Laceração

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Fonte: Wattpad

Que loucura isso aqui. Parece que a gente está numa bolha isolada do universo inteiro. O frio na barriga que eu sinto é claustrofóbico. É exaustivo ficar perto de você. Meus nervos ficam tão hiperativos que eu preciso de dias pra me recuperar das ressacas que você me causa.

Parece que o seu toque se encaixa no meu corpo com precisão cirúrgica. Eu estou vendo você me olhar desse jeito como se você achasse que eu sou demais pra você, e quem sabe deve ser mesmo, não é isso que todo mundo acha sempre, então diz. Fala o meu nome. Estala a consoante no céu da boca. Deixa as vogais derraparem nas arestas do seu sotaque. Eu quero ouvir você me chamar, quero ouvir meu nome estourando da sua boca como uma bolha de sabão. Eu quero existir nos seus lábios. Eu quero existir. Eu quero existir nos outros, quero sentir o que eu penso e o que eu sinto faz algum sentido para além dos meus momentos de solidão com a máquina de escrever. Estou cansada de ir, de voltar, de tentar, eu quero me desmontar, eu quero me deixar revirar, eu quero a verdade para além das personalidades inoxidáveis que a gente inventa. Toda história tem sempre dois lados, ninguém é exemplar o tempo todo, não quero ser nada, mais nada, não quero mais nenhum adjetivo chique, eu só quero a invasão do seu beijo febril, a dor do seu toque, todas as filosofias esquecidas no pé da cama. Só você, o meu nome, e as nossas inseguranças, brincando juntas na escuridão.

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Eu odeio ser mulher

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Fonte: VALENTIN CHENAILLE

 

Você me olha com essa cara de desdém.

Essa cara de quem nunca soube se colocar no lugar do outro, e me diz; “Você odeia tanto os homens, porque na verdade odeia ser mulher”.

Pois bem, então vou ser muito sincera. Você está certo. Eu odeio ser mulher.

Eu odeio ser mulher porque desde que nasci soube que minha aparência é muito mais valorizada do que minha capacidade.

Empatia.

Dedicação.

Eu odeio ser mulher porque eu choro sozinha à noite pensando em tudo que está imperfeito no meu corpo. Que não deveria ser assim. Que eu deveria me cuidar.

Mas eu também odeio ser mulher porque se eu te contar isso, você vai dizer que é frescura minha.

Eu odeio ser mulher porque envelhecer dói. Ninguém quer saber da sua sabedoria,da maturidade que os anos trazem.

Só das rugas. Da flacidez. Das manchas.

Eu odeio ser mulher porque eu fui diminuída e silenciada todas as vezes que eu tentei me fazer ouvir. Colocar pra fora minha opinião, meu riso, meu choro, minha criatividade.

Eu odeio ser mulher porque eu sei que pra tantas outras basta isso para se perder o direito à vida.

Eu odeio ser mulher porque só vão me respeitar se eu for mãe ou esposa de alguém.

Eu odeio ser mulher porque não me deixam decidir se eu quero ser mãe ou esposa de alguém.

Mas, principalmente, eu odeio ser mulher porque ser mulher é viver com medo.

É saber que a cada passo, o perigo anda à espreita.

É saber que nenhum lugar é seguro.

Eu odeio muito ser mulher quando eu lembro que todo o meu prazer em estar viva é acompanhado de uma ameaça.

Uma caminhada, um drink gelado numa noite morna, uma paixão, uma viagem, uma risada, um sorriso, um aceno.

Tudo pode ser uma sentença.

Eu odeio ser mulher porque estou sufocada entre agir com cortesia e saber que isso pode ser encarado como convite à violência, ao assédio, à coerção.

Eu odeio ser mulher porque todo o conhecimento do mundo não me protege. Eu ainda sou frágil e vulnerável, e posso morrer como todas as que morrem, todos os dias, por ser mulher.

Então, você tem toda razão. Eu odeio ser mulher.

Num mundo que odeia mulheres.

 

O tempo da alma

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Fonte: Tumblr

É quase a mesma coisa. Quando eu esperava o 847P sentindo Itaim Bibi no meio da Lapa, a música alta nos ouvidos, pensando na taça de vinho que me aguardava em casa, é quase a mesma coisa de estar aqui esperando a U7 sentido Rathaus Spandau em Kreuzberg. Só que não é. Porque eu não sou mais a mesma pessoa.

Dizem que quando a gente muda para um lugar novo, a alma chega atrasada. Eu queria um corte brusco; realmente me livrar das coisas e situações que me deixavam segura e confortável, para me redescobrir, longe das características circunstanciais que ameaçavam me engolir. Queria ter coragem para priorizar o que realmente importa para mim.

O processo, porém, é muito mais difícil do que eu tinha imaginado, nas pequenas coisas do dia-a-dia. Queria conhecer pedaços meus que eu não conseguia acessar, mas estar sem a segurança de se cercar de pessoas que sabem quem a gente é é desafiador e desconfortável.

Eu vim, mas minha alma ficou para trás. Talvez com medo de vir também e se transformar em outra coisa – o desconhecido é sempre assustador.

E embora a resistência também tenha sido parte do processo, agora eu vejo que mesmo exacutando as mesmas tarefas simples do cotidiano, minha alma não é mais a mesmo. E às vezes é confuso. Me refazer, redescobrir o que eu gosto e não gosto, quero e não quero, me importo e não me importo.

Às vezes eu acho mesmo que o maior medo sempre foi o de ser livre. Porque eu sempre desejei muito a liberdade, mas eu tinha medo das mudanças que ela podia me causar.

Mas uma coisa é certa; agora que minha alma chegou, se instalou, se contaminou e se transformou, ela não volta a ser a mesma nunca mais.

Vulgar sem ser sexy

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Fonte: Pinterest

Acho que esse clichê sempre caiu muito bem para me definir. Minha relação com minha sexualidade sempre foi conflituosa e difícil – ao mesmo tempo que sempre foi parte importantíssima da minha identidade, lidar com isso nunca foi algo natural pra mim.

Fui criada num ambiente bem repressor sexualmente falando – uma família dominada por homens, extremamente machista. Uma escola dominada por preconceitos, extremamente religiosa. Durante toda a minha adolescência, eu fui uma menina magrela, desengonçada, esquisita. Sempre era a última a fazer tudo – a última a beijar, a última a transar – e ainda assim sempre tive de reputação de fácil ou de piranha, apesar de ter uma vida social inexistente – e de ter certeza de que ninguém nem ao menos se interessava por mim para ter a fama de fácil em primeiro lugar. Lembro de ouvir amigas ficando com carinhas cafajestes, que as enrolavam, as usavam, e enquanto elas choravam as pitangas, sentia uma pontada muito clara de inveja – eu não parecia ser boa o suficiente nem para ser usada.

Apesar de tudo, sentia que meu exterior de extrema timidez e introversão eram completamente incompatíveis com a pessoa que eu era por dentro. Eu sempre fui alguém com a libido extremamente alta – desde que descobri o que era sexo gasto a maior parte do meu tempo pensando a respeito. Minha imaginação fértil sempre compensou minha pouco vivência criando fantasias vívidas e sórdidas. Eu desejava ardementemente poder ser a pessoa que eu era – poder externalizar toda essa minha natureza sexual, conseguir colocar pra fora o que estava por dentro.

Como todas essas questões complicadas de personalidade que a gente tem, foi um processo. Foi no início da vida adulta, aos poucos, que fui começando a me sentir à vontade na minha própria pele para dar vazão à minha personalidade. As roupas, o comportamento, tudo que eu tinha para dizer. Fui tirando os meus filtros, um a um, e revelando toda essa vulgaridade que eu tinha por dentro.

Vejam bem,eu advogo vulgaridade. Talvez porque eu não tenho escolha, e acaba sendo uma autodefesa. Talvez porque  eu ache mesmo que as coisas que a gente faz sem refinamento, sem pensar demais, sem editar demais, são as mais sinceras. Sempre fui alguém de natureza muito intuitiva e é libertador para mim finalmente dar ouvidos aos desejos que urravam por dentro. Tenho bem claro na minha cabeça que não tem nada de errado em ser assim, porque eu simplesmente sou, é algo que vem tão naturalmente de dentro, que não tem razão de não ser.

Porém, nem sempre é fácil. Para ter coragem de ser que eu sou, pago o preço nas minhas interações sociais. Eu consigo sentir as pessoas ficando desconfortáveis ao meu redor – quando eu falo palavrão demais, quando eu sou muito gráfica em descrever minhas putarias, quando eu me abro demais rápido demais. Nessas horas, eu fico pensando que eu queria muito mesmo conseguir ser uma pessoa reservada e discreta. Que tudo na minha vida seria mais fácil se eu não tivesse essa personalidade hiperbólica e dionisíaca.

Na minha vida amorosa, isso se multiplica. Para começar com o óbvio, digamos que #piranhastambémamam. O fato de eu ser uma pessoa sexualmente libertina, ficar com muita gente, ser aberta à experimentar, não significa que eu não me envolva, ou queira apenas sexo. Enfim, é óbvio, mas parece que não pra todo mundo. Me frustrei muitas vezes sentindo o julgamento de pessoas por quem estava apaixonada. Por muitas vezes fui trocada por um tipo tão específico de mulher que isso me criou um complexo.

Sabe aquelas meninas, discretas, dignas, reservadas, com um comportamento quase blasé, que sempre parecem estar acima de tudo isso? Elas se divertem, bebem, mas sem dar PT. Elas sabem rir de uma piada, mas não alto demais. E principalmente, elas são capazes de amar, mas sem exageros. Elas estão sempre nos cantos, cercadas por uma aura de ~mistério. Logo eu, que sempre me faltou indiferença ao que quer que seja, fui me interessar por gente que gosta deste tipo. Nem preciso falar que não tenho chances.

Nessas horas fica difícil continuar no meu propósito de seguir firme sendo a pessoa que eu sou, apesar dos pesares. Lembro de uma briga horrível que tive com um carinha por quem estava apaixonada. Ele me olhou bem no olho e disse:

– Você é uma ridícula, fica falando um monte de putaria e todo mundo está rindo da sua cara e você nem percebe.

Ele basicamente enfiou a botina em uma das minhas maiores inseguraças. Essas palavras me machuram muito, porque tocaram num dos meus maiores medos: De ser ridícula, por ser como eu sou, assim, vulgar, exagerada, extratosfericamente libidinosa.

Estou apredendo a fazer as pazes com a minha natureza vulgar sem ser sexy, simplesmente porque fingir que eu sou outra pessoa é exaustivo. Aprendendo que eu não posso oferecer para as pessoas o que elas gostariam que eu fosse – essa versão mais light de mim. Apenas o que eu sou. E também que se tem gente que vai me reduzir a isso, paciência. Quem é importante para mim sabe que eu sou sim essa pilha de energia sexual – mas também muito mais do que isso.

Por fim, talvez eu seja sim ridícula, e seja incapaz de não continuar agindo de maneira ridícula. Vou continuar usando roupas estupidamente curtas para a minha idade, ficando com todo mundo que der vontade, falando – e escrevendo! – todas as barbaridades que passam pela minha cabeça. Pelo menos hoje em dia eu consigo dizer que sou muito mais quem eu sempre quis ser – e por enquanto está bom.

Sobre a Bruna

A primeira lembrança que eu tenho da Bruna é do primeiro dia de aula na faculdade. Tínhamos que nos apresentar para turma num microfone. Ela deu um passo à frente, sacudiu os longos cabelos para longe do rosto, piscou os olhões por trás dos cílios compridos e começou a listar alguns fatos. Nada de mais, que afinal ninguém ali tinha nada de muito extraordinário para contar, até que ela começou a enumerar coisas banais de que gostava e emendou um “adoro sexo” sem alterar o tom de voz, sem nem pestanejar. Eu, que até aquele momento estava me sentindo a própria doutora em desenvoltura, olhei bem para aquela menina de gestos tímidos, franjinha e sotaque carregado do interior de São Paulo, e pela primeira vez a enxerguei.

A Bruna é assim. Ela fala. Para ela, tem coisas que são como são, e não há vergonha nisso.

A Bruna também é parceira. Ela transita entre todas as tribos. Vai do sambinha ao Audioslave sem criar caso. Com ela não tem isso da pessoa ser isso ou aquilo. Pode ser tudo ao mesmo tempo, que é melhor ainda. Essa foi uma das lições que eu aprendi com a Bruna.

Ela tem o riso solto, e o choro mais ainda. Gosta de aproveitar a vida, gosta de contar histórias, gosta de ouvir histórias. Houve um tempo em que éramos só duas contra o mundo, em conversas que se estendiam pela madrugada enquanto a gente olhava a cidade da janela do apartamento. Uma com a outra, a gente tentava entender as injustiças, as experiências, o que significava ser mulher, o que significava ser adulta, como lidar os medos, as frustrações, as tristezas. Talvez a Bruna não saiba, mas muito da minha personalidade se formou ali, e roubei muito do jeito dela de ver a vida para mim.

Uma vez, a Bruna se cortou num caco de vidro. Foi um corte muito fundo, e sangrou muito. Tanto que dias depois a cicatriz ainda estava bem feia e inchada,e todos nós nos compadecemos dela. Ela contou que o machucado ainda estava doendo, e todos os presentes começaram a exclamar. Na quarta exclamação, ela soltou:

– Ai gente, já pode parar. Eu só queria confete, já tá bom.

Essa foi outra lição que eu aprendi com a Bruna. Ela nunca tem medo, nem vergonha, de ser totalmente franca, mesmo nas coisas que a gente geralmente esconde. Ela escancara, não tem medo de rir de si mesma, de chorar por si mesma, de demonstrar o que está sentindo, de contar quando a vida não está perfeita, quando a vida incomoda, quando ela está sem forças.

Hoje em dia, a Bruna cortou os cabelos longos. Eles são curtos e coloridos, ela já não fala mais daquele jeito tímido, e tem muitos feitos extraordinários para contar. Como eu, ela também está tentando encontrar o seu lugar no mundo.

Qualquer que seja ele, uma coisa é certa: Ela nunca vai passar despercebida.

Espiral

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Fonte: Tumblr 8tracks

Tá frio, tá frio pra caralho, mas eu não sinto mais nada, as pontas dos dedos dormentes enquanto você abre a minha boca e despeja mais Jägermeister. Essa situação é ridícula, e talvez nós dois estejamos velhos demais para estarmos bêbados nos beijando em cima do capô de um carro qualquer, minha calça grudada na neve e no metal. Mas foda-se também, eu sempre odiei tudo que é morno e prefiro estar assim, prefiro os seus beijos trôpegos, minha personalidade dionisíaca se encaixa tão bem na sua, talvez seja destino que vagabundos acabem se esbarrando nos cantos do mundo, talvez nós só estejamos nos recusando a crescer, mas eu adoro ser assim toda pequenininha pra minha cintura caber direitinho nas suas mãos, tem horas que me dá vontade de te engolir, tem horas que me dá vontade de correr que essa loucura toda só pode acabar quando eu me machucar mas foda-se, foda-se, foda-se, eu tô tão bêbada e você também, despeja mais álcool na minha boca, me dá um banho, me leva pra casa, arranca minha roupa, me come até a gente desmanchar na minha cama.

***

A gente entrou na banheira de roupa e tudo, e quando eu olho no espelho parece que meu coração tá batendo dentro do meu crânio, essa cidade, essa cidade é a cidade do pecado, eu vim aqui pra me perder, e enquanto você olha pra mim com essa cara de quem mal consegue focar aquela música vem na minha cabeça, I just wanna turn the lights on, in these volatile times… Mas tá certo, eu queria ser livre, e eu estou sendo livre, é que liberdade é uma coisa perigosa, ainda mais pra gente como eu, mas tá tudo certo, eu tô tão descolada da pessoa que eu fui que eu acho que ela não volta nunca mais e isso é bom, ela tinha medo, e eu não tenho mais medo de nada, então vem, turbilhão por turbilhão a gente se neutraliza, se for pra doer deixa doer com força, se a cidade é fria e o inverno é longo, vamos incendiar essa porra toda com gasolina e autodepreciação, até não restar tijolo sobre tijolo.

Até eu me acabar.

Até a gente acabar.

Até a onda quebrar, arrasar e ir embora, pra eu arrumar a bagunça depois.

Entre o sempre e o nunca

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Quase chorei no meio da aula quando cheguei naquela parte do livro que você me recomendou em que o Elio deixa o tal bilhete para a sua paixão, o Oliver, dentro de um livro. Zwischen Immer und Nie. Você me falou isso, e eu não tinha entendido. Achei que era só uma frase em alemão. Só fui entender quando cheguei nessa cena filha da puta. Meu coração deu um nó.

Mas foda mesmo foi quando eu cheguei na parte em que o Elio visita o Oliver em Nova York, muito anos depois do romance de verão deles. Lembra? O Oliver está casado, tem filhos. O Elio não. Fiquei me perguntando se vai ser assim com a gente. Minha imaginação excessivamente fértil logo pintou um cenário pronto. É tão fácil para mim imaginar todos os detalhes.

Consigo enxergar direitinho, você vivendo numa cidade do interior, numa casa térrea, com uma decoração em cores quentes, pendendo para o laranja, totalmente descoordenada e genérica do jeito que você sabe que eu detesto. Você não liga para isso, nem a sua companheira. Ela tem um jeitinho doce e desencanado, rosto de traços simpáticos, um estilo meio hippongo. Vocês têm dois filhos. Eles entram e saem da sala para o quintal aos gritos, brincando de pega. A casa é cheia de livros e cheia de janelas emperradas, maçanetas quebradas, e paredes infiltradas que vocês dois nunca se preocuparam em consertar.

Nesse futuro paralelo, quando eu chego para visitar, contrasto com tudo na sua vida. E como a porra da imaginação é minha e pelo menos alguma vantagem tem que ter, estou muito bem, obrigada. Bem sucedida, bem comida, bem viajada. Uso jeans colados no corpo e salto agulha, conto de todas as coisas que ando fazendo, o meu mundo é imenso. Aí sentamos os três naquela sala, o passado tão distante do presente, que nem naquele clipe da Gwen Stefani.

Nessa hora, me perguntei se seria assim, ou se vai ter algum capítulo mais próximo na nossa história. O pior é que antes de você eu nunca nem quis estar com ninguém. Nem conseguia me imaginar em um relacionamento assim antes de você. Não podia imaginar que era possível ser tão eu mesma ao lado de outra pessoa, sem ter que editar nada, nada, da minha personalidade.

Nem podia imaginar que eu ia encontrar tanto de mim em você. Ah, se as pessoas soubessem que por trás dessa sua máscara de bom moço, tem tanta coisa que você esconde. Você sabe que eu te conheço de verdade. Eu sou assim toda errada, toda estragada, mas você também é. Nos reconhecemos um no outro. Tipo um Namastê ao contrário, a sombra que habita em mim saúda a sombra que habita em você.

Conheci esse seu jeito depravado, egoísta, sombrio, corrompido e me apaixonei por ele. Você não é perfeito, e eu não sou nem nunca fui. De repente era um alívio saber que com você eu tinha segurança pra gente se trancar no nosso mundinho em que a moral era colocada de cabeça para baixo, os limites se dissolviam, a selvageria era bem-vinda. Mas acabou e assim é, não há o que se possa fazer, existe muito pouco que pode ser dito, menos ainda que pode ser feito, vivi a vida inteira muito bem sozinha, eu e minhas sombras, e assim vamos ter que aprender a seguir.

Mas a sua doçura e barbárie, a sua versão para todos e a sua versão só para mim são coisas que ninguém vai me tirar. Vou levar comigo, para lembrar que um dia, a gente existiu. E em algum lugar vamos continuar sempre existindo: Entre o sempre e o nunca.

A história completa de como eu vim parar em Berlim

Costumo dizer que eu estava num casamento longo e bem sucedido com São Paulo. Mas depois de oito anos, apesar de o amor não ter acabado, eu precisava explorar outras coisas, viver outras experiências. Numa viagem a passeio, me apaixonei perdidamente por Berlim. Decidi largar tudo para viver esse amor.

Mas essa é a versão curta da história.

Na verdade, ela começa em 2014. Na época, eu tinha acabado de sair de um relacionamento muito destrutivo, estava prestes a terminar um contrato de trabalho, confusa e sem saber qual seria o próximo passo. Eu e uma amiga marcamos de ir ao cinema ver Praia do Futuro, lançamento um dos diretores que mais gostamos – Karim Ainouz. Dois dos nossos amigos tinham trabalhado na produção, e além disso somos muito fãs do Wagner Moura, então não tinha como não ir. Mas não imaginava que ia sentar na cadeira e aquele filme ia se tornar o meu preferido.

Sempre gostei de filmes cheios de diálogos, com tiradas rápidas. Praia do Futuro me encantou justamente pelo silêncio e a capacidade de dizer muito sem dizer quase nada. Me identifiquei completamente com o personagem do Wagner, o Donato. Uma pessoa que precisou ir para outro lugar para se encontrar – como tinha acontecido comigo em São Paulo – e que acaba se encontrando se jogando de cabeça em paixões passageiras. Saí do cinema maravilhada, mas o fato da história se passar em Berlim para mim era apenas um detalhe até então.

A cena da briga se passa no Tiergarten – Meu parque preferido aqui em Berlim e lugar que eu visitei em 2015

Vamos então para 2015. Eu estava empregada, as coisas estavam caminhando. Só que eu começava a sentir que estava ficando enraizada demais na minha vida. Sempre tive vontade de morar em outro país, viver outras experiências, ver o mundo. Nunca quis ser uma pessoa que entra de cabeça na carreira logo após se formar na faculdade. Eu estava sentindo que aos poucos isso ia acontecendo comigo. Eu não sentia mais que era eu mesma. Não conseguia mais escrever, minha criatividade tinha secado. Eu sentia que precisava ser livre de novo, criar de novo, ter mais uma chance de aproveitar a minha juventude do jeito que eu sempre quis. Estava juntando dinheiro, sem saber bem  qual era o plano.

Tinha uma viagem marcada para a Europa. Sempre tive vontade de ir, e era um sonho que estava realizando. Estava praticamente tudo acertado e Berlim não estava na lista dos destinos. Só que Zurique – uma das cidades pelas quais eu pretendia passar – começou a me parecer cara e complicada demais. Os preços eram absurdos, eu ia ter que trocar dinheiro, teria que valer muito a pena. Uma amiga que já conhecia Zurique disse que não tinha tanta coisa assim para ver e me aconselhou a ir para outro lugar. Eu já estava com o roteiro da viagem praticamente todo montado, e não sabia por qual outra cidade queria passar… Até que lembrei que Praia do Futuro se passava em Berlim. Mandei uma mensagem para o amigo que tinha trabalhado no filme, descolei a lista de locações e decidi: Iria para Berlim, visitar os lugares por onde os personagens do meu filme preferido tinham passado.

Assim fiz. Visitei as locações do filme numa passagem meteórica por Berlim. E me apaixonei. Eu me lembro inclusive do exato momento em que isso aconteceu. Eu já estava encantada com a paisagem cinza, urbana, cheia de grafites. Já estava balançada de ver tanta gente diferente convivendo junto. Era como a minha São Paulo, que eu tanto amava, só que nova. Mas decidi que era isso mesmo que eu queria quando saí de uma balada e o dia amanhecia. A balada tinha sido uma bosta (dica de amiga: Não vá no Matrix em Berlim) e eu estava com a energia meio baixa, me sentido meio mal. Sentei no trem para voltar para o hostel e uma hora, ele passou por cima do Spree. Eu olhei a cidade cinza no friozinho da manhã, e de repente, fiquei bem. Era uma sensação que sempre acontecia comigo em São Paulo, e para mim foi um sinal de que Berlim e eu tínhamos uma conexão especial.

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Foto que eu tirei na minha primeira viagem para Berlim em 2015 – Aloka do grafite aqui enlouqueceu

Estava decidido. Voltei para o Brasil, me matriculei numa aula de alemão, comecei a juntar ainda mais dinheiro, e procurei meios de conseguir vir pra cá. Achei um mestrado que me interessava, em inglês, e ainda por cima de graça. Fui atrás de toda a papelada. Fiz o processo seletivo. Passei.

E assim, para encurtar um pouco a história, em setembro de 2016, eu vendi todas as minhas coisas, reduzi minha vida a duas malas, pedi demissão, me despedi dos meus amigos e da minha família e parti rumo a um amor à primeira vista, esperando que valesse a pena.

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Foto no Tiergarten logo que eu cheguei

Mas aí, vou ser sincera com vocês. O começo não foi nada fácil. Quando eu saí de Belo Horizonte, aos 18 anos, para me mudar para São Paulo, nada me prendia lá. Sair de São Paulo foi completamente diferente. Eu tinha uma vida que eu construí, e eu amava. O choque foi grande. De repente eu estava sozinha num lugar em que não conhecia ninguém. Senti falta de tudo. Dos meus amigos, do meu apartamento, de sentir que pertencia a algum lugar.

Eu também tive que terminar um relacionamento que estava no auge para vir para cá. Mas isso é outra história, que talvez eu conte um dia.

Por fim, quebrei meu braço num incidente maluco, e isso deixou minha vida muito mais difícil. A solidão, a falta de independência e o frio do inverno pesaram demais. Fiquei mal, em muitos momentos. Quis desistir. Quis voltar. Tive medo de ter tomado a decisão errada. Que tipo de pessoa maluca faz o que eu fiz? Pelo menos em casa eu teria a companhia das pessoas que me amavam.

Fiquei muito em dúvida. Houve momentos em que eu cheguei a me dizer, “só até semana que vem”. Mas aí os dias foram passando. Eu fui conhecendo pessoas. As coisas foram acontecendo. E de repente, eu tive certeza de novo que essa foi a MELHOR decisão que eu poderia ter tomado.

Uma das coisas que eu mais queria vindo para cá, tem relação com esse blog. Eu queria ser criativa de novo, queria me sentir inspirada, queria me sentir eu mesma. Mais do que isso, queria te coragem para falar das coisas que sempre quis falar, da maneira que sempre quis falar, sem medo das consequências. Hoje em dia, quando eu olho para o tanto que produzi desde que cheguei aqui, eu fico feliz demais. Pode não ser nada, pode ser que poucas pessoas leiam. Mas eu saber que posso me expressar me faz sentir que a minha criatividade nunca tinha ido embora de verdade. Ela só estava adormecida.

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Eu e minhas perninhas finas apreciando o frio

Mas mais do que isso. Hoje eu estava voltando para casa, andando na rua, observando as luzes dos postes numa rua comprida e bem iluminada.Estava cheia de gente. Tinha um cara tocando a trilha sonora do Rei Leão num clarinete. E eu senti uma certeza absoluta: Eu estou exatamente onde deveria estar.

Pode parecer piegas, mas relendo esse texto e lembrando de como tudo aconteceu, chorei. Não escute meus conselhos, eu sou uma pessoa um pouco inconsequente. Mas eu recomendaria largar tudo por uma paixão, como eu fiz, para qualquer pessoa.

Neste 8 de Março de tempos sombrios, de onde tirar esperança para continuar lutando?

 

Este vídeo foi publicado em 2014 no vlog de um amigo muito, muito querido. De lá pra cá, bastante coisa mudou. Então vim aqui fazer justamente o que propus no vídeo: Refletir sobre o movimento de igualdade de gêneros nos últimos anos.

Sinceramente, está difícil falar com otimismo e esperança. Só nesta semana, muitas notícias mostram que a vida das mulheres continua sempre sob ameaça, continua sempre valendo muito pouco. Bruno Fernandes de Souza, ex-goleiro do Flamengo, julgado e condenado pelo assassinato da mãe de seu filho num crime que chocou o país, conseguiu Habeas Corpus e já recebeu propostas de nove clubes brasileiros. O ator Casey Affleck, acusado de assédio, foi premiado com o Oscar, a maior honra que se pode receber em sua profissão, provando que reputação não conta quando se é homem. E duas crianças, de seis e dez anos, foram assassinadas pelo próprio pai a facadas, que queria se vingar da mãe pelo término do relacionamento.

Não está fácil.

No últimos anos, o feminismo alcançou uma projeção midiática sem precedentes. Artistas de grande renome e projeção começaram a falar sobre o assunto. Vimos Beyoncé no palco do VMA na frente de um grande leitreiro onde se lia “feminista”. Vimos Katy Perry se juntando à marcha das mulheres. Vimos muitas atrizes, cantoras, pessoas de destaque se assumindo como feministas. E por mais catártico que seja ver a nossa causa ganhando reconhecimento (e acreditem, eu sei que é), isso não nos protegeu. O Brasil é  o quinto país que mais mata mulheres no mundo, e vimos um aumento de 54% no assassinato de mulheres negras em 2015. Num ranking de 144 países, somos o 79 em igualdade salarial. As mulheres negras chegam a ganhar inacreditáveis 40% que os homens brancos na mesma função. As jornadas duplas e triplas continuam sendo realidades. A luta pela discriminalização do aborto avançou muito pouco. Pela primeira vez desde a ditadura, não temos nenhuma mulher no quadro de ministros.

Acho que tudo isso mostra que o feminismo precisa se alinhar com uma mobilização mais ampla. Em vez de nos unirmos pelo que nos diferencia, precisamos nos unir pelo que nos aproxima. Precisamos nos unir em torno de um ideal comum, reconhecer as opressões que nós todas sofremos, darmos plataformas às mulheres que têm ainda mais direitos extirpados. Dar voz às mulheres trans, negras, periféricas, lésbicas, bissexuais. Dar voz às mães solteiras, às portadoras de deficiência, às marginalizadas. Ficou claro que adianta muito pouco colocar um rosto no feminismo. Ele precisa ser a luta de todas nós.

Neste dia oito de março, infelizmente, precisamos chorar. Precisamos sentir a dor das 530.000 mulheres estupradas por ano no Brasil. Precisamos chorar a perda das mulheres assassinadas em 2016. Precisamos estar de luto, mas precisamos seguir lutando. O machismo continua matando. Nós continuamos morrendo. Por isso, mais do que nunca, o ativismo precisa ser real, precisa ser mais do que só virtual, precisa se estender para fora de nossas bolhas. Neste oito de março, em vez de perguntar o que o feminismo pode fazer por você, pergunte o que você pode fazer pelo feminismo.

Infelizmente, estamos engatinhando. Não conseguimos nem garantir uma vida sem violência para as mulheres. Não conseguimos nem garantir igualdade salarial para nossas filhas. Mas amanhã é um novo dia. E vamos precisar lutar de novo, e de novo, e de novo. Não só por mim, não só por você. Mas por todas nós.

Fumaça

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Hoje eu enterrei você. É aquilo, as coisas doem até não doerem mais. Talvez eu ainda tenha recaídas. E eu me dou o direito de sentir sua falta, seja sem motivo, seja quando alguma coisa me lembrar de você, seja quando eu queria te contar coisas, ouvir sua opinião, sua risada. Acho que doer vai doer sempre, mesmo que seja só um pouco, mas assim é, um dia eu acordei e percebi que você tinha virado uma memória, um capítulo que acabou.

Eu não me arrependo de nada. Acho que nunca fui tão franca e sincera com os meus sentimentos. Acho que nunca tinha me entregado assim tão completamente. Não me arrependo de nada que eu fiz, porque foi tudo de verdade, foi tudo de coração, foi tudo de peito aberto. Eu fui genuína, fui fiel aos meus desejos, e me permiti sentir coisas boas, e querer coisas boas, e viver isso sem anestesia, do começo ao fim. É claro que tem coisas que eu gostaria que tivessem sido diferentes, mas acho que a gente estava tentando fazer o melhor que podia, e nos viramos como deu.

Eu fui fundo, e foi porque foi importante. Tudo bem a gente se estilhaçar às vezes, tem horas que a bússola quebra mesmo, e eu já me perdi por muito menos, é claro que ia me perder dessa vez, sendo que eu nunca tinha sido amada dessa maneira antes, nunca tinha sentido tanta afeição e aceitação, então é claro que a abstinência ia ser de enlouquecer, foda-se quem não entende, eu sou assim, as coisas pra mim funcionam desse jeito, não me arrependo de experimentar tudo em detalhes, os bons e ruins.

Doeu, doeu mesmo, doeu de verdade.

Mas agora eu saí mais uma vez inteira do outro lado. E a vida continua lá fora.

E agora eu estou aqui com uma taça de vinho, vendo a neve cair na janela, assistindo um filme ruim e quando eu encho os pulmões de ar sinto uma paz tão gostosa de saber que tudo que eu passei foi incrível.

Tudo que está por vir será melhor ainda.