Como superei (ou quase) o medo de avião

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Contei aqui para vocês como estava sendo tentar me livrar da minha síndrome do pânico e das fobias paralisantes que estavam atrapalhando minha vida. De lá pra cá, um intenso trabalho na terapia me fez melhorar imensamente, de um jeito que hoje eu me considero praticamente curada de uma das fobias mais fortes que já tive e que me fez procurar o tratamento. O medo de voar. Eu aconselho pessoas que tenham o mesmo problema a procurar tratamento também, e não pretendo fazer um manual de como se livrar de algo tão sério. Quero apenas compartilhar minha experiência, porque quem sabe assim, consigo ajudar alguém.

Eu nunca tinha deixado de entrar num avião por causa do meu medo, embora algumas vezes passei tão mal que me perguntava se era saudável me forçar a passar por aquilo. Em voos longos, eu ficava horas sem mudar de posição, com o coração acelerado e corpo em alerta máximo. Era extremamente desgastante. Durante os primeiros meses da terapia, evitei voar. Acho que se eu tivesse que pegar um avião, pegaria, mas não surgiu nenhuma situação do tipo e eu aproveitei para “descansar a mente” e trabalhar nos meus medos em terra mesmo, para estar mais preparada para o enfrentamento, quando ele viesse.

Bom, ele chegou numa oportunidade imperdível de ir para Nova Iorque. Nove horas num avião fazendo uma rota que eu conhecia bem, mas nem por isso parecia menos assustadora. Àquela altura, me sentia muito melhor da minha necessidade de controlar tudo mas eu não tinha ideia de como iria enfrentar. Disse para a minha terapeuta, dias antes do voo: “Não tenho ideia de como vou fazer isso”. Mas acho que no fundo, eu tinha sim.

É importante querer não sentir mais medo

Eu acho que sempre acreditei que se eu prestasse atenção em tudo e ficasse em alerta máximo, poderia controlar o que acontecia ao meu redor. Quando chegou o dia da minha viagem, eu estava sinceramente muito cansada do processo que tinha que passar para voar e queria muito que isso mudasse. Acho que tinha raiva das pessoas não entenderem que não era frescura minha, o meu medo era real, e me apegava a senti-lo, como que pra provar que era de verdade. De repente eu entendi que embora fosse muito frustrante não ter a compreensão necessária de quem está ao seu redor, eu só podia contar comigo mesma lá em cima para a minha experiência não ser um completo inferno.

Então, pela primeira vez, eu me permiti distrair. Assisti filmes, ouvi músicas, relaxei na cadeira. Não consegui dormir. Fiquei tensa  o tempo todo, mas nada comparado a antes. E quando estávamos aterrissando, vi o sol nascendo brilhando nos prédios de Manhattan e foi tão lindo, que eu senti que foi uma espécie de recompensa pelo meu esforço em não deixar o medo vencer.

No voo de volta, estava muito cansada e acabei dormindo o tempo inteiro, não vi nada. Mas ainda tinha ficado bem nervosa no dia anterior. Voltei me sentindo muito bem comigo mesma mas sem saber se eu conseguiria repetir a boa experiência o futuro.

Algum tempo depois, consegui comprar passagem para a minha viagem dos sonhos pela Europa e estava diante do meu maior desafio: Seria praticamente um voo a cada dois dias, mais um voo longo de ida e outro de volta, numa rota que eu não conhecia e tinha ouvido falar que era muito turbulenta.

A essa altura, o avião já não era mais meu foco como antes. Estava animada planejando a viagem e não concentrava toda minha energia nisso. Estava com medo, mas ao mesmo tempo, queria testar se seria capaz de me acalmar outra vez. Quando eu entrei no avião, olhei as pessoas e os comissários de voo falando alemão, eu comecei a rir, porque ainda não tinha ideia de como ia passar por aquilo.

Eu lancei mão de todos os dispositivos que tinha usado na viagem anterior, e foi ainda mais tranquilo. Fiquei tensa nas primeiras horas de voo mas consegui dormir depois – mais porque estava desconfortável do que por estar com medo. Não vi nenhuma turbulência forte e estava muito mais relaxada quando acordei.

Dali pra frente, só foi ficando mais fácil. Eu tive sorte – a maior parte dos voos foi tranquila e sem turbulências e eu estava sempre tão cansada que acabava dormindo em toda viagem. Só em um fiquei mais nervosa – teve uma turbulência forte. Mas eu senti que a apreensão era geral e mesmo assim consegui me controlar – fiquei com medo como todo mundo dentro do avião, mas não deixei isso sair do controle.

No voo de volta, eu me senti muito bem. Não passamos por nenhuma turbulência forte, eu fiquei relaxada a maior parte do tempo, dormi, assisti filme, comi como qualquer pessoa faria. Eu aterrissei me sentindo outra pessoa.

Uma semana depois, peguei mais um voo curto para visitar minha família. E na hora da decolagem, sempre a mais tensa pra mim, eu não deixei os pensamentos trágicos tomarem conta. Repeti “vai dar tudo certo” e quando os trens de pouso deixaram o solo eu não senti uma gota de desespero – só alívio e uma sensação gostosa de estar indo para outro lugar.

Chegar nesse ponto não foi fácil. Existe uma combinação de fatores que permitiu que isso acontecesse.

Confie nos seus dispositivos

Um dos meus maiores medos era não conseguir controlar o meu pânico dentro do avião, não saber como, não ser capaz de me acalmar. Isso melhorou muito quando eu descobri que tenho dispositivos que posso lançar mal para tornar o voo mais tranquilo. Quando penso nisso, penso logo em seguida que já sei o que fazer para dominar o meu medo e isso me faz entrar no avião muito mais confiante. O primeiro dispositivo que eu uso é a respiração. Parece balela, mas ela ajuda o seu cérebro a parar de mandar alertas de perigo para o seu corpo, além de trazer o seu foco para algo além do medo. Como eu acho difícil me concentrar, faço tampando uma narina, contando 5 segundos, segurando o ar por mais 5 e soltando pela outra narina ao longo de outros 5. Nos primeiros voos, fiz isso enquanto o avião taxiava e durante toda a decolagem. E toda vez que o alerta de apertar os cintos era acionado, eu começava antes mesmo de o avião balançar. Assim na hora que a turbulência chegava, meu corpo estava mais sereno e eu conseguia pensar com clareza que aquilo ia passar. Outros dispositivos são ver filmes engraçados, colocar auriculares para bloquear ruídos, enfim, qualquer coisa que eu sei que será capaz de me distrair.

O seu lugar importa

Não é a toa que a primeira classe fica na parte da frente do avião. Essa é a área mais silenciosa e que menos balança de toda aeronave. Se pra você os barulhos da turbina são assustadores, quanto mais na frente, melhor. Sugiro sempre fazer o check-in assim que a companhia aérea permitir e pegar o assento mais próximo da frente possível.

É importante estar confortável

Vai ser difícil relaxar se a roupa estiver incomodando, se o sapato estiver apertado e, principalmente, se você estiver com frio. Essas coisas atrapalham quando a gente quer dormir em voos longos. Esteja preparado e o mais confortável possível, para que estes detalhes não te mantenham desnecessariamente alerta durante o voo.

Pense em coisas boas

É impressionante a capacidade da minha mente de fabricar imagens horríveis que entram completamente formadas na minha cabeça. Eu não formulo esses pensamentos, eles aparecem já inteiros. É bem difícil evitar, porque eles são repentinos, mas o importante é não deixar a coisa crescer. Toda vez que eu penso alguma coisa horrível, penso logo em seguida “vai dar tudo certo”, incisivamente e uso toda a minha força de vontade pra pensar em outras coisas.

Distraia-se

Leve um livro que você gosta, um joguinho viciante, uma música que você adora. Qualquer coisa que seja REALMENTE capaz de prender sua atenção em situações tensas.

Fazendo todas essas coisas, hoje em dia eu posso dizer que se eu tiver que pegar um voo de 30 horas agora mesmo, não será um problema pra mim. E isso é libertador. Agora eu não passo meu tempo pensando em como vou conseguir enfrentar o deslocamento. Penso na viagem e no que farei quando chegar lá. Não existe fórmula mágica. Eu sei que ainda vou ter momentos de medo, vou ficar tensa em determinadas situações, posso ter recaídas. Por isso o “quase no título”. Mas o importante é que agora eu tenho uma série de ferramentas para lutar contra esse medo, e isso me torna capaz de vencê-lo toda vez que ele quiser voltar.

É importante lembrar também que andar de avião é muito seguro. E que sim, apesar de improvável, pode ser que uma tragédia aconteça durante um voo meu, mas, no fim das contas, acho que a coisa mais importante que aprendi neste processo foi que o medo excessivo não vai impedir que coisas ruins me aconteçam, mas pode sim me impedir de viver coisas incríveis. E diante disso, não resta outra escolha a não ser me lançar.

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