Sobre a minha madrinha

Se tem uma figura que preencheu a minha infância, essa figura foi a minha madrinha. Aquela de contar vantagem para todos os meus amiguinhos: Minha madrinha era a mais legal, a mais engraçada, a que dava os melhores presentes, a que fazia a comida mais gostosa. Sempre trazia pra mim um agradinho quando ia na padaria – um Kinder Ovo, uma moeda de chocolate, uma skate. Sempre fazia o melhor bolo de laranja quando eu pedia, me ensinando passo a passo da receita. Perdíamos tardes gargalhando até a barriga doer das inusitadas receitas do livrinho puído das “Delícias de Araxá”, com a famosa gelatina de pinga. Ela sempre lia pra mim a mesma bendita história do meu livro preferido e fazia a melhor – MELHOR – interpretação da coruja surda. Que saudade que me dá quando eu lembro de perguntar, “Dinha, posso brincar no seu quarto”? e da resposta, “pode, mas se fizer bagunça eu te penduro no varal pelas orelhas”! Minha madrinha sempre me defendia, pra ela eu era a criança mais educada, mais inteligente, mais meiga do mundo, e não ia ter ninguém que pudesse a convencer do contrário. Quando ela se foi, um pedaço da minha alma se foi junto. Minha madrinha morreu quando eu tinha acabado de completar 10 anos. Foi o primeiro enterro que eu presenciei. Eu escrevi um texto para a missa de sétimo dia, e quase não consegui ler de tanto chorar. Meses de anotações no meu diário se dividiam entre tristeza, confusão e até raiva. Como ela podia ter me deixado? Como eu ia viver o resto da minha vida sem ela?

Mas essa, é só uma parte da vida da minha madrinha.

Maria da Penha dos Santos nasceu em Nanuque, no interior da Bahia. Até os dez anos de idade,  catava caranguejo no mangue com os irmãos para ajudar em casa. Eram muitos, e o dinheiro era curto. Uma madame de Belo Horizonte, que passava as férias lá, propôs levá-la para passar um tempo na capital, cuidando da casa da madame. Depois ela voltava. Para a mãe, a oferta foi tentadora. Era menos uma boca para alimentar, ainda com a promessa de uma vida mais confortável para a filha. As duas se despediram para nunca mais se verem de novo.

A tal madame castigava Maria, a deixava passando fome, espancava. Ela implorava para voltar para Nanuque, para junto da família e da mãe, mas seus apelos foram em vão. Aos quatorze anos, Maria da Penha decidiu fugir. Estava cansada de apanhar. Foi parar no abrigo de menores.

E foi lá que a minha avó a encontrou, procurando também uma “menina para ajudar em casa”. Adotou a Maria, que viveu com ela até a sua morte. A história da minha madrinha é como a de tantas outras mulheres no nosso país: Uma empregada doméstica que é considerada “da família”, numa relação estranha em que os direitos trabalhistas se turvam e dissolvem. Sempre parte, mas ao mesmo tempo à margem.

Obesa, negra, viveu uma vida sem conhecer o amor conjugal. Teve um ou outro namorado. Casados. Viveu para servir a uma família branca, da hora que levantava até a hora em que ia dormir. Não tinha férias. Não tinha vaidades. Brilhante mesmo sem ter completado o grupo, dona de um senso de humor sagaz, uma análise crítica ferina, nunca ousou proferir nenhum sonho que não fosse viver para servir.

Sofria de hipertensão grave. Passou os últimos anos da vida comendo comida ferventada, sem sal, para tentar amenizar os sintomas. Sem sucesso. Maria da Penha dos Santos sofreu um AVC fulminante enquanto preparava o almoço de domigo para a família que servia. Morreu três dias depois. Foi enterrada no jazigo de seus empregadores.

Para mim, aos dez anos, nada daquilo existiu. Mas a verdade é que a minha madrinha viveu uma vida emprestada. Uma vida que nunca foi dela. Uma vida de servir e se contentar com a alegria dos outros. Não acho que os meus avós tinham completa noção do que de fato se passava. Tiraram uma menina pobre de um abrigo, deram tudo do “bom e do melhor”, e não se podia imaginar nada além disso.

Mas ela merecia muito mais do que isso. Ela merecia ter uma vida só dela. Com sonhos e histórias só dela. Com frustrações e lamentos só dela. Com memórias e planos só dela. Mesmo que para isso, ela nunca tivesse sido minha madrinha. Mesmo que, para isso, as memórias mais cálidas da minha infância nunca tivessem existido.

A vida da minha madrinha, foi igual a de muitas outras mulheres. Mas hoje, é só dela que eu quero falar. Maria da Penha dos Santos viveu, cresceu, sofreu e sorriu, foi a mulher mais vivaz e corajosa que eu já conheci, e merece ser lembrada, hoje e sempre.

 

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