Oração pelas meninas

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Que não sejamos donas dos nossos corpos
Que não sejamos donas da nossa voz
Que sejamos eternamente portadoras do pecado original
Que nunca nos falte quem nos diga o que podemos fazer

Deus nos perdoe
Por nossa ousada existência
Por nossa indolente desobediência
Por nossas vidas enfim
Pequenas, tímidas, espremidas

Que sejamos capazes de esquecer dos nossos desejos
Das nossas vontades
E que saibamos muito bem do nosso lugar
E do be-a-bá que nos entra pelo cu

Que nasçamos e cresçamos lindas
Com quadris largos para o bom parir
E ouvidos surdos para o aleijado ouvir
E que se por acidente colocarmos mais uma de nós no mundo
Que ela ande calada
Que aceite ser castrada
Que não reclame quando tiver a alma estuprada
Diversas vezes pela vida
Que seja dócil ao toque
E fiel ao amor

Que seja então menina moça mulher e velha
Sem levantar a voz nenhuma vez
Para que possa garantir que, quem sabe
Consiga morrer de morte morrida
Serpenteando, escorregadia
De lá pra cá
Para fugir do perigo
De ser quem é

Nunca santa o suficiente
Jamais puta o bastante
Se burra demais já não tem valor
Mas que também não se atreva ser opinante

Que consigamos cumprir
Uma vida decente sem que ninguém descubra
As falhas e os ímpetos por dentro
Que são sentença de morte
Em qualquer parte em nos encontremos

E assim, nosso senhor, nos guie
Desde o momento em que nascemos
Deus, tem piedade de nós.

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Navegar é preciso

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Foram 22 dias, 5 países, 8 cidades. 22 em que eu nem comi, nem dormi, nem tomei banho direito… E nunca fui tão feliz. É a sensação de se conhecer cada vez mais. É estar cercada de gente cheia de vida, de histórias, de energia, pra te impulsionar. Atirando-se ao mar, a existência passa a fazer sentido. Viajar é a única coisa que realmente faz sentido na vida.

Já dizia o poeta, e não é a toa. Lançando-se ao desconhecido, encontramos propósito. A nossa existência passa a ter o dobro da força, porque ela não está atrelada ao que ficou em terra; ela passa a importar por si só. Ainda que seja a custa de tantas mortes, perigos e tormentas, como dizia o Velho do Restelo, as lágrimas são um preço até justo a se pagar para encontrar o sentido de se estar aqui, neste momento. Navegar é preciso. Viver, nem tanto.

No lugar do coração, eu tenho uma bússola. E ela está apontando sempre para o norte, sempre pra longe, sempre para mais perto de mim. Eu só sinto a minha alma, quando ela está em movimento.

Eu estou virando um caramujo

Novembro – 2011

Está tudo tão d  i     s     t       a         n             t                    e . . .
Os ecos estão esparsos
Não tenho tempo pra ouvir o que vem de fora
Não tenho olhos para os contornos da realidade
Estou me fechando como uma concha
Uma ostra
Porque eu tenho um monte de pérolas por dentro
Um universo inteiro
E eu sinto e vejo
Num estreito no qual meu coração se espreme
E dói da forma mais bonita
Tenho galáxias e fogos de artifícios explodindo no céu da boca
E meus olhos estão enxergando em
A
Q
U
A
R
E
L
A
Como se o mundo fosse um Boticelli
Os ecos grotescos
Não tenho mais tempo para ver, nem escutar
Não tenho mais vontade de adorar, nem de odiar
É só um espaço abafado
Estou afundando em mim para me afogar nos meus fluidos
Nos meus cantinhos
E eu não quero nada além
Da incrível maravilha de se existir
Como uma engrenagem que faz barulhinhos quando se move
Da incrível capacidade de transcender
Gênero, espaço, bagagem
E ser
Levitar
Adentrar
A profunda complexidade de um universo inteiro em expansão
Que se cria sozinho
Que é meu
(E tudo que está aqui fora
É só o que os meus tentáculos estrelados
Alcançam para degustar)
Por dentro do meu universo negro
Minhas galáxias, meus buracos negros
Meus meteoros e minhas supernovas
Eu posso sentir e projetar
Como um raio laser
Varrendo o mundo
De dentro pra fora
Uma ostra
Cheia de pérolas
Uma ostra
Guardando o universo inteiro
Vou me trancar em mim
Sem remorsos
E ficar pertinho das minhas pecinhas

Eu estou realmente
Cada vez mais próxima
Da existência
h.e.r.m.é.t.i.c.a

Mar morto

Dezembro – 2011

 

O seu oceano, é inteirinho de morte.
Eu toquei as águas escuras com as pontinhas dos pés, e resolvi mergulhar. Descer, engolir água, me afogar em você. Fui além dos seus bancos de areia, seu assoalho oceânico. Fui tão fundo até a sua pressão estourar meus tímpanos, fui desafiar minha resistência nesse teu fundo de mar.
Você é abissal.
Seu oceano é inteiro amargo.
Metros e metros cúbicos de azul-escuro, manchado de petróleo, água gelada, e nenhum peixinho.
E eu, para as suas ondas me engolirem. E engoliram.
Mas eu volto, porque sempre gostei mesmo é de uma boa aventura, de estar perto da morte, de mergulhar sem tanque de óxigênio sem nada e voltar quase ilesa.
Quase.

Poeminha sem-vergonha

Janeiro – 2012 

Numa tarde de terça-feira
Você escreve em mim inteira
Com o sol se espremendo pela fresta da cortina
E lá embaixo a cidade continua sua sinfonia de buzinas
Que afinal a preguiça é o pecado original
E ter que rezar uma ave-maria ou duas logo depois não é assim tão mal
Se no meu quadril você desenha um vampirinho
Ele pode ir sugando a tinta das minhas tatuagens com um canudinho
E se no meu ombro você cita Vinícius de Morais
Lembre-se de deixar tudo na mais santa paz
Com esses diálogos cheinhos de nada
E essas bobagens de gente apaixonada
Não posso esconder que quando a gente está junto
A gente é um pouquinho mais feliz que todo mundo

Analogia fácil

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Então, o que significa esse barquinho que você tem aí?

Outubro – 2012

Estou aqui, no meu barquinho de papel porque aqui me colocaram e me disseram pra seguir viagem.
Na minha pocinha d’água escura e traiçoeira.(Um, dois, três barquinhos à esmo)Vou remando depressa porque o barquinho vai se desmanchando e eu nem sei se vou chegar a algum lugar.
Minha pocinha d’água, sempre noite, não enxergo nada.

De vez em quando dá pra vomitar luz e iluminar um caminho.
Mas meu barquinho de papel não tem leme, não nem bússola, não tem motor. Já se perdeu outra vez.

Quando eu chegar em Terra Firme
(-Me contaram.
– Quem?
– É o que dizem)
Vou secar o meu barquinho
E vou abri-lo na areia
E ele vai me mostrar o mapa inteiro
Da minha pocinha d’água e muito além.

No décimo-quarto dezembro

Dezembro – 2013

Eu sempre gostei de ter nascido nessa época do ano. Esse clima sanguíneo e exagerado, tão parecido com  a minha personalidade. Ou talvez minha personalidade foi se moldando a esses dezembros tempestuosos. Adoro que o ano acaba e eu estreio uma idade nova. Me força a pensar em mim mesma. E eu sempre adorei símbolos.
Adoro esses dias cheios de sol. Adoro esse clima de fim, de coisas mudando. Adoro, acima de tudo, as tempestades de caos que caem lá pelas cinco da tarde. Se eu pudesse ser um dia, seria o dia sete de dezembro.
Quanto mais eu vivo, menos eu tenho certezas sobre mim mesma. Achei que me conhecia tão bem, a minha vida inteira. Hoje, passei da idade em que acreditaria que minha vida ia começar. Às vezes, eu acho que ela ainda não começou. Tem um aviso? Um cartão, um telegrama que a gente recebe quando a vida realmente começa, ou a vida sempre começou e a gente que não percebe que estar vivo é estar vivo?
Muitas vezes, muitas, eu menti pra mim mesma. Mandei minhas vontades calarem a boca, porque elas não me conheciam. Fingi que não me importava com coisas que me doíam muito por dentro. Agora, eu não sei. Estou num momento de peças do quebra-cabeças todas espalhadas pela mesa. Mas, assim que é bom. Se eu puder ser mais eu mesma, eu mesma de verdade, vou conseguir ser mais feliz. É muito mais difícil do que eu imaginava, ser fiel à pessoa que sou lá no fundo.
Seja lá o que esse ano me reserva (apesar de fazer tantos planos, mas eles nunca dão muito certo), hoje eu vou tirar o dia para estar na minha companhia. E então, querida, o que você quer fazer? O que realmente vai te trazer paz? Eu já vivi muito mais que muita gente vive. Passei por todo o tipo de coisa. Como todo mundo, mas só eu sei o que é ser eu. E isso me basta.
Hoje, isso me basta. A calma dessa música vibrando dentro do quarto. A brisa soprando a cortina, os espelhinhos balançando. É bom ser eu mesma. É cada vez melhor ser eu mesma.
Parabéns pra mim.