Novembro Azul – A masculinidade tóxica também mata homens

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O Novembro Azul começou como uma iniciativa semelhante ao Outubro Rosa, com a ideia de conscientizar os homens sobre o câncer de próstata. Como o dia internacional de combate a este tipo de câncer é 17 de Novembro, na Austrália iniciou-se uma campanha que se estendeu por todo o mês, e acabou se espalhando para outros países. Nos Estados Unidos e em outros lugares muitos homens deixam apenas o bigode na barba como maneira de aderir à campanha, mas no Brasil o que pegou mesmo foi a cor azul.

Informação por informação, é claro que conscientização é sempre bem vinda, porém o Novembro Azul é um tema por vezes polêmico. A postura oficial do Ministério da Saúde é a recomendação que a campanha se estenda para o resto do ano, para que os homens continuem se examinando e consultando, não só em novembro.

Também como no caso do Outubro Rosa é preciso ter muito cuidado com muitas empresas querendo pegar carona na iniciativa para fazer publicidade. Com tanto auê é fácil se esquecer da causa inicial, e muitas vezes os produtos especiais do Outubro Rosa e do Novembro azul são vendidos com uma porcentagem irrisória para institutos de prevenção e pesquisa – quando muito.

Portanto é importante sempre nestas campanhas de conscientização lembrar do que realmente está em jogo – e não quais produtos na cor do mês você pode comprar.

Câncer de próstata é coisa séria

Digressões à parte, polêmica ou não, a campanha trata de algo muito sério. Perdendo apenas para o câncer de pele, o câncer de próstata é o mais comum entre homens no Brasil e também o mais fatal. Embora seu surgimento seja mais comum na terceira idade, as populações pardas e negras sofrem com sua incidência em homens mais jovens – casos em o que câncer também é mais agressivo.

Apesar disso, o número de homens que vai ao médico fazer o exame preventivo é alarmantemente baixo. O que é um dado absurdo se considerarmos a detecção precoce do câncer de próstata é a maior aliada às chances de cura.

O procedimento combina o exame de sangue PSA com o toque retal. A recomendação geral é que os homens façam a consulta anualmente a partir dos 50 anos, mas esta idade pode diminuir dependendo do paciente (casos de câncer de próstata na família, estilo de vida, entre outros fatores). Portanto, o urologista deve sempre ser consultado.

Bom, aí chegamos ao ponto principal. Para mim, o fato de muitos homens infelizmente não detectarem o câncer nos estágios iniciais está ligados a dois fatores; um, existe um “tabu” em torno do exame de toque. Dois, homens em geral não vão ao médico e costumam ser péssimos administradores da própria saúde.

Contei em detalhes no meu vlog sobre o HPV como é feito o exame papanicolau em nós mulheres – exame este que geralmente precisamos fazer anualmente desde o início da vida sexual. O procedimento é desagradável e invasivo – muito, muito mais invasivo do que um exame de toque.

Procedimentos médicos em geral são desconfortáveis. Ninguém gosta de levar agulhada, de se submeter a posições extenuantes, sentir dor ou incômodo. Contudo, se levarmos em consideração vários exames que precisamos fazer muitas vezes ao longo da vida, o exame de toque retal, por si só não parece tão ruim.

O problema é claro não é o procedimento em si, mas sim a carga psicológica que ele evoca. Num modelo em que a honra e masculinidade do homem se fortalecem à medida que ele se afasta de qualquer associação ao signo feminino, a ideia de ser penetrado – mesmo que para um exame, para muitos pode ser um horror.

É até engraçado pensar nisso, mas a verdade é que muitos homens preferem colocar a própria saúde em risco do que fazerem algo que para eles está associado a um comportamento feminino ou homossexual (pra gente ter ideia do quanto essa masculinidade tóxica tem os alicerces bem fincadinhos na misoginia e na homofobia – ter câncer é pior do que ser mulher ou um homem gay).

Soma-se a isso o fato de que os homens estatisticamente vão menos ao médico. Inclusive 60% dos que vão só chegam ao pronto-socorro quando estão com doenças em estágios avançados.

Este dado muitas vezes é inclusive citado como argumento anti-feminista. Só que homens vão menos ao médico por razões profundamente machistas. Eles associam consultórios com pessoas “vulneráveis” como mulheres, idosos, e crianças, e para muitos estar entre essas pessoas é um atentado contra a própria masculinidade.

Pior ainda, os homens estão acostumados a não agirem como se a sua própria saúde fosse sua responsabilidade, delegando às mulheres na sua vida esta obrigação. 70% do homens ADULTOS só vão ao médico acompanhados das mulheres. Falei no meu texto sobre a importância do uso da camisinha de como os homens não só muitas vezes insistem em ter uma vida sexual irresponsável pulando o uso do preservativo como também não têm o costume de fazerem exames regulares de infecções sexualmente transmissíveis.

Um exemplo bem concreto de toda esta realidade é o caso do ciclista Vinícius Zambrião, que não fez os exames preventivos e só foi descobrir um câncer de próstata após a namorada insistir que ele fosse ao médico para verificar uma alteração nos testículos. Chega a ser quase inconcebível que um homem adulto precise deste tipo de incentivo para cuidar da própria saúde.

A masculinidade tóxica cria homens que são crianças em corpos de adulto.

Homens que são incapazes de praticar o auto amor e auto cuidado por consequência também são incapazes de amar e cuidar de outras pessoas; são pais piores, companheiros piores, mais infelizes, e muitas vezes, doentes.

A responsabilização pela própria saúde tem de passar pela auto reflexão.

A masculinidade não torna os homens perigosos só para os outros, mas também para si mesmos. Neste Novembro Azul, vamos sim continuar lembrando nossos pais, avôs, irmãos, tios, que eles precisam ir ao médico, neste mês e em todos os outros. Mas também vamos falar sério de saúde do homem, para que haja uma mudança de atitude.

Quem sabe assim um dia vamos viver em uma sociedade em que cuidar da saúde não é uma coisa ruim porque é coisa de mulherzinha.

É coisa de adulto.

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Vlog – Testei a camisinha feminina!

Enrolei um tempão para testar o preservativo feminino por desconfiar se ele ia funcionar bem. Como colocar, como tirar? Será que incomoda? A resposta é: Tudo é muito mais tranquilo do que você provavelmente imagina!

Quem tem medo de educação sexual?

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Nunca vou esquecer a primeira aula de educação sexual que eu tive. Tinha dez anos de idade, estava na quarta série. Numa aula de ciências, em que o currículo programático nos mandava estudar sobre os sistemas do corpo humano, finalmente chegamos ao sistema reprodutor.

Estávamos todos na sala muito empolgados e curiosos, muito mais do que jamais estivemos para conhecer nossos órgãos. Aturando muitas piadinhas e risadinhas, a professora nos conduziu pela matéria. Aprendemos quais eram e onde ficavam nossos órgãos reprodutores. Aprendemos como funciona a menstruação. Aprendemos como ocorre a fecundação de um óvulo.

Ao longo da minha adolescência, nos anos seguintes, aprofundamos os temas. Falamos de sexo seguro, de preservativos. Aprendemos sobre os sintomas de ISTs. Falamos de ciclo reprodutivo e métodos anticoncepcionais. Falamos sobre ginecologia, urologia e acompanhamento médico para a saúde sexual.

Minha educação sexual na escola me ofereceu o básico do básico, e muitas vezes deixou a desejar. Não foi no banco da escola que aprendemos sobre orientação sexual, sobre identidade de gênero e transsexualidade. Quem sabe isso teria evitado que um dos meus melhores amigos, gay, sofresse uma tentativa de espancamento de colegas no segundo ano do ensino médio? Mal e mal falamos de masturbação, e jamais ouvi dizer que era normal que mulheres também fizessem. Talvez isso teria evitado a culpa terrível que eu senti quando comecei a me masturbar. Nunca tocamos no assunto de consentimento. Quem sabe isso poderia ter evitado muitos estupros e assédios sofridos pelas minhas amigas e colegas ao longo dos anos?

Quando a gente queria uma informação mais picante recorria à Internet, às revistas como a Capricho, ou às amigas mais experientes. As informações sobre orgasmo, sobre sexo oral, sobre fantasias sexuais, tudo isso era tabu. Mas o básico do básico, para conhecer o meu corpo, eu aprendi na escola.

Ensinar educação sexual é ensinar sobre saúde

Muito triste ter que dizer uma coisa tão óbvia, mas conhecer como nosso corpo funciona é uma questão de saúde. Como cuidar bem de nós mesmos, ou saber quando há algo de errado, é essencial para que possamos viver vidas mais saudáveis. Por isso também temos aulas sobre como funcionam todos os sistemas do nosso corpo. Precisamos conhecer o funcionamento do sistema digestivo, do nosso aparelho respiratório, do nossos sistema nervoso.

Por que seria diferente com o sistema reprodutor?

A educação sexual oferece informações essenciais para que os jovens possam navegar a sua sexualidade com consciência sobre infecções sexualmente transmissíveis, métodos anticoncepcionais, e sua saúde em geral.

Estamos em 2018. Não é possível que vamos achar que jovens não fazem sexo, ou que se negarmos este tipo de informação, adolescentes vão entrar em abstinência sexual. A descoberta da sexualidade é uma parte natural da vida, e o sexo só é perigoso quando é feito sem informação. Conversar com seus filhos é fundamental para que as escolhas quanto ao sexo sejam conscientes e não traumáticas.

Eu fui perder minha virgindade depois dos vinte anos, enquanto outros colegas o fizeram aos quinze. Recebemos a mesma educação sexual, e isso não influenciou na nossa inicialização.

O desmonte não vem de agora

A educação sexual, bem como o progresso educacional, vem sofrendo ataques sistemáticos há alguns anos, provenientes da ingerência religiosa que quer promover a ignorância a todo custo em nosso país. Porém estamos agora diante do ataque mais flagrante à educação sexual de qualidade no Brasil.

O projeto intitulado Escola Sem Partido, que vem ganhando força com o levante conservador/religioso que vivemos no Brasil atualmente, propõe eliminar a educação sexual do currículo de ciências biológicas dos ensinos fundamental e médio. A justificativa se baseia numa paranoia que estes ensinamentos serviriam para “moldar o juízo moral” dos jovens.

Eu de verdade queria muito saber quem em sã consciência acredita que o interesse dos adolescentes por sexo vem da escola e não o contrário. Não é de agora que os jovens procuram saber todo o tipo de informação sobre o tema assim que começam a sentir as primeiras pontadas da puberdade. Sexo é uma parte natural da condição humana, e uma parte importante do nosso amadurecimento.

Existe abundância de informação de todo tipo sobre o sexo na Internet. Não sei como dizer isso sem ser direta: É ingenuidade acreditar que adolescentes não vão se informar sobre sexo se a escola não oferecer mais educação sexual. Estaremos apenas negando a parte mais técnica e chata da informação – justamente a mais importante para a nossa saúde.

Este é o pior momento para fazer isso

Aprender sobre educação sexual na escola é aprender sobre o funcionamento do nosso corpo e nossa saúde, mas é também levantar pontos importantes sobre o sexo que podem deixar nossa sociedade mais justa e segura. Este é o pior momento para negar aos jovens informações tão preciosas, por vários motivos.

Estamos vivendo epidemias de DSTs, principalmente entre os casais heterossexuais

O Brasil está passando por um aumento perigoso nos casos de diversas infecções sexualmente transmissíveis, que podem ser prevenidas com o uso de preservativo. Ano passado, o país sofreu uma epidemia de sífilis, doença que há muitos anos estava praticamente erradicada. Ademais, o HIV vem se espalhando entre os jovens de uma maneira silenciosa. Os casos dobraram em menos de dez anos, e entre os grupos de risco, estão as mulheres heterossexuais em relacionamentos estáveis (vítimas muitas vezes da infidelidades de seus parceiros “cidadãos de bem” e “defensores da família”).

Falar sobre o uso de preservativos, sobre como as DSTs são transmitidas, quais suas causas e consequências, e como preveni-las, é parte fundamental do currículo de educação sexual e uma informação essencial para qualquer jovem antes que a vida sexual se inicie. Estamos vivendo um momento crítico em relação a infecções que podem ser fatais, e negar este tipo de informação com toda certeza agrava – e muito – o quadro.

Estamos matando nossos LGBTs

Quer uma estatística deprimente? O Brasil é o país que mais mata LGBTs no mundo – um a cada 19 horas. São cidadãos, jovens, velhos, que trabalham, sonham, dão duro todos os dias. Sou eu. São os meus amigos. São os LGBTs na periferia que sofrem ainda mais discriminação e violência.

Sim, precisamos abordar orientação sexual nas escolas, porque é uma questão de humanidade. O Brasil tem um problema crônico e gravíssimo de homofobia, cujas raízes estão calcadas na ignorância a respeito do tema. Não venha me falar de religião. Todas as religiões, inclusive a cristã, pregam tolerância e amor ao próximo. LGBTs existem, são vulneráveis e estão sendo vítimas de violência, todos os dias. A sua religião aprova isso? Aposto que não.

Não existe curso para aprender a ser gay, minha gente. Quem dera os treze anos do governo do PT tivessem tanto a pauta LGBT em mente quanto a direita conservadora gosta de alardear. Se estamos a mercê de uma agenda gay, porque ainda somos o país mais perigoso NO MUNDO para um homossexual viver? Só podemos parar esta violência educando sobre orientação sexual, e estimulando uma sociedade igualitária e tolerante (não estamos mais na idade das trevas, estamos em 2018, vamos começar a agir de acordo, por favor).

Educação sexual é uma ferramenta de proteção para mulheres e crianças

Além das informações básicas sobre DSTs, e doenças como câncer de mama e de colo de útero, a educação sexual é fundamental para as mulheres. Nada menos que cinco mulheres morrem por dia no nosso país por questões relacionadas à gravidez. Em 2014, os abortos clandestinos levaram 200.000 brasileiras aos hospitais por complicações decorridas do procedimento.

Não vou discutir descriminalizar aborto aqui, isso pode ser assunto para outro post. Minha questão é, se somos totalmente contra a interrupção da gravidez não desejada, precisamos oferecer às mulheres a informação e as ferramentas adequadas para que ela possa prevenir que isso aconteça – isso inclui acesso à meios contraceptivos. Anticoncepcionais, preservativos, pílula do dia seguinte.

Mais do que garantir o acesso das mulheres a estes recursos, é fundamental que elas saibam usá-los corretamente. Somente uma educação sexual de qualidade pode garantir que as brasileiras tenham as informações corretas para viver sua sexualidade de maneira plena e segura.

Ou vocês vão me dizer que acreditam que a partir de agora todo mundo só vai transar pra se reproduzir?

Sem contar o número alarmante de abusos e estupros de crianças e adolescentes no Brasil, cuja maioria ainda acontece dentro de casa. Crianças, em sua maioria mulheres, são vítimas dos abusos de pais e padrastos, como no horrorizante caso recente do homem que estuprou a filha sistematicamente por dois anos, como compensação pelos gastos que tinha com ela com coisas como roupa e alimentação. Aprender o que é sexo na escola e saber diferenciar o que pode ser feito do que é abuso pode ser o que salva uma criança de uma situação dessas.

De maneira geral, não podemos confiar apenas que os pais passem informações sobre educação sexual para os filhos, simplesmente porque por mais bem intencionados ou informados que sejam, educação sexual é principalmente conhecimento científico.

Informar detalhadamente sobre o funcionamento do corpo, sobre infecções sexualmente transmissíveis e métodos anticoncepcionais deve ser dever de quem tem o conhecimento especializado na área. Não esperamos que os pais ensinem aos seus filhos sobre números complexos, sobre como resolver uma equação de saponificação, ou o funcionamento do sistema nervoso. Este conhecimento pode ser complementado em casa, mas é primeiramente dever da escola.

Estamos na contramão do mundo

Dar passos para trás em relação a educação sexual nas escolas é fazer justamente o contrário do que o resto das nações está fazendo, principalmente as mais desenvolvidas. Na Alemanha, onde eu moro, a educação sexual é obrigatória nas escolas, e não engloba apenas os aspectos biológicos do funcionamento do corpo humano, mas também questões de identidade de gênero, sexualidade e relacionamentos.

Numa decisão histórica, a Escócia, país onde vivi por um breve período, acaba de aprovar uma lei que torna obrigatório o ensino sobre a população LGBT+ nas escolas. O novo currículo contará com aulas sobre homofobia e a história dos movimentos sociais LGBT, protegendo e acolhendo alunos da comunidade desde cedo.

A própria UNESCO recomenda a educação sexual como parte do currículo escolar como maneira de garantir que os jovens tenham uma vida sexual segura e responsável, já que as pesquisas apontam que mais informações garantem uma relação mais sadia com o sexo, e não o contrário.

Negar informação é uma forma de oprimir

Do ponto de vista ético, temos o dever enquanto sociedade de dar aos nosso jovens as ferramentas necessárias para que eles entrem na vida adulta capazes de cuidarem de si mesmos. Olhando para as estatísticas atuais, fica claro que omitir informações preciosas neste caso é uma forma de violência, já que estamos negando aos nossos conhecimento que interfere em saúde física e psicológica.

Falando em especial do caso das mulheres, para mim está muito claro que a nossa sexualidade é uma das ferramentas mais utilizadas para a prática da opressão. A liberdade e autonomia femininas começam a ser restringidas em relação nosso corpo desde que somos crianças – somos vigiadas e cerceadas em relação a nossa aparência, como nos vestimos e comportamos e se espalha por todos os aspectos de nossas vidas – nossa sexualidade é associada ao nosso caráter e pode impactar nossas escolhas profissionais, de relacionamento e na maternidade.

Para mim garantir mais liberdade para as mulheres passa necessariamente pela libertação sexual. Devolver para as mulheres sua autonomia sexual é um ato de empoderamento real, porque para além de podermos fazer o que quisermos, retiramos da mão do opressor uma das suas principais armas para nos controlar.

Basicamente, para exemplificar, numa sociedade em que o caráter de uma mulher não está associado ao que ela veste, uma saia curta não pode ser uma justificativa aceitável para um estupro. Numa sociedade em que a maternidade não é vista como punição à mulher pelo ato sexual, os pais precisam assumir seus deveres paternos com responsabilidade e diligência.

A quem serve este salto para trás?

Bom, se a educação sexual é uma fonte de saúde física e mental, a quem interessaria retirar este direito dos nossos jovens? Pessoalmente eu concordo com a ideia de que o que testemunhamos no Brasil hoje é um levante da masculinidade tóxica. Homens que cresceram acreditando que merecem glória e afeto por terem nascido homens e sentem ameaçados e cerceados com a possibilidade de mais igualdade, e querem reafirmar sua relevância dentro da sociedade resgatando valores antigos de uma época em que eles se sentiam mais respeitados e valorizados – mesmo que às custas da opressão de outrem.

No fim, os homens sempre gozaram de mais liberdade sexual e como consequência tiveram mais acesso à informação sobre o tema. Para um homem falar sobre sexo, masturbação, fantasias sexuais, é um sinal de virilidade. Meninos são encorajados a iniciarem a sua vida sexual cedo, e o sexo é considerado coisa de homem, algo que os meninos devem ouvir e falar sobre como uma parte do processo de amadurecimento.

Portanto fica claro que o retrocesso serve apenas para uma parte da população. Não estamos negando conhecimento a todos – estamos negando conhecimento principalmente a mulheres, crianças, e LGBTs. Com isso, quem continua ditando as regras da sexualidade no Brasil são os homens – e o sexo continua a servir como algo que existe apenas para satisfazê-los.

A parte mais cruel disso tudo é que estamos negando proteção básica e saúde a quem mais precisa. São justamente as mulheres, os homossexuais e transsexuais e as crianças os grupos mais vulneráveis e mais propensos a sofrer com abusos, doenças sexualmente transmissíveis e gestações indesejadas.

Para mim, usar religião para justificar um retrocesso dessas proporções, num país cuja população já sofre com as consequências de educação sexual inadequada, é imoral. Educação sexual só assusta quem tem a ganhar mantendo nossos jovens no escuro e em risco. E quem não depende somente da escola para se informar e se proteger.

Vlog – E a tal da infecção urinária?

Parece que é um castigo divino: É só você ter uma noite de sexo daquelas que no dia seguinte aparece a maldita infecção urinária. Um papo sincero sobre a tal cistite de lua de mel e as precauções simples que podemos tomar no sexo para evitar a temida logo depois!

Sybian Sex Machine: O vibrador perfeito?

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Faz pouco tempo que eu descobri o que é um Sybian – um vibrador em formato de sela que parece ser o sextoy mais completo que há. Sempre fui muito a favor de brinquedinhos, pois além de trazerem variedade para a nossa vida sexual, eles nos ajudam a conhecer mais o nosso corpo e nossas zonas erógenas.

Pois bem. Estou sempre atenta à novidades nessa área, e nem sempre consigo testar tudo que gostaria por re$triçõe$ de tempo. Tenho um vibrador bem velho de guerra e fiel companheiro que me acompanha em altos e baixos faz um tempo. E como muitas vezes transas casuais andam acabando em decepção, prefiro ter dates com ele que sempre me garante um orgasmo e não me faz pergunta idiota.

O negócio é que o tal Sybian foi projetado para estímulo simultâneo de várias zonas erógenas do corpo da mulher em performance máxima.

Explico.

O brinquedo funciona da seguinte forma; são duas plataformas. Uma funciona como uma sela mesmo, na qual a donzela senta, e a outra como uma plataforma de suporte. Na sela, você pode acoplar diversas opções tipos de vibradores – e controlar tudo por controle remoto.

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Plataforma básica do Sybian. Fonte.

 

Os vibradores que podem ser acoplados são dos mais variados tipos e tamanhos. Desde estímulo externo, até mais sofisticados, com dois consolos para penetração vaginal e anal – mais um vibrador para a região do clitóris.

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Anexos dos mais variados para você personalizar o seu Sybian – Qual você escolheria?

A potência do brinquedo também é um diferencial – fazendo com que a vibração e a rotação estimulem todo o assoalho pélvico, provocando orgasmos de intensidade inédita (não acredita? procura aí no Google vídeos de mulheres usando o Sybian e veja por você mesmo).

O Sybian geralmente pesa dez quilos sem nenhum anexo, só com as plataformas. Portanto não é um dispositivo prático para levar por aí, mas sim um investimento. Aliás, bota investimento nisso. Um exemplar original – sem nenhum adendo, sai por 1.200 dólares no site oficial (cada anexo extra fica em torno de sessenta dólares).

Dá pra encontrar modelos genéricos no Amazon pela bagatela de 200 euros, mas olhando pelo design, não dá pra saber se vale o custo benefício.

Obviamente, por enquanto só me resta sonhar com esta maravilha. Pensando bem, é até bom. Se eu tivesse um desses, é provável que nunca mais saísse casa.

 

Vlog – Como são as baladas de fetiche em Berlim?

A cena noturna de Berlim se tornou uma lenda – sexo, drogas e tecno, num ambiente de puro hedonismo. Mas o quanto disso é verdade, e o que significa ter tanta liberdade assim? Um pouquinho da minha experiência pessoal na cena de baladas de fetiche aqui em Berlim, e o quanto frequentá-las tem me feito repensar minha sexualidade.

 

Ficou curioso sobre as festas? Quer saber mais? Alguns links bons para se informar:

Instagram da Pornceptual – http://instagram.com/pornceptual

https://thump.vice.com/en_us/article/qkaz8v/pornceptual-berlin-queer-sex-party

https://fizzymag.com/articles/berlin-party-self-destructive

 

 

A história do strip-tease que não foi (e agora foi, pra todo mundo)

Para conseguir sentar e contar essa história, tive que esperar toda a raiva e a humilhação passarem. Eu não queria que fosse uma carta de ódio, porque afinal o que eu conseguir extrair de tudo isso tem muito mais a ver comigo do que com qualquer outra pessoa.

Já falei algumas vezes aqui no blog sobre como é complicado para mim viver a minha sexualidade de maneira aberta, e como foi um processo de autoaceitação, que muitas vezes implicou em julgamentos e me isolou das pessoas.

Eu sempre fui uma pessoa cheia de desejo e energia, sempre tive vontade de me expressar sexualmente de maneira plena, por ser uma faceta natural da minha personalidade, mas esse meu desejo sempre esbarrou em muitas coisas. Uma delas, a insegurança dos homens e mulheres com quem me relaciono (principalmente os homens).

Como já comentei anteriormente, a sexualidade feminina é vista como ameaça, e por conta disso, tem que ser sempre objeto do desejo de outros, mas nunca ideia das próprias mulheres. Como consequência disso, os homens costumam tratar o sexo como uma temporada de caça e abate, e portanto muitas vezes só conseguem gozar literal e figurativamente quando sentem que estão no controle da situação.

Eu sou prova viva desse mal. Sendo uma mulher extremamente aberta com a minha sexualidade, sempre tive que ficar pisando em ovos para proteger a frágil masculinidade dos meus parceiros na cama. Tudo que não é iniciativa deles os deixa morrendo de medo. Não pode assim, não pode assado. Falar uma putaria, colocar uma lingerie, querer experimentar um troço novo na cama – tudo é motivo para a noite ir por água abaixo. Eu ando cada vez mais convencida que os homens podem até achar que gostam muito de sexo, mas gostam mesmo é de colecionar conquistas.

O que me traz à história de agora: Para mim, nunca bastou viver minha sexualidade de maneira aberta sozinha. Eu sempre quis ter esse meu lado reconhecido, validado e compartilhado. De alguma forma, pra mim nunca bastou que esse lado meu existisse. Eu queria que ele existisse com alguém, que eu pudesse ser reconhecida na minha maneira de expressar causando desejo na minha intimidade.

Bom, pra resumir, não rolou.

Embora eu tenha tido uma vida sexual divertida e vibrante, todas as vezes que tentei experienciar isso de maneira mais exuberante, foi tudo um grande fiasco. Ocorre que eu fiz aulas de dança por alguns anos, sempre me interessei por performance burlesca e sempre tive uma fantasia louca de fazer um strip-tease para alguém especial. Nos meus últimos dois relacionamentos sérios, as tentativas foram muito frustradas. Na primeira, fui interrompida no meio da coreografia pelo meu ex namorado, que não era capaz de lidar com aquilo (palavras dele). Na segunda, o moço em questão com quem estava num relacionamento cortou logo a ideia pela raiz, quando em devaneei em dar de presente de aniversário uma strip-tease, com um taciturno “melhor não”.

Daí que isso me gerou uma enorme frustração, que eu achei que ia se resolver este ano quando eu conheci um argentino. Moreno, alto, bonito e sensual. Só que como nada é perfeito na vida, tinha um problema: Um oceano entre nós. Eu moro em Berlim, ele em Buenos Aires. Nos conhecemos quando ele estava aqui de passagem, vivemos um breve porém tórrido affair, antes de ele voltar para os confins do cone sul. Para a minha surpresa e deleite, continuamos a conversar mesmo assim.

Ele era um pouco hétero demais para o meu gosto, mas como estava cansada de dar murro em ponta de faca com esquerdomacho, resolvi dar uma chance para o destino, mesmo sabendo que relacionamento à distância só traz dor e sofrimento. Num dos nossos papos, falei da minha fantasia frustrada de fazer o tal strip-tease, e ele se interessou imediatamente, sinalizando com entusiasmo que ia adorar me ver tirar a roupa pra ele.

Pois bem, né, logo me animei. Prometi que se ainda estivéssemos nos falando no aniversário dele, faria um strip-tease de presente.

Dois meses depois, chegou o famigerado aniversário. A nossa relação já começava a dar sinais de desgaste por conta da distância, mas como missão dada é missão cumprida, resolvi fazer o tal strip, que pelo menos ele ia ter uma boa lembrança de mim.

No meu escasso tempo livre, montei uma coreografia. Fui até a casa do meu amigo, pedi para ele me ajudar com a luz. Me maquiei. Botei uma lingerie daora. Repeti a coreografia umas cinco vezes. Editei o vídeo. Montei o link. E mandei no dia do aniversário.

Aguardei a reação dele ansiosíssima. Sentia que finalmente estava realizando uma fantasia antiga, que estava me realizando naquele momento em poder me expressar de uma maneira que nunca tinha conseguido antes. Os dias se passaram e nada. Ele sumiu. Me fez um belíssimo ghosting, e suspeito que nunca tenha baixado nem assistido ao tal vídeo.

É engraçado como, de diferentes maneiras e em diferentes graus, esse tipo de coisa acaba se repetindo nas minhas interações e das minhas amigas com os homens héteros. Nós mulheres somos ensinadas e encorajadas a trabalhar pelas relações, a tentar consertar o que está quebrado, a darmos o nosso melhor sempre, enquanto os homens aprendem a receberem os frutos dos esforços da companheira, mas se retirarem da situação quando as coisas ficam minimamente difíceis.

Nem precisa dizer que isso cria uma dinâmica de relacionamentos heterossexuais esquizofrênicos, com expectativas conflitantes. Mas eu não estou aqui para falar sobre isso. Como disse no começo, esse texto é mais sobre mim.

No fim das contas, percebi que tinha feito aquilo por mim

Toda essa experiência foi incrivelmente frustrante porque eu senti que estava muito perto de mostrar um lado meu que é muito importante pra mim e ser reconhecida por ele, coisa que acabou não acontecendo. Fiquei inconformada de pensar que ele nem sequer se interessou em ver o vídeo; eu estava tão orgulhosa do meu trabalho. Gostei do resultado final, da luz, me vi naquela coreografia, vi uma nova versão de mim, que sempre existiu mas eu nunca tive como dar vazão. E eu queria que aquela Ana existisse, fora do cantinho da fantasia em que ela sempre esteve guardada.

Foi então que eu percebi que aquele vídeo não tinha nada a ver com aquele cara, nem com meu ex, nem com meu outro ex. Eu estava fazendo tudo errado. Eu queria procurar nos outros autorização para fazer uma coisa que tinha a ver comigo, com a minha expressão, e que não precisava de mais ninguém para existir.

O negócio é; muitas das minhas interações foram satisfatórias porque eu sempre tive medo e vergonha de ser assim tão libidinosa como eu sou. Aí eu tentei apresentar esse lado meu no privado, como se fosse um presente especial, esperando que isso pudesse amortecer o impacto nas minhas relações pessoais, e eu pudesse ganhar a autorização que queria para ser desse jeito. Só que eu percebi, graças a toda essa experiência, o quanto eu me diverti, o quanto eu me senti livre, minha e poderosa, fazendo algo que eu sempre tive vontade de fazer.

Então no fim das contas, por mais que o episódio todo tenha sido meio bosta, estou grata ao meu argentino por ter, como os outros, se acovardado diante de mim. Foi por causa disso que eu percebi que eu quero continuar fazendo strips por aí porque estou fazendo para satisfazer o meu tesão, e eu não preciso da validação de mais ninguém pra isso.

E se por causa disso eu afastar pessoas que eu gosto, paciência. Eu não posso continuar apresentando uma versão diet de mim na esperança de ser mais palatável (em outras palavras, não vou ficar mais diminuindo meu brilho para proteger o ego frágil de ninguém – especialmente dos homens).

Portanto, como você já pode imaginar, este texto só pode acabar com o famigerado vídeo. Que foi fruto de muita vergonha pra mim – vergonha de ser tão disponível, vergonha do esforço que coloquei nele pra nada, vergonha de me sentir tão plena ao me expressar e ser repelida por isso – mas que agora eu só tenho orgulho e vontade de mostrar para quem quiser assistir.

Bom proveito.

 

Mais uma sessão de fotos!

Fotos de Ana Ornelas by Neto Macedo

E aí, amores? Estão cansados de ver fotos minhas? Espero que não, porque essa é a sessão de fotos mais incrível que eu já fiz e eu estou louca pra compartilhar aqui.

Mais uma vez, trabalho do talentosíssimo Neto Macedo. Me senti muito à vontade para posar e acho que isso transparece no resultado – as fotos realmente capturaram minha essência como pessoa. Acho que estou melhorando nessa coisa de ser modelo, hehe.

Vlog: Brasileiros machistas na Rússia e desculpas que não servem para nada

Depois do escândalo envolvendo torcedores brasileiros na copa e uma mulher russa, um deles tentou se justificar, mas a emenda saiu pior do que o soneto. As desculpas foram tão ofensivas que eu me senti na obrigação de vir aqui comentar.