Sete pecados, sete contos – Vaidade

Para Júlio, disciplina sempre foi o segredo da boa forma. No pain, no gain. Para manter o corpo sarado, ele sabia que precisava de dedicação, sem corpo mole. Por isso é que Júlio acordava cedo para correr antes do café. A alimentação era nos trinques. Ele levava marmita para a firma todos os dias para não ter o risco de comer errado. E ao sair do escritório, ia direto para a academia.

Aquele ali era o templo de Júlio. Nada mais glorioso que pisar no chão de PVA, deixar as pupilas se acostumarem com a luz fria, sentir o cheiro de suor dos corpos exaustos. Ali, Júlio estava em casa.

Naquela terça, entrando no vestiário, ele parou para admirar com carinho o formato do trapézio invertido saltando de seus ombros, conquistado com tanto esforço. Se trocou, colocou uma regata que deixava à mostra os volumosos braços e ia se preparando para suar quando alguém o chamou de volta.

– E aí, Julião? Coé, moleque?

No fundo do vestiário, sem camisa, ainda de óculos, com o celular na mão; lá estava o Cacique. O nome dele na verdade era Caique, mas ele tinha ganhado o apelido não só pela pele avermelhada – herança da ascendência indígena – também pela voz ressoante, o porte impressionante, e o jeitão sereno de ser.

Cacique era o melhor amigo de Júlio na academia.

Os dois sempre se motivavam no treino, e trocavam as melhores dicas para manter a forma. Por conta de Cacique, Júlio tinha trocado a proteína para hidrolisada (bem melhor) e estava adepto do pré-treino termodinâmico. Cacique estava sempre à par da novidades, e Júlio admirava sua dedicação. E ele também não deixava Júlio fazer os exercícios pela metade. Se dependesse do Cacique, a execução era sempre perfeita.

– Segura as costas… Traz embaixo… Isso, Julião…

Enquanto eles se revezavam nos halteres, Fernandinha chegou para puxar conversa. Ela era uma das meninas da academia que vivia dando mole para Júlio, cheia de risinhos e gracinhas. Quando ela se afastou, Júlio e Cacique se viraram para observar a bundinha empinada no suplex rosa choque.

– Boto fé que você ainda pega ela. – Cacique declarou. Júlio deu de ombros.

– Que é gostosinha, isso é.

***

Dois dias depois, depois de sair do banho, Júlio pediu benção para a mãe na cozinha e se jogou na cama de solteiro, o corpo dolorido do treino relaxado com a água quente. Pensando em trocar de roupa depois, pegou o celular para dar uma olhada no Insta. Nada de muito interessante, selfie da Fernandinha de biquíni, foto da ex com o barrigão e o noivo, até que chegou uma DM de Cacique.

Júlio abriu a mensagem; era uma foto. O torso nu e moreno do amigo, bronzeado de sol, refletia no espelho junto com o flash do celular. Os músculos de Cacique estavam impossivelmente esculpidos; os tríceps torneados. O abdome tinha os gominhos saltados, sulcos fundos separando os oblíquos, os mamilos escuros altivos no peitoral largo.

Júlio engoliu em seco.

o_caquice07: saca só os oblíquos! Te falei que o jejum intermitente dava resultado!

Mais tarde, quando Júlio gozou na sua mão e os braços de Cacique vieram à mente, ele disse a si mesmo que apenas queria saber como os tríceps do amigo podiam ser definidos daquela maneira.

Talvez fosse a hora de tentar o jejum intermitente também.

***

– Galera vai tomar um chope hoje depois… Vamos?

Fernandinha esticou um beicinho. Já era sexta-feira, e a movimentação na academia era perceptível. Júlio estava com um pouco de preguiça. Chope? Pra arruinar todo o trabalho da semana? Até parece. Mas Fernandinha estava usando um decote bem generoso, deixando à mostra os 300ml de silicone que ela tinha colocado em junho passado e Júlio passou a considerar. Mas ia ficar no suco, claro.

Passou a mão pelos cabelos curtos, e admirou a curva dos ombros no espelho. Os braços estavam suados, reluzentes. Os músculos inchados, definidos, o faziam estufar o peito. Que semana, leke. No pain, no gain.

– Tá monstrão, hein? – Cacique passou com ar de zombaria. Alguma coisa no fundo do estomago de Júlio se fechou como um punho.

– Tomar no seu cu.

– Que isso, Julião? Não to tirando onda não, cara. Tu tá definidasso mesmo, tá grandão.

O aperto se transformou em remorso, mas Júlio não tinha tempo pra esse tipo de sentimento; afinal, macho que é macho não fica com essas frescuras.

– Foi mal cara. To meio pilhado. Você vai pro chope?

– To pensando em ir sim. Mas não fico muito que amanhã acordo cedo. Você vai?

– Vou.

– Se quiser carona, eu to de carro.

– Demorou.

***

A água caiu no músculos doloridos e cansados de Júlio, fazendo com que seu corpo inteiro relaxasse. O chuveiro da academia era bem ruim; pinguinhos mixurucas e não esquentava direito. Mas Júlio estava tão exausto que não importava. O vestiário estava vazio. Era sempre assim; ele e Cacique era os últimos a largar os aparelhos.

No pain, no gain.

Ele massageou os ombros doloridos, quando ouviu os passos pesados de Cacique entrando no vestiário. O corpo de Júlio tencionou.

– Fernandinha vai hoje no chope?

– Vai, sim.

– É hoje hein, Julião? Tá no papo.

Júlio riu alto. Pensou no decote generoso de Fernanda mais cedo, melado de suor.

– Ela tá gostosa, né?

– Ela é bem gatinha.

– E você, Cacique? Tá de olho em alguma menina da academia?

Cacique despiu a toalha e entrou no chuveiro ao lado de Júlio. O amigo era corpulento, os quadris despontando em vincos fundos no baixo abdômen. Não que ele Júlio estivesse reparando.

– Nada, cara. De boa. Essas meninas aqui são muito bobinhas. Gosto de mulher com mais substância.

Júlio ficou intrigado com o que significava uma mulher com substância para os padrões de Cacique, mas decidiu ficar calado. Concentrou em terminar o banho rapidinho, o vapor de Axe enchendo o vestiário.

Fechou o registro, e saindo do chuveiro, os olhos passaram pelo corpo moreno de Cacique outra vez. Júlio sentiu uma clara pontada no baixo ventre. Os pelos escuros que enegreciam o peito sarado do amigo, sua pele queimada de sol, suas espaldas largas… Os olhos se demoraram na curva dos quadris do amigo, no volume perfeito das nádegas…

– Que foi cara? – Cacique perguntou. Júlio engoliu em seco.

– N-nada. – Gaguejou. – Eu é… Preciso treinar, cara. Comparando assim contigo estou fora de forma.

– Imagina. Eu só sou mais volumoso, só isso. Você tá grandão, Júlio.

– Aham. – Júlio balbuciou, fazendo menção de sair de vez da área dos chuveiros.

– Inclusive embaixo.

Júlio parou a ação no ato, ficando paralisado, o corpo estático. Olhando para baixo, viu que seu pau estava a meio mastro. A água pingava de seu corpo, a pele arrepiada. Suas bolas começavam a latejar. Será que ele conseguia alcançar a toalha antes que o seu pau ficasse duro de vez?

Não sabia o que dizer. Que desculpa dar? Estavam só os dois naquele banheiro. Rir, fazer piada, ignorar o comentário, ser engolido pelo chão… Tudo passou pela sua cabeça. Mas Cacique falou primeiro, com sua voz grave e serena.

– Isso daí é um problemão cara. Vem cá que eu te ajudo.

Como se estivesse hipnotizado, Júlio voltou para o chuveiro, deixando os pingos escassos receberem seu corpo outra vez. Cacique o fitava com olhar clínico, o mesmo olhar de professor que tinha quando corrigia a execução de Júlio nos exercícios.

– Tá tensionado. – Cacique disse. – Pra resolver tem que fazer assim, ó.

– Ah!

Júlio gemeu alto quando a mão áspera de Cacique envolveu seu pau, fazendo com que ele se enrijecesse de uma só vez. Parecia que todo o seu sangue tinha ido para sua virilha. Júlio achou que fosse desmaiar de tanto tesão.

– Tem que assim, Julião. Na maciota.

A mão de cacique passou a masturbar Júlio de maneira lenta, porém firme, e ele sentia que jorrar litros de porra a cada movimento do amigo. Os seus quadris se mexeram involuntariamente, e ele levou as mãos até os braços torneados de Cacique, as palmas apertando, sentindo seus músculos, o abdômen trincado, os vincos fundos do seu quadril até a sua virilha.

O pênis de Cacique era como o amigo; corpulento, intimidante. Júlio nunca tinha tocado o membro de outro homem; mas ao sentir o sangue pulsando dentro do pau do amigo, sua mente entrou em pane, e ele se lançou pra frente, atacando Cacique com um beijo desesperado, faminto, gemendo e se derramando na boca do amigo, mordendo seus lábios carnudos enquanto juntava os seus corpos, os dois paus agora se tocando, as glandes se esfregando uma na outra.

Não demorou para que os dois gozassem. A sensação de sentir o corpo de Cacique como uma muralha, firme e úmida, contra o seu fez com o que o pau de Júlio explodisse sêmen e ele gozasse como não gozava há tempos.

Não trocaram palavra quando saíram do vestiário, mas não foram tomar o chopinho.

Aproveitar a academia vazia no fim de semana para treinar pareceu uma ideia melhor para os dois.

FIM

Sete pecados, sete contos – Inveja

Dulce sempre foi vaidosa. De moça, fazia questão de estar sempre emperiquitada, fosse que

fosse até pra ir pra escola. Quando começou a ganhar seu próprio dinheiro, Dulce se mimava todos os meses com alguma coisinha; um batonzinho aqui, um rímelzinho acolá. Com o passar do tempo, Dulce foi ficando viciada em seguir todas as dicas das blogueiras chiques e à medida em que o salário aumentava, a qualidade das maquiagens também subia.

Nunca ocorreu para Dulce que o hábito fosse problemático. Pelo contrário. Dulce sentia um formigamento engraçado toda vez que chegava em casa com uma bendita sacolinha da Sephora, e gozava de pleno relaxamento ao lavar e enxugar todos os pincéis da Sigma como se fosse seus próprios filhinhos.

Foi só depois de se casar com Theo que a coisa toda começou a desandar.

Theo era um rapaz inteligente, cheiroso, educado e carinhoso. Genro que toda sogra pediu a Deus, ele sempre tratou Dulce a pão-de-ló, e ela se sentiu muito sortuda quando encontrava as amiga e ouvia as intermináveis reclamações de maridos que andavam feito trapo dentro de casa, achavam que lavar um copo era grande favor, e nem se dignavam a lavar as próprias cuecas freadas.

A única implicância de Theo era com as maquiagens de Dulce.

Começou com comentários sobre os preços dos tubinhos. “Precisa mesmo de outro?” “esse daí é igualzinho ao que você comprou semana passada” “lá vem você de novo com essas sacolas.” Theo dava muxoxos irritados toda vez que Dulce batia o pé para entrar na MAC nos passeios dominicais no shopping.

De começo, Dulce se fazia de manhosa, esticando um beicinho para o marido. “Poxa amorzinho, mas eu não estou bonita?” E antes ele até resmungava que sim, mas a implicância foi chegando a tal que ele começava a dizer que preferia mulheres naturais, que Dulce estava nova demais para virar perua.

Foi aí que a paciência de Dulce foi chegando ao fim, porque ela não sabia fazer um contorno perfeito e natural e um delineado de gatinho completamente simétrico pra ouvir desaforo de macho que não sabe a diferença de um Ruby Woo para Russian Red. O tom foi subindo de tal forma, que já não podiam tocar no assunto da maquiagem sem acabarem aos berros, e Dulce saía batendo as portas do apartamento, fula da vida.

Por fim, a coisa tomou tamanha proporção que Dulce propôs que eles fechassem a conta conjunta, para que ela pudesse comprar as próprias maquiagens com o dinheiro dela em paz. E decidiram não tocar mais no assunto, ainda que Theo se irritasse muito toda vez que Dulce começasse a se maquiar, ou a coleção de batons aumentasse na penteadeira.

Depois dessa história toda, o casamento que antes era cheio de paixão, foi esfriando aos pouquinhos, pois Dulce não conseguia conceber um homem tão gentil como Theo ser tão ignorante em se tratando de coisa simples feito maquiagem. Dulce era sempre elogiada por suas produções, e sabia que tinha bom gosto, acabava injuriada com a indiferença do marido diante do seu esmero em se empetecar.

E nessas, Dulce ficava cada vez mais tempo na casa da mãe aos fins de semana, aproveitando a tarde para ajudar nas tarefas enquanto ouvia o Domingão do Faustão. Ainda que mãe perguntasse se a filha não preferia estar com o marido, ela sempre dava uma desculpa esfarrapada para escapar do assunto. Mas num dia chegou uma vizinha insuportável para visitar, a tal da dona Glória do fim da rua, e Dulce supôs que a companhia do marido não seria assim tão ruim.

Portanto voltou para casa com o dia ainda claro, imaginando que iria encontrar Theo assistindo o futebol, ou cochilando no sofá. O que ela não imaginava era se deparar com tal cena quando entrou no quarto do casal.

Lá estava Theo, debruçado sobre a penteadeira de Dulce, tubinhos e maquiagens abertos e espalhados. A bagunça em cima da penteadeira deu lugar a um choque muito maior, quando Dulce caiu os olhos no marido, vestindo o hobby que Dulce ganhado no enxoval, aquele rosa-claro com renda francesa no decote. As pernas pálidas marido estavam enfiadas em um par de meias-calças sete oitavos, em tom nude e translúcidas, aquelas que Dulce usava apenas para dias de reuniões importantes no trabalho.

Mas o que mais a surpreendeu foi o rosto de Theo; os olhos verdes por trás de grossas camadas de rímel e os lábios tingidos de carmim vivo.

Theo arfou em choque.

– É… É uma brincadeira. –  Balbuciou. – Com o pessoal do escritório.

Em total silêncio, Dulce se aproximou na penteadeira, lentamente. Theo, trêmulo, continuava a murmurar qualquer coisa enquanto tentava guardar os cosméticos.

Ela segurou seu braço de maneira firme.

A maquiagem estava desastrosa. Os cílios grudados uns nos outros, o batom todo borrado. Ela percorreu o corpo de Theo com o olhar e levantou as sobrancelhas quando notou a calcinha de cetim que cobria sua virilha.

Suspirou.

– Este batom está todo borrado, Theo.  – Disse em voz baixa. – Deixa eu ajeitar para você.

Os olhos verdes se arregalaram, e Theo de súbito se calou. Dulce começou a refazer a maquiagem, com diligência e capricho. Segurou o queixo de Theo e enquanto passava a base, percebeu que nunca se deu conta das maçãs do rosto saltadas e proeminentes. Com uma sombra, fez valorizar o formato bonito dos olhos verdes.

Theo não disse nada. Apenas aceitou, complacente, que Dulce o maquiasse, embora ainda olhasse para a esposa com ares de horror. Mas o seu corpo o traíra. Por baixo da calcinha de cetim, Dulce podia ver o volume que crescia a cada movimento do pincel.

Dulce também foi começando a sentir uma mistura de euforia com formigamento, mais forte do que quando comprava cosméticos novos. Sua pele foi ficando mais quente, a tensão entre ela e o marido aumentando. Fazia muito tempo que ela não se sentia tão viva e poderosa.

Quando ela abriu o tubinho de batom vermelho e fez o contorno perfeito dos lábios grossos de Theo, podia sentir que estava molhada entre as pernas. O hálito quente do marido condensou no batom e ela foi acometida por desejo sôfrego e irreparável. Imediatamente arruinou sua pintura metendo a língua na boca de Theo, num beijo luxurioso e cheio de pecado como há tempos não acontecia.

Acabaram na cama um minuto de depois. Theo gemeu alto quando Dulce tocou seu pau intumescido por cima da calcinha, esfregando-se contra o corpo da mulher, tomado por tal onda de desejo que parecia fora de si. Quando gozou, manchou toda a renda, explodindo sêmen quente por dentro da lingerie.

Depois daquele dia, Dulce nunca mais foi para a casa da mãe aos domingos.

***

– Amor, o Flat Out Fabulous está quase acabando! – Theo gritou de dentro do quarto.

Na sala, Dulce alisava seu strap-on de vidro com carinho.

– De novo, Theo? Compramos um novo outro dia.

Theo engatinhou até a sala, usando um conjunto de calcinha e sutiã verde musgo, de cetim – com detalhes em renda preta. O rosto estava muito bem maquiado, Dulce estava orgulhosíssima de como as habilidades do marido tinham evoluído. Os lábios estavam pintados de rosa choque. Theo fez um beicinho enquanto se arrastava de quatro até a esposa.

– É que eu fico tão bem com ele, amorzinho.

– Fica mesmo. Tem razão. – Dulce sussurrou quando Theo fez um biquinho e se ajoelhou para chupar o strap-on, melando todo o vidro de batom rosa.

FIM