Breu

Cresci aprendendo que a melhor forma de lidar com a escuridão é fingindo que ela não existe. Olhar para frente, conversar amenidades, tratar de trivialidades, normalizar o egoísmo – foi como eu aprendi a encarar a vida, muito embora desde muito cedo tive que aprender a lidar com a morte, com a dor, com a doença, com a falta de amor. Era só que a gente fingia que elas não estavam lá.

Sempre tive muita dor e muita morte dentro de mim também – desde pequena e nem sei o motivo. A primeira vez que quis morrer, eu tinha sete anos. E morava no sétimo andar. Subi na cômoda, abri a janela e coloquei as perninhas para fora – contemplando as pedras amareladas no chão do pilotis lá embaixo. Quis pular, não pulei. Fui covarde.

A dor não tem o direito de existir. Se eu sentia dor, desconforto, angústia, era fonte de um incômodo imenso para os meus pais. Aprendi a esconder. A ignorar. A escolher as palavras. A sofrer sozinha. Mas dor não vai embora porque a gente quer. Ela se espalha por outros lugares quando não sai pela boca – e a dor foi aos poucos envenenando minha mãe por dentro.

Quando minha mãe teve câncer pela primeira vez, estávamos no shopping juntas. Era sábado. Eu tinha dezenove anos e estava prestes a entrar no cursinho. Queria que ela experimentasse uma blusa. Quando ela tirou a que estava usando, eu vi um caroço em seu peito – roxo, a pele enrugada, como um hematoma. Ela quis esconder.

Demorou um ano para que ela se rendesse ao tratamento. Por um ano, ela tentou ignorar de todas as formas, aquela dor que tinha se embrenhado no corpo, nas células – virado tumor.

Quando minha mãe recebeu o segundo diagnóstico do câncer, eu tinha vinte e cinco anos. Estava do lado de fora do escritório, em horário de almoço. Fazia muito sol. As palavras dela estavam desconexas no telefone. Metástase… Ossos… Fígado… Pulmão. Todas elas se misturavam num só significado, numa certeza fria e penetrante – a morte. A morte outra vez.

Não conseguia lidar. Não conseguia falar sobre o assunto, não conseguia pensar sobre o assunto. Eu barganhava com o universo – pode levar quem for. Pode levar o resto da família toda, eu não ligo. Mas não leva minha mãe. Não vou suportar. Não vou conseguir. Não cabe tanta dor assim dentro de mim.

Mas a dor nos acha. Ela nos caça.

Tanta morte, tanta dor, tanto horror, doença e desconforto na família e ninguém quer falar sobre o assunto. Uma semana depois da morte da minha mãe, meu pai deu uma festa de aniversário. Ele não gosta de falar sobre minha mãe. Ele não gosta de saber da minha tristeza. Ele não me dá o direito de ser triste.

Mas eu sou. Sempre fui. E agora mais ainda.

Tem dias que eu acho que não tem outro jeito mesmo – que talvez eu devesse aprender a lição e ignorar a dor, fingir que ela não existe. Depois eu penso que já não faz mais diferença- já devo estar infestada e envenenada como minha mãe esteve e não tem nada que eu possa fazer a respeito.

Será que é possível viver assim, sem dor? Será que o defeito de fábrica está em mim?

Não quero morrer mais. Mas como eu posso viver com essa mancha, esse toque gélido da tragédia que estrangula minha alma – me faz me sentir marcada, diferente, transbordando de dor sem que haja nenhum lugar para onde ela escoe?

Ainda bem que sou covarde.

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