Inelutável

Meu maio veio para me atravessar. Já disse que nunca fui boa em resistir a tentações, e dessa vez não podia ser diferente. Me atropelou e me tirou do rumo, levei horas pra conseguir voltar para a estrada, mas era exatamente isso que eu queria, era exatamente isso que eu precisava, é bom saber que eu ainda estou viva, que minha capacidade de me atirar nas coisas continua a mesma. Só me resta dizer, pode vir, pode entrar, porque eu sempre gostei mesmo é do estrago e eu tô louca pra saber o tamanho do rombo que você vai fazer, pode me bagunçar, se misturar essa sua autodestruição sombria alemã com a minha falta de limites latina o que que dá, eu já nem sei mais se eu estou confundindo paixão com tesão, mas a verdade é que eu nunca gostei de gente perfeita, eu te quero por ser assim, cheio de falhas, egoísta, teimoso, irresponsável, do mesmo jeito que eu sou inconsequente, extremada, contraditória. Já consiguia sentir antes mesmo de começar que Maio vai doer, mas como tudo que é bom na vida, a gente deixa pra lidar com a ressaca depois, e se embriaga mais agora, que se é pra sofrer, melhor sofrer direito.

Imergente

O meu Março foi um pedido da alma que ecoou em todos os cantos do universo e voltou pra mim com gosto de sal e cheiro de mar. Justamente quando eu mais precisava, foi trazer um pouquinho de magia de volta para a minha vida, iluminando os cantinhos com a luz sincera dos vagalumes. Nos seus braços, eu encontrei dentro de mim um quartinho fechado cheio de paz interior, transbordando até a tampa, a calma das incertezas, da confiança no acaso, de viver a vida com leveza e sem culpa. Foram horas de devaneio olhando o mar – as ideias, o mundo, as viagens, a vida, o desejo por dentro. O desejo por fora, que se chocou em beijos trôpegos, cheios de areia, cheios de paixão, a pele castigada pelo sol encontrando bálsamo em banhos de mar noturnos. Eu mergulhei no mar, mergulhei em mim, mergulhei nele. Da areia até o céu claro de estrelas, houve um sem fim de desejos entre dois vagabundos que a fórmula do acaso uniu, abençoados por Iemanjá e a lua dos amantes.

Inveterado

Meu Julho foi como um sopro de sonho que invadiu os meus dias. Tanto que parecia que eu estava vivendo a vida de outra pessoa. Tudo ficou em pausa. Fui abrandar a aspereza do cotidiano na sua voz baixinha, sua doçura inesgotável, fui me inspirar nas suas histórias, na sua coragem, no seu jeito de se atirar sem medo nas coisas – afinal, não deveria ser assim? Eu me afundei, me afoguei nessa nossa bolha de languidez e ternura. Fazia muito tempo que o sol por dentro não brilhava tão forte. Eu me deixei levar pelo seu senso de companhia. Eu me deixei me perder nos seus braços e o deixei penetrar fundo em cada um dos meus poros. Porque a gente se entendeu. Porque não tivemos medo. E agora, eu estou aqui me perguntando como eu consigo fazer isso tantas vezes. Como eu tenho coragem de enfiar meu coração no liquidificador sabendo que vai doer. Como eu tenho a capacidade de continuar me entregando tão completamente a tudo que vem e não fica. Mas eu sei, eu sei que meu Julho foi só meu e só nós dois sabemos o quanto. E eu vou levar cada sussurro, cada segredo, cada momento pelo resto da minha vida. Agora só me resta respirar fundo, juntar meu pedacinhos e continuar a estrada. Ele pode me levar pelo mundo afora no seu caderninho. Quem sabe um dia o universo se encarrega de nos esbarrar outra vez.

Insuspeito

Meu novo Fevereiro veio como as águas de Março: Uma enxurrada. Uma tempestade de parar a cidade toda às três da tarde de uma segunda-feira. Nesse nosso jogo de cartas marcadas, dava pra ver que não tinha espaço pra mais nada além do cheque-mate. Parecido demais comigo, demais da conta, de um jeito que parece olhar no espelho. Mas mais cruel e mais acostumado a navegar as águas escuras das emoções alheias para roubar pra si um cavalo marinho, uma concha, um naufrágio. Ainda assim, meu novo Fevereiro foi tão deliciosamente irresistível que eu não tive escolha a não ser me deixar levar, pra despejar no colo dele o meu abismo sugador, o meu buraco negro, o sangue, o vômito, a verdade incômoda, deselegante e pouco atraente. Eu, que passei praticamente a vida inteira tentando achar as palavras certas pra me descrever fui encontrá-las logo na sua boca, quando ele falava dele mesmo. Mas afinal, foi exatamente isso que ele me deu, foi exatamente isso que aconteceu: Eu me enfiei em encrenca pra escrever a respeito depois. Então, pode-se dizer que meu novo Fevereiro foi um vampiro-dilúvio, uma profecia em si, o mês curtinho que veio e foi só para me lembrar de quem eu sou lá no fundo.

Inesperado – Inacreditável – Inevitável

Inesperado

(Junho/2014)

Meu Junho foi daqueles que a gente encontra sem querer nas esquinas da vida. Quando a solidão já estava por me engolir como areia movediça, quando já não conseguia enxegar através da névoa que andava comigo. Coisa louca, essas coisas que acontecem, numa noite fria de São João com a rua apinhada de gente, tanta festa, tantos risos, de repente fixei o olhar e lá estava meu Junho, olhando pra mim. Me deu tantas coisas, sendo que eu podia dar tão pouco em troca – cigarros, álcool, tesão, carinho. Foi resgatar lá no fundo de mim, trazer no colo de volta para a superfície a mulher que eu fui, me fez lembrar quem eu era, quem eu sou, quem eu posso ser. Ele nem imagina o quanto ele me deu tudo exatamente que eu precisava, na hora em que eu precisava, coisas que eu queria e nem sabia. Meu Junho foi verdadeiro e só eu sei o quão importante, e mesmo que passageiro mudou muita coisa na minha vida. Meu Junho veio e foi embora e não faz a menor ideia de tudo que ele fez por mim, do quanto ele foi capaz de me fazer me sentir viva, de aplacar a dor. Meu Junho foi Junho; aquele mês frio e lindo da transição no meio do ano, que é curto mas é cheio de festa e tem noites claras que dificilmente são esquecidas.

Inacreditável

(Março/2012)

Meu Fevereiro foi aquele, aquele mês que é o melhor do ano, mas também é o mais curto. Meu Fevereiro compartilhou da minha descrença, do meu sarcasmo, do meu ridículo. Passou por cima daqueles receios que todos os outros sempre têm em relação à mim e veio assim ser minha companhia sem se intimidar. Meu Fevereiro admirou as coisas certas, tocou na minha alma nos pontos chave, não teve medo de me dizer coisas sobre mim que eu nem queria que alguém soubesse, mas não me machucou. Ele me viu como alguém de verdade, tirou minha capa de plástico com aquele toque gentil. Meu Fevereiro entendeu o que eu não vou tolerar nunca mais, de ninguém, e tomou cuidado quando foi preciso, me deixou ser vulnerável quando eu precisei ser e soube que eu era forte o suficiente quando foi necessário. Meu Fevereiro me fez esquecer minha preocupação com fraqueza e me fez ser humana, carne e osso, sentimentos, sem medo de ser imperfeita. Meu Fevereiro me descobriu, me fez feliz, acho que nunca fui de ninguém como fui dele. Meu Fevereiro me fez mulher (mas eu devia saber que ia ser preciso um homem de verdade para me fazer mulher de verdade). Meu Fevereiro foi o mês do carnaval mais colorido e escapista e incrível. E como não poderia deixar de ser nesses casos, Março chegou e eu estou aqui sem saber o que fazer com esse saquinho de confetes que eu nunca, nunca, quero jogar fora.

Inevitável

(Setembro/2011)

Meu Agosto veio e foi embora. Me chamou de Aninha, mas não me colocou no colo, não me fez carinho. Meu Agosto foi como um galanteador de calçada, aquele que me deixa ruborizada com umas cantadas bem baixas mas não quer saber dos meus problemas. Meu Agosto riu da minha falta de tempo, da minha pressa, do meu estresse. Deitou na minha cama, ligou minha tevê pra ver o futebol de domingo e me deixou fazer mil telefonemas, mandar mil emails. Meu Agosto me levou pra em exibir para os outros, me mandou colocar uma saia curta, passar batom vermelho, para os amigos verem que ele está pegando bem. Me levou para lugares caros, me colocou como um troféu e me choveram todos os tipos de comentário. Meu Agosto me chamou de Aninha porque pra ele eu sou ‘inha’ mesmo, não porque ele é gentil. Meu Agosto não parou pra me escutar quando eu quis contar que às vezes sinto que estou carregando um mundo nas costas. Disse que função de mulher é estar no fogão e abrir as pernas quando ele quiser mesmo e que se eu estava me fudendo a culpa era minha. Riu da minha cara quando disse que precisava de amigos, companhia, que me sentia sozinha e tinha angústias. Tirou umas notas da carteira e me mandou fazer umas compras pra esquecer. Me encheu de álcool pra se aproveitar de mim. Meu Agosto fez com que eu me sentisse uma esposinha assustada. E como não poderia deixar de ser nesses casos, um dia disse que ia comprar cigarros e sumiu.