Reencontro de faculdade – Parte 1

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Chegamos no tal sítio no início da noite. A Leila se perdeu no caminho, lógico, mas realmente o tal lugar era no meio do nada. E eu também nem dirijo, não teria chegado lá sem a carona dela, então.

Bom, é isso. Nem parece, mas realmente já estamos fazendo cinco anos de formados. A tal reunião começou a ser ensaiada meses antes, num grupo criado especialmente pra isso no WhatsApp. Sinceramente, não botei muita fé. Me pareceu aquelas coisas de “vamos marcar!”, que todo mundo se entusiasma mas nunca vai pra frente. Estava errada.

Das trinta pessoas da classe, parece que dezoito iriam, o que era bastante, considerando que muita gente tinha casado/tido filhos/mudado para o exterior (às vezes as três coisas juntas). Negociamos uma chácara em Bom Jesus do Meio do Nada, com todos os confortos; quarto pra (quase) todo mundo, piscina, varadão, até fogão a lenha.

Eu não podia estar mais animada. Se fosse minha turma de escola teria me horrorizado à perspectiva de ter que ficar frente à frente com meus algozes de adolescência de novo. Mas com o pessoal da faculdade, era diferente. Sempre me dei muito bem com eles – na verdade, me senti em casa pela primeira vez entre gente que tinha as mesmas paixões que eu e estava muito animada para rever todos. Tinha alguns amigos próximos da classe que encontrava com frequência, e outros que sempre via aqui e acolá, num bloquinho de carnaval que calhava de todo mundo colar, ou quando um post no Instagram levava a outro e a gente se juntava na Parada. Mas assim, todo mundo, como nos velhos tempos, ia ser a primeira vez.

E eu estava empolgada de verdade para saber o que cada um andava aprontando. Claro, sabia bastante por causa das redes sociais, mas não tinha tido a chance de realmente conversar com os colegas para saber – como andam os preparativos para o casamento, como está sendo o emprego dos sonhos, e aquela viagem pro Marrocos em 2014, conta dos detalhes.

Foi depois de muita polêmica no tal grupo de WhatsApp que decidimos pelo “banimento” dos respectivos de todos. O argumento era simples; primeiro que ia ser muito mais difícil encontrar um lugar grande o suficiente para praticamente o dobro de gente. Além disso, os @ todo mundo já via sempre, a ideia era passar um tempo com o pessoal da faculdade, como antes. Houve protestos. Muita gente queria que sua metade da laranja conhecesse o povo todo, o que resolvemos jurando que íamos marcar um bar na semana seguinte.

Depois de ter visto o fim de semana no sítio se concretizar, não me surpreenderia se realmente rolasse.

Mas enfim, que enorme digressão. O ponto é que eu estava feliz de passar três dias na companhia dos meus colegas de classe. E também estava solteríssima há anos, e não me importaria de fazer um revival com qualquer um dos meus ex contatinhos.

***

A primeira noite foi tranquila. Organizamos uns petiscos (Ludmilla levou várias opções veganas – “Eu e Thalita estamos 100% vegans há dois anos”), botamos logo umas dez garrafas de vinho pra jogo e lá fomos nós, colocar o papo em dia. O João Paulo tinha se mudado pra Sérvia, era sorte ele estar no Brasil. Tinha ido ficar com a namorada gringa, e estava trabalhando com animação. Tirou um pacote e tabaco e bolou um cigarrinho chique. A Fê tinha virado atriz. Tava fazendo um papel menor numa série da Netflix, e contou de vários projetos engatados. A Laura tinha pintado o cabelo de azul, e estava chefiando um departamento de quarenta pessoas. A Carol estava rodando o país com o seu filme, e tinha montado um coletivo feminista. O Diego tinha acabado de alugar um apartamento no centro com o namorado. Fizemos FaceTime com a Raíssa, em Madrid, que mostrou a barriguinha de oito meses.

Eu, bom, eu estava bem, dividida entre o Brasil e a Alemanha, tentando ganhar dinheiro escrevendo, um pouco menos adulta do que era de se esperar, mas ainda assim, bem. Depois da quarta taça eu estalei os lábios, o álcool já tirando meu filtro, pronta pra deixar escapar a pergunta que ficou na minha cabeça a noite toda, mas fui salva pelo gongo.

– Ah! – A Leila levantou, sempre com aquele ar de quem gerencia as coisas. – Precisa abrir o portão, o Lucas e a Marie chegaram. – E saiu arrastando as havaianas.

Houve um murmúrio geral na mesa, comentando sobre aquele novo casal, lembrando que eles não ficavam na época da faculdade, alguém indagou como tinha começado. Eu sabia a história por cima, às vezes encontrava com gente muito próxima deles, os seguia no Instagram, a gente sempre curtia os posts uns dos outros, mas a verdade é que não tinha estado com eles desde que o namoro começou.

Não vou mentir que sentia uma pontadinha de inveja sempre que via as fotos dos dois. Lindíssimas, a Marie sempre foi uma puta fotógrafa. E de verdade, os dois pareciam muito felizes. Conhecendo-os tão bem como os conhecia, me surpreendia que não tivesse acontecido antes.

Meu coração deu um mini pulinho quando eles chegaram na varanda, as mãos cheias de sacolas. A Marie estava de shortinho jeans, uma camisetinha que deixava à mostra seu braço recentemente fechado de tatuagens e a marquinha de biquíni (os dois tinham ido pra praia no fim de semana anterior, o Instagram me contou). Ela estava muito diferente; na época da faculdade ela usava dreads coloridos, se vestia de um jeito meio clubber, sempre com vestidinhos Neon e Melissas nos pés. Agora, os cabelos crespos estavam naturais, as pontinhas queimadas de sol, e usava cores sóbrias, jeans larguinhos, os cropped da moda, sempre deixando à mostra seu corpo cada vez mais escultural, graças ao pilates.

O Lucas também estava diferente. Usava uma bermuda curtinha, tinha os braços e pernas tatuados. Os cabelos muito lisos e pretos estavam num corte repicado e bagunçado, misturando à armação grossa dos seus óculos, as sardas se destacando na pele queimada de sol. Magrinho ele sempre foi, mas o tempo o fez encorpar, os ombros e braços mais musculosos do que eu lembrava.

– Gente, que calvário chegar aqui, socorro! – A Marie foi falando, sacudindo sua juba de cabelos bem cuidados. – Preciso de uma cerveja.

– Tamo no vinho, baby. –  O Diego logo se adiantou, alisando o bigodinho. – A Fernanda ensinou a gente a fazer sangria. Agora a gente é chique.

– Hmmm, muito bem. – Ela aprovou, servindo-se de um copo e passando ao redor da mesa para abraçar todos os presentes, com o Lucas em seu encalço. Quando chegou a minha vez, a gente trocou um olhar cúmplice.  – E aí?

– Eu aí?? – Eu devolvi com um sorriso largo, e a gente se abraçou. Não nos víamos há uns dois anos. Ela continuava linda. Na verdade, estava muito mais linda do que antes. Os anos a fizeram muito bem. Quando nos largamos, olhei para o Lucas, que baixou o olhar, mordendo os lábios e deixando as covinhas aparecerem num sorriso tímido. Foi uma lembrança gostosa; eu tinha esquecido que ele sempre fazia aquilo.

– Como cê tá? – Ele perguntou, me abraçando. – Como tá a Europa?

– Tá lá, gelada. – Eu ri. Podia sentir a tensão da galera nos observando interagir. Tá, tá, gente, já temos todos quase trinta, podemos agir de acordo, por favor?

Mais tarde, quando eu e Diego nos preparávamos para ir dormir no quarto que iríamos dividir pelos próximos três dias, ele me perguntou a queima-roupa:

– Esse revival aí, hein? Tá todo mundo de olho nesse triângulo.

– O quê? Imagina, eu não vejo nenhum dos dois há anos.

– Sei. Cê pensa que eu não vi o jeito que eles olharam pra você, né? Tá bom. – Ele disse em tom de quem encerra a conversa, afofando o travesseiro da sua cama de solteiro.

***

No dia seguinte, me diverti como não me divertia há anos. Passamos o dia na piscina, aplacando o solão de rachar. O Diego passou o tempo todo tirando fotos das pessoas e criando memes em cima, que iam ficando cada vez mais engraçados conforme a gente ia bebendo. Meu senso de humor tão estranho de repente estava em casa; era incrível sentir que embora cada um em um canto, muito das nossas personalidades tinha se formado em conjunto.

Tudo transcorreu sem maiores incidentes, a atmosfera amigável e tranquila. O Lucas e a Marie se comportaram muito bem, tirando algumas piadinhas aqui e ali, não pude notar nenhum flerte da parte deles. Parte de mim ficou decepcionada, não vou mentir, mas os dois estavam tão lindos juntos, tão em sintonia, que sei lá, dava até medo de estragar, então achei melhor assim.

Porém, no fim da noite, depois dos banhos revezados, do jantar e de muitos drinks, sobramos no sofá, eu e o Lucas. A Marie tinha ido sei lá onde; muita gente já tinha ido dormir, mas ainda sobrava uma rodinha de pessoas ouvindo música enquanto caía uma chuvinha fina. Eu tinha me concentrado num ponto entre as telhas há horas; viajando sobre como ia ser voltar para Berlim e lembrar daqueles momentos, essas coisas que eu acabo pensando sempre. Suspirei, o corpo todo molenga. Na outra ponta do sofá, o Lucas tirou os óculos e esfregou os olhos.

– Nossa, bateu. – Ele disse, rindo de lado.

– Né? Jesus.

Eu olhei bem pra ele, enquanto ele passava a mão pelos cabelos bagunçados, as covinhas das bochechas à mostra, e aquele tom de voz doce que sempre mexeu comigo. Naquela hora me perguntei por que raios eu tinha perdido tanto tempo com cafajestes, se é dos intelectuais tímidos charmosos sensíveis que eu gosto de verdade.

De repente a Marina voltou para a varanda, um copo de caipirinha na mão, um shortinho indecente de minúsculo. Ela fez menção de sentar no colo do Lucas, olhou pra mim, sorriu, e sentou no meu.

– Aaaai que saudade da minha ex! – O João Paulo gritou.

– Aí você tem que ver qual ex de quem né? – O Diego comentou, uma sobrancelha levantada. Eu passei uma das mãos pela cintura dela, a outra repousei na sua coxa. O cabelo dela estava com um cheirinho muito bom de shampoo (mas na verdade não devia ser, já que há anos ela era adepta do low poo).

O Lucas estava vermelho que nem pimentão, esse tonto. A Marie me deu um golinho do drink, só pra provocar mais.

– Vixe. – Eu disse, rindo. Sabia que ela adorava aquele tipo de joguinho, inclusive já tínhamos flertado muitas vezes depois de terminar e quase nunca o flerte terminava em algum lugar. A Marie era como eu; adorava a atenção.

O Lucas foi o primeiro casinho que eu tive na faculdade. Nos pegamos logo na primeira festa. Na época, ele tinha os braços despidos de tatuagens e os cabelos curtos. Daí sempre que tinha um rolê a gente acabava ficando. Por fim as coisas se tornaram menos esporádicas, e a gente começou a se pegar mais sério, nos beijar nos banquinhos da faculdade entre as aulas, passar os intervalos de almoço estirados nos gramados da praça do relógio, eu arrumando trouxinhas para ir dormir no apartamento dele em Pinheiros depois da aula.

Durou uns três, quatro meses, depois arrefeceu. Era o começo da universidade, muita novidade, muita coisa pra fazer, nós dois tínhamos que nos descobrir, não deu. Continuamos amigos, sempre nos demos bem e seguimos a vida.

Com a Marie, foi mais sério.

Nos aproximamos no início do segundo ano. Começamos a fazer muitos rolês juntas; em toda festa a gente estava. A gente se dava muito bem; era tudo natural entre a gente. De amigas de copo, passamos para amigas da vida. Os domingos largadas nos sofás uma da outra, virando madrugadas juntas editando aquele trabalho. Um dia bebemos demais num happy hour. Fomos para minha casa. Uma coisa levou à outra e não paramos mais.

Ficamos por quase um ano; nunca oficializamos nada. Eu me apaixonei por ela. A falta de um título de namorada significava muito pouco. Estávamos sempre juntas, compartilhávamos tudo. Mas não foi muito fácil. Às vezes eu queria mais; e ela não queria. Às vezes era o contrário. Tinha muita coisa acontecendo. Ela foi fazer um intercâmbio de um mês. Quando voltou, num acordo silencioso, tínhamos terminado.

Foi estranho por um tempo, depois voltamos a conversar. Mas a amizade de antes, não conseguimos retomar mais. Eu sempre pensava nela com carinho, me perguntava se um dia íamos conseguir ser tão íntimas quanto antes. O engraçado é que, pra quem via de fora, não dava pra imaginar ela e o Lucas juntos no primeiro ano. Eles sempre se deram bem, faziam parte da mesma turma, até já tinham se dado uns pegas aleatórios numas festas, mas nada além disso.

Foi só depois da faculdade, que eles se reencontraram, se reapresentaram, se apaixonaram. E era louco ver como os dois evoluíram para se encaixarem direitinho um no outro; ele estava mais confiante, mais seguro, sem nunca perder aquele jeitinho manso. Ela estava mais madura, mais focada, mas continuava com a presença exuberante de sempre.

A tensão era palpável. Eu podia sentir que estava todo mundo olhando para nós duas; o Lucas, nossos amigos. Muita pressão pra mim, não tem manual pra saber como agir quando você tem que lidar não só com um, mas com dois ex no mesmo lugar.  Ainda mais quando eles estão juntos.

Nessa hora, por milagre, começou a tocar o funk hit do momento. Eu levantei correndo e a tensão se dissipou. Logo eu e a Marie começamos a ir até o chão, e a Laura se juntou a nós duas. Tudo muito divertido e inofensivo, mas eu podia sentir o olhar do Lucas queimando na minha pele enquanto eu dançava, podia sentir a Marie colocar as mãos na minha cintura por um pouquinho mais do que a coreografia pedia.

Eu decidi que ia precisar me entorpecer mais se queria passar por aquela situação e me manter sã. Gritei que era hora dos shots, virei duas tampinhas de vodka de uma vez. Depois, fui pro banheiro, checar a minha cara, tomar um ar, lavar o rosto, sei lá. Quando eu voltei, Marie, Laura e Diego estavam se acabando na Paradinha. Eu sacudi os cabelos, respirei fundo e me juntei a eles.

Quando a música acabou,começou uma mais lenta, de sarração, que eu não conhecia. A Marie se virou para mim, colocou as mãos na minha cintura e a gente começou a rebolar. Eu estava tentando rir como se nada estivesse acontecendo, mas aquilo era covardia, sinceramente. Ela estava muito próxima de mim, aqueles olhões cor de mel penetrando a minha alma. Eu virei para o Lucas, meio desesperada.

– Cê tá vendo isso, né?

– Tô, sim. – Ele disse com um sorriso de lado filho da puta, como quem diz, não só tô vendo como to gostando. Ai, meu deus. Eu fechei os olhos, só rezando para os dois não estarem brincando comigo, porque aquela ideia já tinha cruzado a minha mente antes, e não tinha como negar que eu estava ficando cada vez com mais vontade.

A Marie me virou de costas pra ela, agarrou minha cintura e a gente foi dançando devagar. Daí ela afastou as mechas do meu cabelo e deu um beijo na minha nuca. Ok, isso aí já é falta. Não dá pra brincar desse jeito e ela sabe. Deixei o arrepio percorrer o meu corpo e voltar, e me virei, disposta a tomar as rédeas da situação de volta pra mim. Ou eles iam até o final ou o chove-não-molha ia parar por ali.

Ela passou a língua pelos lábios em forma de coração, arqueando as sobrancelhas perfeitas, nossas testas coladas. Não tirava os olhos de mim e naquele olhar a gente trocou mil confidências, lembramos dos velhos tempos, contamos muita coisa. Eu estava há tanto tempo tão sozinha, tão acostumada à minha independência e solidão, e de repente me vi de novo naquele olhar, toda aquela cumplicidade que a gente teve um dia, como se a gente tivesse terminado ontem.

Quando ela me beijou, segurou as laterais do meu rosto com as mãos. Meu coração estava acelerado, minhas mãos dormentes, como há muito tempo eu não sentia. Podia ouvir as exclamações dos amigos enquanto ela me empurrava para a parede mais próxima, mas a minha mente se desligou do resto do mundo. Nos enfiamos numa bolha à medida que o amasso se intensificava, minhas mãos seguindo da nuca dela para sua cintura, num daqueles beijos que é bom de primeira, que não dá vontade de parar.

Mas paramos. Quando eu abri os olhos, fazendo força para voltar do abismo de sensações no qual eu estava totalmente absorta, o Lucas estava atrás da Marie, olhando diretamente pra mim.

CONTINUA

 

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