Manifesto pelo meu direito de viajar sozinha

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Sagitarianos: O signo mais viajeiro do zodíaco?

Viajar sozinha tem sido, para mim, uma experiência libertadora. A primeira foi em 2012, e desde então, não parei mais. Não é que eu não aprecie a companhia dos meus amigos e família, ou não goste de viajar com eles, muito pelo contrário. Mas tem algo de muito especial em estar o tempo todo na sua própria companhia, longe da sua zona de conforto.

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A primeira viagem: Cara de 9nha.

Poder viajar é um privilégio, e eu sou consciente disso. Priorizo viajar nos meus gastos porque é algo que me faz muito feliz, mas sei que, infelizmente, não é fácil conseguir fazer isso, pra ninguém. Valorizo muito o fato de conseguir juntar dinheiro para as minhas viagens e os momentos em que senti mais satisfação pessoal foi quando cheguei a um lugar com o qual sonhei por anos, e finalmente tive a oportunidade de conhecer.

Viajar sozinha é empoderador para uma mulher porque é um ato de se presentear. Planejar, sonhar, priorizar sempre as próprias escolhas e vontades. Sem ter que se preocupar com mais ninguém, é um exercício de ser permitir fazer o que nos faz feliz. Vou acordar cedo e andar por todos os museus – ou não, vou ficar dormindo no hostel até as três da tarde e depois dar um volta pelo bairro. Não existe viajar certo ou errado quando se está sozinha, existe apenas a sua maneira de aproveitar ao máximo a experiência que você se proporcionou. Para nós, que sempre somos ensinadas a estar em segundo plano, para quem ser abnegada é uma qualidade, que sempre ouvimos que devemos colocar nossos filhos, marido, família antes das nossas próprias vontades, é libertador.

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Nem sempre é fácil achar quem tire uma foto sua quando se está sozinha.

Além disso, é uma oportunidade de autoconhecimento. Aquele clichê de, “é preciso saber apreciar as coisas sozinho para apreciá-las com outra pessoa”, é verdadeiro. Viajar sozinha significa estar na própria companhia o tempo todo – o que pode parecer sufocante. Afinal, na rotina, estamos sempre com mil coisas na cabeça – o trabalho, os amigos, os compromissos. Quando o tempo desacelera e estamos a sós com nossos pensamentos, temos a chance de nos conhecer de verdade. Embora pareça assustador, apreciar a própria companhia é essencial para sermos felizes de verdade. Para nos amarmos de verdade. E foi viajando sozinha que eu descobri muitas vezes o que eu gosto de fato. O que realmente me faz feliz. Aquela coisa hype que todo mundo acha o máximo fazer, às vezes simplesmente não é pra mim, e tudo bem. Descobrir o que realmente me faz bem longe do julgamento de outras pessoas me faz tomar decisões muito melhores na minha vida.

Não tenho a menor dúvida, os melhores momentos da minha vida aconteceram quando eu estive viajando. Me senti viva,  gostando de mim. Conheci mulheres maravilhosas e me senti inspirada ouvindo as suas histórias e aventuras. É algo que recomendo a qualquer pessoa.

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Fazendo novos amigos em Roma.

 

Mas, tem um lado ruim de tudo isso. Uma mulher que viajar sozinha corre riscos. Eu sei disso, e vou mesmo assim, porque acho que não posso deixar a opressão me vencer e tirar de mim uma das coisas que eu mais gosto de fazer na vida. Mas notícias como a das duas jovens argentinas mortas no Equador, nos lembram que o mundo é muito cruel com as mulheres, e quer puni-las quando elas são livres. Eu já passei por muitas situações desagradáveis/perigosas/traumáticas só porque estava viajando sozinha. A impressão que dá é que se você está só, é um convite para os homens te molestarem. Eu queria fazer aqui um apelo para a empatia de vocês. Mulheres que viajam sozinhas querem descansar, se divertir, espairecer, como qualquer outra pessoa. Geralmente, trabalham duro para tal e merecem desfrutar da viagem como qualquer outra pessoa. Eu mereço desfrutar as minhas viagens sem:

  • Ser assediada pelo dono do hostel onde me hospedei.
  • Ser seguida por três quarteirões por um cara que queria muito saber de onde eu era e por que estava sozinha em Paris.
  • Ser convidada para tomar um drink no apartamento de um senhor alemão no meio da rua.
  • Ser abordada por três caras falando todo o tipo de baixaria a caminho de uma boate.
  • Ter três franceses tentando me embebedar “porque eu estava sozinha”.
  • Ouvir impropérios de um cara toda vez que me abaixava para pegar as roupas na mala no meio do quarto de um hostel.
  • Um cara tentar me beijar no meio da rua depois me mostrar as pulseiras que queria me vender.
  • Um garçom de um bar terminar o expediente, beber bastante com os amigos e achar que é ok ficar do lado da mesa em que estou sentada conversando com amigos estrangeiros que acabei de fazer, fazendo piadas agressivas e me encarando insistentemente.
  • Ninguém parar o carro ao lado de onde eu estou passando para me dar um tapa na bunda e perguntar quanto é o programa (e se eu fosse uma prostituta, também não é ok).

A lista continua.

Eu tenho certeza de que todas as mulheres que viajam sozinhas têm uma lista dessas de histórias de horror. Mas, sim, nós vamos continuar fazendo isso, porque é o nosso direito. Não vamos abaixar a cabeça. Cabe a você, que assedia mulheres só porque estão sozinhas, passar a nos enxergar como seres humanos.

 

 

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