fragilidade e doçura. Não vou entrar aqui nos méritos dos métodos pedagógicos dessa minha escola. Acredito, porém que se nem na escola temos acesso a esse tipo de conhecimento e informação, fica mesmo difícil sermos cidadãos conscientes.
Deve ser por isso que esse tipo de concepção em relação ao dia 8 de Março seja tão comum. É só dar um google aí: “Lembrancinhas para o dia da mulher” e você vai ver uma enxurrada de cartõezinhos com desenhos de rosas nos parabenizando por sermos “fortes e fracas”, “divinas”, “sensíveis” e claro “lindas”. Quer dizer. O dia 8 de Março que deveria ser um dia de tristeza, de rememoração desse passado sombrio, um dia de refletir sobre o papel da mulher e o avanço da nossa luta, tornou-se uma data “romântica”. Outro dia, num site de compras coletivas, me foi sugerido ir celebrar o dia da mulher comendo um fondue. É como celebrar o dia da consciência negra sem mencionar escravidão.
Eu não tenho nada contra romantismo. E nem quero discutir esse famigerado estereótipo de que somos lindas e doces e essa porra toda. Meu ponto é: O dia 8 não é pra isso! Ele não existe por isso! Ele existe para nos mobilizarmos, construirmos uma sororidade, refletirmos sobre o que mudou e o que não mudou desde o triste episódio de 1857.
Eu não quero acreditar que preciso que um menino carregue minha mochila. Não quero acreditar que preciso de privilégios e lembrancinhas “no meu dia”. Não quero flores, não quero romantismo, não quero fondue. Quero salários iguais, quero respeito à minha sexualidade, quero o mesmo tratamento ao ser contratada numa empresa, quero poder dividir tarefas domésticas e criação dos filhos IGUALMENTE com xs meus parceirxs. 
Enfim, meninas (e meninos também). Nesse dia, vamos parar para pensar em todas as conquistas e todas as derrotas que tivemos nos últimos anos. Vamos para relembrar os massacres que sofremos. Vamos agradecer às mulheres que morreram, que passaram fome, que lutaram para que pudéssemos votar, trabalhar e expressarmos nossa opinião. E vamos discutir sobre tudo aquilo que ainda nos oprime para irmos em direção à liberdade.
Nesse dia 8 de Março, vamos exigir o que realmente é importante: Respeito.

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