Quem tem medo de educação sexual?

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Nunca vou esquecer a primeira aula de educação sexual que eu tive. Tinha dez anos de idade, estava na quarta série. Numa aula de ciências, em que o currículo programático nos mandava estudar sobre os sistemas do corpo humano, finalmente chegamos ao sistema reprodutor.

Estávamos todos na sala muito empolgados e curiosos, muito mais do que jamais estivemos para conhecer nossos órgãos. Aturando muitas piadinhas e risadinhas, a professora nos conduziu pela matéria. Aprendemos quais eram e onde ficavam nossos órgãos reprodutores. Aprendemos como funciona a menstruação. Aprendemos como ocorre a fecundação de um óvulo.

Ao longo da minha adolescência, nos anos seguintes, aprofundamos os temas. Falamos de sexo seguro, de preservativos. Aprendemos sobre os sintomas de ISTs. Falamos de ciclo reprodutivo e métodos anticoncepcionais. Falamos sobre ginecologia, urologia e acompanhamento médico para a saúde sexual.

Minha educação sexual na escola me ofereceu o básico do básico, e muitas vezes deixou a desejar. Não foi no banco da escola que aprendemos sobre orientação sexual, sobre identidade de gênero e transsexualidade. Quem sabe isso teria evitado que um dos meus melhores amigos, gay, sofresse uma tentativa de espancamento de colegas no segundo ano do ensino médio? Mal e mal falamos de masturbação, e jamais ouvi dizer que era normal que mulheres também fizessem. Talvez isso teria evitado a culpa terrível que eu senti quando comecei a me masturbar. Nunca tocamos no assunto de consentimento. Quem sabe isso poderia ter evitado muitos estupros e assédios sofridos pelas minhas amigas e colegas ao longo dos anos?

Quando a gente queria uma informação mais picante recorria à Internet, às revistas como a Capricho, ou às amigas mais experientes. As informações sobre orgasmo, sobre sexo oral, sobre fantasias sexuais, tudo isso era tabu. Mas o básico do básico, para conhecer o meu corpo, eu aprendi na escola.

Ensinar educação sexual é ensinar sobre saúde

Muito triste ter que dizer uma coisa tão óbvia, mas conhecer como nosso corpo funciona é uma questão de saúde. Como cuidar bem de nós mesmos, ou saber quando há algo de errado, é essencial para que possamos viver vidas mais saudáveis. Por isso também temos aulas sobre como funcionam todos os sistemas do nosso corpo. Precisamos conhecer o funcionamento do sistema digestivo, do nosso aparelho respiratório, do nossos sistema nervoso.

Por que seria diferente com o sistema reprodutor?

A educação sexual oferece informações essenciais para que os jovens possam navegar a sua sexualidade com consciência sobre infecções sexualmente transmissíveis, métodos anticoncepcionais, e sua saúde em geral.

Estamos em 2018. Não é possível que vamos achar que jovens não fazem sexo, ou que se negarmos este tipo de informação, adolescentes vão entrar em abstinência sexual. A descoberta da sexualidade é uma parte natural da vida, e o sexo só é perigoso quando é feito sem informação. Conversar com seus filhos é fundamental para que as escolhas quanto ao sexo sejam conscientes e não traumáticas.

Eu fui perder minha virgindade depois dos vinte anos, enquanto outros colegas o fizeram aos quinze. Recebemos a mesma educação sexual, e isso não influenciou na nossa inicialização.

O desmonte não vem de agora

A educação sexual, bem como o progresso educacional, vem sofrendo ataques sistemáticos há alguns anos, provenientes da ingerência religiosa que quer promover a ignorância a todo custo em nosso país. Porém estamos agora diante do ataque mais flagrante à educação sexual de qualidade no Brasil.

O projeto intitulado Escola Sem Partido, que vem ganhando força com o levante conservador/religioso que vivemos no Brasil atualmente, propõe eliminar a educação sexual do currículo de ciências biológicas dos ensinos fundamental e médio. A justificativa se baseia numa paranoia que estes ensinamentos serviriam para “moldar o juízo moral” dos jovens.

Eu de verdade queria muito saber quem em sã consciência acredita que o interesse dos adolescentes por sexo vem da escola e não o contrário. Não é de agora que os jovens procuram saber todo o tipo de informação sobre o tema assim que começam a sentir as primeiras pontadas da puberdade. Sexo é uma parte natural da condição humana, e uma parte importante do nosso amadurecimento.

Existe abundância de informação de todo tipo sobre o sexo na Internet. Não sei como dizer isso sem ser direta: É ingenuidade acreditar que adolescentes não vão se informar sobre sexo se a escola não oferecer mais educação sexual. Estaremos apenas negando a parte mais técnica e chata da informação – justamente a mais importante para a nossa saúde.

Este é o pior momento para fazer isso

Aprender sobre educação sexual na escola é aprender sobre o funcionamento do nosso corpo e nossa saúde, mas é também levantar pontos importantes sobre o sexo que podem deixar nossa sociedade mais justa e segura. Este é o pior momento para negar aos jovens informações tão preciosas, por vários motivos.

Estamos vivendo epidemias de DSTs, principalmente entre os casais heterossexuais

O Brasil está passando por um aumento perigoso nos casos de diversas infecções sexualmente transmissíveis, que podem ser prevenidas com o uso de preservativo. Ano passado, o país sofreu uma epidemia de sífilis, doença que há muitos anos estava praticamente erradicada. Ademais, o HIV vem se espalhando entre os jovens de uma maneira silenciosa. Os casos dobraram em menos de dez anos, e entre os grupos de risco, estão as mulheres heterossexuais em relacionamentos estáveis (vítimas muitas vezes da infidelidades de seus parceiros “cidadãos de bem” e “defensores da família”).

Falar sobre o uso de preservativos, sobre como as DSTs são transmitidas, quais suas causas e consequências, e como preveni-las, é parte fundamental do currículo de educação sexual e uma informação essencial para qualquer jovem antes que a vida sexual se inicie. Estamos vivendo um momento crítico em relação a infecções que podem ser fatais, e negar este tipo de informação com toda certeza agrava – e muito – o quadro.

Estamos matando nossos LGBTs

Quer uma estatística deprimente? O Brasil é o país que mais mata LGBTs no mundo – um a cada 19 horas. São cidadãos, jovens, velhos, que trabalham, sonham, dão duro todos os dias. Sou eu. São os meus amigos. São os LGBTs na periferia que sofrem ainda mais discriminação e violência.

Sim, precisamos abordar orientação sexual nas escolas, porque é uma questão de humanidade. O Brasil tem um problema crônico e gravíssimo de homofobia, cujas raízes estão calcadas na ignorância a respeito do tema. Não venha me falar de religião. Todas as religiões, inclusive a cristã, pregam tolerância e amor ao próximo. LGBTs existem, são vulneráveis e estão sendo vítimas de violência, todos os dias. A sua religião aprova isso? Aposto que não.

Não existe curso para aprender a ser gay, minha gente. Quem dera os treze anos do governo do PT tivessem tanto a pauta LGBT em mente quanto a direita conservadora gosta de alardear. Se estamos a mercê de uma agenda gay, porque ainda somos o país mais perigoso NO MUNDO para um homossexual viver? Só podemos parar esta violência educando sobre orientação sexual, e estimulando uma sociedade igualitária e tolerante (não estamos mais na idade das trevas, estamos em 2018, vamos começar a agir de acordo, por favor).

Educação sexual é uma ferramenta de proteção para mulheres e crianças

Além das informações básicas sobre DSTs, e doenças como câncer de mama e de colo de útero, a educação sexual é fundamental para as mulheres. Nada menos que cinco mulheres morrem por dia no nosso país por questões relacionadas à gravidez. Em 2014, os abortos clandestinos levaram 200.000 brasileiras aos hospitais por complicações decorridas do procedimento.

Não vou discutir descriminalizar aborto aqui, isso pode ser assunto para outro post. Minha questão é, se somos totalmente contra a interrupção da gravidez não desejada, precisamos oferecer às mulheres a informação e as ferramentas adequadas para que ela possa prevenir que isso aconteça – isso inclui acesso à meios contraceptivos. Anticoncepcionais, preservativos, pílula do dia seguinte.

Mais do que garantir o acesso das mulheres a estes recursos, é fundamental que elas saibam usá-los corretamente. Somente uma educação sexual de qualidade pode garantir que as brasileiras tenham as informações corretas para viver sua sexualidade de maneira plena e segura.

Ou vocês vão me dizer que acreditam que a partir de agora todo mundo só vai transar pra se reproduzir?

Sem contar o número alarmante de abusos e estupros de crianças e adolescentes no Brasil, cuja maioria ainda acontece dentro de casa. Crianças, em sua maioria mulheres, são vítimas dos abusos de pais e padrastos, como no horrorizante caso recente do homem que estuprou a filha sistematicamente por dois anos, como compensação pelos gastos que tinha com ela com coisas como roupa e alimentação. Aprender o que é sexo na escola e saber diferenciar o que pode ser feito do que é abuso pode ser o que salva uma criança de uma situação dessas.

De maneira geral, não podemos confiar apenas que os pais passem informações sobre educação sexual para os filhos, simplesmente porque por mais bem intencionados ou informados que sejam, educação sexual é principalmente conhecimento científico.

Informar detalhadamente sobre o funcionamento do corpo, sobre infecções sexualmente transmissíveis e métodos anticoncepcionais deve ser dever de quem tem o conhecimento especializado na área. Não esperamos que os pais ensinem aos seus filhos sobre números complexos, sobre como resolver uma equação de saponificação, ou o funcionamento do sistema nervoso. Este conhecimento pode ser complementado em casa, mas é primeiramente dever da escola.

Estamos na contramão do mundo

Dar passos para trás em relação a educação sexual nas escolas é fazer justamente o contrário do que o resto das nações está fazendo, principalmente as mais desenvolvidas. Na Alemanha, onde eu moro, a educação sexual é obrigatória nas escolas, e não engloba apenas os aspectos biológicos do funcionamento do corpo humano, mas também questões de identidade de gênero, sexualidade e relacionamentos.

Numa decisão histórica, a Escócia, país onde vivi por um breve período, acaba de aprovar uma lei que torna obrigatório o ensino sobre a população LGBT+ nas escolas. O novo currículo contará com aulas sobre homofobia e a história dos movimentos sociais LGBT, protegendo e acolhendo alunos da comunidade desde cedo.

A própria UNESCO recomenda a educação sexual como parte do currículo escolar como maneira de garantir que os jovens tenham uma vida sexual segura e responsável, já que as pesquisas apontam que mais informações garantem uma relação mais sadia com o sexo, e não o contrário.

Negar informação é uma forma de oprimir

Do ponto de vista ético, temos o dever enquanto sociedade de dar aos nosso jovens as ferramentas necessárias para que eles entrem na vida adulta capazes de cuidarem de si mesmos. Olhando para as estatísticas atuais, fica claro que omitir informações preciosas neste caso é uma forma de violência, já que estamos negando aos nossos conhecimento que interfere em saúde física e psicológica.

Falando em especial do caso das mulheres, para mim está muito claro que a nossa sexualidade é uma das ferramentas mais utilizadas para a prática da opressão. A liberdade e autonomia femininas começam a ser restringidas em relação nosso corpo desde que somos crianças – somos vigiadas e cerceadas em relação a nossa aparência, como nos vestimos e comportamos e se espalha por todos os aspectos de nossas vidas – nossa sexualidade é associada ao nosso caráter e pode impactar nossas escolhas profissionais, de relacionamento e na maternidade.

Para mim garantir mais liberdade para as mulheres passa necessariamente pela libertação sexual. Devolver para as mulheres sua autonomia sexual é um ato de empoderamento real, porque para além de podermos fazer o que quisermos, retiramos da mão do opressor uma das suas principais armas para nos controlar.

Basicamente, para exemplificar, numa sociedade em que o caráter de uma mulher não está associado ao que ela veste, uma saia curta não pode ser uma justificativa aceitável para um estupro. Numa sociedade em que a maternidade não é vista como punição à mulher pelo ato sexual, os pais precisam assumir seus deveres paternos com responsabilidade e diligência.

A quem serve este salto para trás?

Bom, se a educação sexual é uma fonte de saúde física e mental, a quem interessaria retirar este direito dos nossos jovens? Pessoalmente eu concordo com a ideia de que o que testemunhamos no Brasil hoje é um levante da masculinidade tóxica. Homens que cresceram acreditando que merecem glória e afeto por terem nascido homens e sentem ameaçados e cerceados com a possibilidade de mais igualdade, e querem reafirmar sua relevância dentro da sociedade resgatando valores antigos de uma época em que eles se sentiam mais respeitados e valorizados – mesmo que às custas da opressão de outrem.

No fim, os homens sempre gozaram de mais liberdade sexual e como consequência tiveram mais acesso à informação sobre o tema. Para um homem falar sobre sexo, masturbação, fantasias sexuais, é um sinal de virilidade. Meninos são encorajados a iniciarem a sua vida sexual cedo, e o sexo é considerado coisa de homem, algo que os meninos devem ouvir e falar sobre como uma parte do processo de amadurecimento.

Portanto fica claro que o retrocesso serve apenas para uma parte da população. Não estamos negando conhecimento a todos – estamos negando conhecimento principalmente a mulheres, crianças, e LGBTs. Com isso, quem continua ditando as regras da sexualidade no Brasil são os homens – e o sexo continua a servir como algo que existe apenas para satisfazê-los.

A parte mais cruel disso tudo é que estamos negando proteção básica e saúde a quem mais precisa. São justamente as mulheres, os homossexuais e transsexuais e as crianças os grupos mais vulneráveis e mais propensos a sofrer com abusos, doenças sexualmente transmissíveis e gestações indesejadas.

Para mim, usar religião para justificar um retrocesso dessas proporções, num país cuja população já sofre com as consequências de educação sexual inadequada, é imoral. Educação sexual só assusta quem tem a ganhar mantendo nossos jovens no escuro e em risco. E quem não depende somente da escola para se informar e se proteger.

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A história do strip-tease que não foi (e agora foi, pra todo mundo)

Para conseguir sentar e contar essa história, tive que esperar toda a raiva e a humilhação passarem. Eu não queria que fosse uma carta de ódio, porque afinal o que eu conseguir extrair de tudo isso tem muito mais a ver comigo do que com qualquer outra pessoa.

Já falei algumas vezes aqui no blog sobre como é complicado para mim viver a minha sexualidade de maneira aberta, e como foi um processo de autoaceitação, que muitas vezes implicou em julgamentos e me isolou das pessoas.

Eu sempre fui uma pessoa cheia de desejo e energia, sempre tive vontade de me expressar sexualmente de maneira plena, por ser uma faceta natural da minha personalidade, mas esse meu desejo sempre esbarrou em muitas coisas. Uma delas, a insegurança dos homens e mulheres com quem me relaciono (principalmente os homens).

Como já comentei anteriormente, a sexualidade feminina é vista como ameaça, e por conta disso, tem que ser sempre objeto do desejo de outros, mas nunca ideia das próprias mulheres. Como consequência disso, os homens costumam tratar o sexo como uma temporada de caça e abate, e portanto muitas vezes só conseguem gozar literal e figurativamente quando sentem que estão no controle da situação.

Eu sou prova viva desse mal. Sendo uma mulher extremamente aberta com a minha sexualidade, sempre tive que ficar pisando em ovos para proteger a frágil masculinidade dos meus parceiros na cama. Tudo que não é iniciativa deles os deixa morrendo de medo. Não pode assim, não pode assado. Falar uma putaria, colocar uma lingerie, querer experimentar um troço novo na cama – tudo é motivo para a noite ir por água abaixo. Eu ando cada vez mais convencida que os homens podem até achar que gostam muito de sexo, mas gostam mesmo é de colecionar conquistas.

O que me traz à história de agora: Para mim, nunca bastou viver minha sexualidade de maneira aberta sozinha. Eu sempre quis ter esse meu lado reconhecido, validado e compartilhado. De alguma forma, pra mim nunca bastou que esse lado meu existisse. Eu queria que ele existisse com alguém, que eu pudesse ser reconhecida na minha maneira de expressar causando desejo na minha intimidade.

Bom, pra resumir, não rolou.

Embora eu tenha tido uma vida sexual divertida e vibrante, todas as vezes que tentei experienciar isso de maneira mais exuberante, foi tudo um grande fiasco. Ocorre que eu fiz aulas de dança por alguns anos, sempre me interessei por performance burlesca e sempre tive uma fantasia louca de fazer um strip-tease para alguém especial. Nos meus últimos dois relacionamentos sérios, as tentativas foram muito frustradas. Na primeira, fui interrompida no meio da coreografia pelo meu ex namorado, que não era capaz de lidar com aquilo (palavras dele). Na segunda, o moço em questão com quem estava num relacionamento cortou logo a ideia pela raiz, quando em devaneei em dar de presente de aniversário uma strip-tease, com um taciturno “melhor não”.

Daí que isso me gerou uma enorme frustração, que eu achei que ia se resolver este ano quando eu conheci um argentino. Moreno, alto, bonito e sensual. Só que como nada é perfeito na vida, tinha um problema: Um oceano entre nós. Eu moro em Berlim, ele em Buenos Aires. Nos conhecemos quando ele estava aqui de passagem, vivemos um breve porém tórrido affair, antes de ele voltar para os confins do cone sul. Para a minha surpresa e deleite, continuamos a conversar mesmo assim.

Ele era um pouco hétero demais para o meu gosto, mas como estava cansada de dar murro em ponta de faca com esquerdomacho, resolvi dar uma chance para o destino, mesmo sabendo que relacionamento à distância só traz dor e sofrimento. Num dos nossos papos, falei da minha fantasia frustrada de fazer o tal strip-tease, e ele se interessou imediatamente, sinalizando com entusiasmo que ia adorar me ver tirar a roupa pra ele.

Pois bem, né, logo me animei. Prometi que se ainda estivéssemos nos falando no aniversário dele, faria um strip-tease de presente.

Dois meses depois, chegou o famigerado aniversário. A nossa relação já começava a dar sinais de desgaste por conta da distância, mas como missão dada é missão cumprida, resolvi fazer o tal strip, que pelo menos ele ia ter uma boa lembrança de mim.

No meu escasso tempo livre, montei uma coreografia. Fui até a casa do meu amigo, pedi para ele me ajudar com a luz. Me maquiei. Botei uma lingerie daora. Repeti a coreografia umas cinco vezes. Editei o vídeo. Montei o link. E mandei no dia do aniversário.

Aguardei a reação dele ansiosíssima. Sentia que finalmente estava realizando uma fantasia antiga, que estava me realizando naquele momento em poder me expressar de uma maneira que nunca tinha conseguido antes. Os dias se passaram e nada. Ele sumiu. Me fez um belíssimo ghosting, e suspeito que nunca tenha baixado nem assistido ao tal vídeo.

É engraçado como, de diferentes maneiras e em diferentes graus, esse tipo de coisa acaba se repetindo nas minhas interações e das minhas amigas com os homens héteros. Nós mulheres somos ensinadas e encorajadas a trabalhar pelas relações, a tentar consertar o que está quebrado, a darmos o nosso melhor sempre, enquanto os homens aprendem a receberem os frutos dos esforços da companheira, mas se retirarem da situação quando as coisas ficam minimamente difíceis.

Nem precisa dizer que isso cria uma dinâmica de relacionamentos heterossexuais esquizofrênicos, com expectativas conflitantes. Mas eu não estou aqui para falar sobre isso. Como disse no começo, esse texto é mais sobre mim.

No fim das contas, percebi que tinha feito aquilo por mim

Toda essa experiência foi incrivelmente frustrante porque eu senti que estava muito perto de mostrar um lado meu que é muito importante pra mim e ser reconhecida por ele, coisa que acabou não acontecendo. Fiquei inconformada de pensar que ele nem sequer se interessou em ver o vídeo; eu estava tão orgulhosa do meu trabalho. Gostei do resultado final, da luz, me vi naquela coreografia, vi uma nova versão de mim, que sempre existiu mas eu nunca tive como dar vazão. E eu queria que aquela Ana existisse, fora do cantinho da fantasia em que ela sempre esteve guardada.

Foi então que eu percebi que aquele vídeo não tinha nada a ver com aquele cara, nem com meu ex, nem com meu outro ex. Eu estava fazendo tudo errado. Eu queria procurar nos outros autorização para fazer uma coisa que tinha a ver comigo, com a minha expressão, e que não precisava de mais ninguém para existir.

O negócio é; muitas das minhas interações foram satisfatórias porque eu sempre tive medo e vergonha de ser assim tão libidinosa como eu sou. Aí eu tentei apresentar esse lado meu no privado, como se fosse um presente especial, esperando que isso pudesse amortecer o impacto nas minhas relações pessoais, e eu pudesse ganhar a autorização que queria para ser desse jeito. Só que eu percebi, graças a toda essa experiência, o quanto eu me diverti, o quanto eu me senti livre, minha e poderosa, fazendo algo que eu sempre tive vontade de fazer.

Então no fim das contas, por mais que o episódio todo tenha sido meio bosta, estou grata ao meu argentino por ter, como os outros, se acovardado diante de mim. Foi por causa disso que eu percebi que eu quero continuar fazendo strips por aí porque estou fazendo para satisfazer o meu tesão, e eu não preciso da validação de mais ninguém pra isso.

E se por causa disso eu afastar pessoas que eu gosto, paciência. Eu não posso continuar apresentando uma versão diet de mim na esperança de ser mais palatável (em outras palavras, não vou ficar mais diminuindo meu brilho para proteger o ego frágil de ninguém – especialmente dos homens).

Portanto, como você já pode imaginar, este texto só pode acabar com o famigerado vídeo. Que foi fruto de muita vergonha pra mim – vergonha de ser tão disponível, vergonha do esforço que coloquei nele pra nada, vergonha de me sentir tão plena ao me expressar e ser repelida por isso – mas que agora eu só tenho orgulho e vontade de mostrar para quem quiser assistir.

Bom proveito.

 

(Mais) Oito Instagrams safadinhos para seguir

Como eu contei no meu primeiro post sobre perfis de sexo no Instagram, a rede social possibilita a gente achar de tudo. Desde contas com comidas delicias até aquelas com um meme melhor do que o outro, mas engana-se quem pensa que as fotos compartilhadas por lá são só work safe.

Vários perfis dedicam-se a compartilhar conteúdo erótico, diferenciado e original. Corre aqui pra ver como deixar o seu feed muito mais interessante – só cuidado na hora de abrir o aplicativo no trabalho!

LUMBRE

Cansou de tudo que é mainstream? Se joga no Lumbre. Lá o foco é erótica feminsta e queer, e as fotos, além de lindas, procuram promover a diversidade e uma relação saudável com o corpo e a sexualidade. Nada melhor para estimular a imaginação.

Petite Bohème

Quer saber mais sobre gravuras eróticas, mas não sabe por onde começar? O Petite Bohème é o ponto de partida perfeito. A conta francesa tem uma estética incrível e é focada principalmente em desvendar os fetiches e fantasias femininos. Algo que todo mundo sabe, eu vou muito a favor.

aotearotica

Ainda na pegada das gravuras, corre pra seguir a aotearotica. O perfil faz uma curadoria de variados estilos de ilustração, apresentando conteúdo diversificado num feed para todos os gostos.

Pornceptual

Bom, eu sou suspeita pra falar, porque frequento a Pornceptual aqui em Berlim assiduamente, maaaas, as fotos compartilhadas pela conta da festa mais decolada que você já viu, além de lindas, propõe uma reflexão sobre o fetiche, trazendo conteúdo queer e usando erotismo como guerrilha social. Imperdível.

Jmamuse

Ninguém vai ficar entediado depois de começar a seguir a Jmamuse. Mais do que uma conta no Insta, trata-se de um coletivo de artistas que criam conteúdo erótico de variados estilos. Diversidade é a ordem do dia, não existe restrição a fantasia alguma. Fotos, ilustrações, de artistas do mundo todo. Acredite, você não vai se arrepender de dar uma olhadinha.

Regards Coupables

Anda numa vibe mais romântica? Então o Regards Coupables foi feito pra você. Um pouquinho mais softcore sem deixar de ser muito sexy, a conta traz conteúdo erótico com uma pitadinha de romance para os apaixonados de plantão.

BBnycart

Mulheres reais fotografadas por uma mulher real, e muitas, muitas tatuagens. Tá esperando o quê pra seguir? As fotos são lindas e o photoshop passa longe.

Byron Power

Misturar erotismo com humor é uma das minhas maneiras preferidas de falar de sexo, vocês sabem. O artista Byron Power faz exatamente isso, com quadrinhos irreverentes, brincando com estereótipos gays sem medo de ser feliz.

O segredo é ir navegando; o Instagram tem conteúdo pra todo mundo, e você com certeza vai achar o seu cantinho de arte erótica preferido. Só não esquece de contar pra gente; conteúdo erótico bom é conteúdo erótico compartilhado.

 

 

 

Precisamos falar sobre camisinha

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Fonte: Getty Images

Pois é, gente. No encalço do dia internacional de luta contra a AIDS, primeiro de dezembro, vamos falar sobre essa coisinha de plástico que foi criada pra que a gente pudesse transar por aí sem ter que lidar com gravidez indesejada nem doenças sexualmente transmissíveis.

Primeiro, alguns dados que por mais que sejam repetidos vezes e vezes, parecem que não entram na cabeça da galera: Em 2014 um estudo revelou que os casos de infecção por HIV no Brasil aumentou 50% em seis anos. Sim, você leu direito. CINQUENTA POR CENTO.  

Isso sem contar outras doenças sexualmente transmissíveis. A cada ano, mais de um milhão de pessoas contraem gonorreia. Os casos de herpes genital ultrapassam 600.000. Sem falar na atual epidemia de sífilis que está acontecendo no país, cuja principal causa é justamente a falta de uso do preservativo.

Cruzo esses dados estatísticos com a minha vivência pessoal e a de muitas amigas e eu começo a ver um padrão muito preocupante. Muitos homens não fazem questão ou mesmo se recusam a usar camisinha na hora do sexo. As desculpas são muitas. Já ouvi muitos relatos de homens que não conseguem manter uma ereção com camisinha, ou que pedem pra começar sem, ou a clássica, “não dá pra sentir nada, é como chupar bala com papel”. Inúmeras vezes aconteceu comigo de eu pegar a camisinha e o sujeito me perguntar, “ué, mas você não toma pílula?”

Eu me pergunto, será que os homens acham que são imunes aos riscos do sexo inseguro?

Sinceramente, está difícil de entender vocês, rapazes. Primeiro e óbvio que você não me conhece direito, nem sabe sobre a minha saúde. Então pra que se colocar em risco desse jeito? Outra que, em uma one night stand, como é que você vai saber se eu tomo a pílula regularmente? Você confia cegamente nisso o suficiente para não se preocupar nem um pouco com uma gravidez indesejada?

É fato estatístico que os homens morrem mais cedo e vão menos ao médico. E quando eu ouço e vivo este tipo de coisa, ainda fico abismada com a displicência com a qual muitos homens tratam a saúde e o bem-estar. Próprio e dos outros ao seu redor. É fato que muitas mulher também não gostam e se recusam a usar camisinha. É fato também que ser soropositivo não é sentença, e os tratamentos de hoje garantem qualidade de vida para os portadores de HIV. Mas o tratamento é para a vida inteira, e uma coisa tão simples quanto camisinha pode prevenir. De novo, pra que arriscar?

Não quero mentir e ser moralista, e dizer que nunca escapei e transei sem camisinha, porque não é verdade. Já dei minhas escorregadas sim, mas acho que isso não é exemplo pra ninguém. Principalmente nos momentos em que não tenho parceiro fixo, sempre levo a camisinha na bolsa. Agora, o que é impressionante é em 90% dos casos, sou eu quem toca no assunto, ou pega a camisinha.

A impressão que dá é que se eu não falasse nada, rolaria sem. A minoria dos caras com quem eu transei tomou a iniciativa de colocar a camisinha. Quando converso com as minhas amigas sobre o assunto, escuto a mesma coisa. Sem contar as vezes que eu fui pressionada a não usar, culminando numa vez que eu me recusei incisivamente a transar sem camisinha com um cara que estava insistindo muito que “não tinha nada”, e tive que escutar um “ah, então você é uma dessas mulheres egoístas?”.  Respondi que era sim, peguei minhas coisas e fui embora.

Claro que este sujeito foi o ápice, mas essa sensação de que você está sendo “chata” quando pede para o cara encapar o menino é frequente. Eu só queria entender, porque na minha cabeça, é uma coisa mútua. Eu estou me protegendo e te protegendo. Deveria ser natural para os homens também quererem se preservar, mas parece que não é com eles.

Uma vez tive uma conversa séria com um peguete sobre isso, e ele me disse que tinha dificuldade que manter a ereção com a camisinha, e que ele achava que isso prejudicava muito a performance. Ele até me mostrou pesquisas que estão sendo feitas para criar preservativos mais ergonômicos e modernos, para substituir os que temos agora.

Eu acho que é muito bom que a gente possa ter em breve camisinhas mais confortáveis, mas não dá pra esperar esse dia e ter sexo desprotegido até lá. Ah, e mais uma coisa. Não existe isso de “camisinha pequena demais para o meu pau”, tá? Aqui está uma foto de uma cantora que colocou uma camisinha até o joelho para provar que não existe. Se o seu pinto é maior do que isso, você precisa ser estudado pela ciência. Estamos combinados?

Um momento de prazer não vale o risco

Pessoalmente, eu também prefiro transar sem camisinha. Eu também acho mais gostoso. Mas eu acho que precisa entrar na cabeça dos caras que não dá pra fazer sem quando você acabou de conhecer a pessoa. Tem que ser automático na cabeça das pessoas, sexo = preservativo. Se quiser fazer sem, podemos fazer os exames e aí começamos.

O que nos leva a outro assunto. Uma em cada cinco pessoas contaminadas pelo vírus HIV não sabe. Lembrando que quando a AIDS não está sendo tratada é que o risco de transmissão é maior. Estou acostumada a fazer os exames de sangue para DSTs anualmente, junto com o papanicolau, o ultrassom, etc. Acho que como nós mulheres já estamos acostumadas a cuidar da nossa saúde sexual, fica mais natural incorporar na rotina.

Agora, para os homens, que já vão menos ao médico, parece que fazer este tipo de exame é raridade. O ex namorado de uma amiga recebeu a notícia que uma menina com quem saiu um tempo era soropositiva. Minha amiga insistiu para que ele fosse fazer o exame, já que eles estavam transando sem preservativo, e ele ia deixando sempre para amanhã, como se não fosse problema dele. No fim, ela foi se consultar primeiro, para saber o resultado.

No meu último relacionamento, eu tinha acabado de fazer todos os meus exames quando começamos a namorar. Usávamos camisinha, e pedi para que ele também fizesse os testes pra gente poder transar sem. Adivinha quem enrolou e adiou? Transamos sem camisinha, com a promessa de que ele faria os exames logo, mas no fim, eu que tive que refazer os exames.

Eu acho que eu nem deveria ter que pedir uma coisa dessas duas vezes, é o mínimo de consideração e respeito com alguém com quem você se importa. Mas eu ouço esse tipo de história o tempo todo. Os meninos não querem ir fazer o teste. Lembrando que o exame é feito gratuitamente pelo SUS e o resultado sai na hora. É fácil e rápido. Não tem desculpa, gente. Não tem.

Detesto ter que dar essa bronca sobre uma coisa que deveria ser óbvia, mas aparentemente é necessário. E de novo: Sei que muitas meninas também não gostam e se recusam a usar camisinha, mas o meu papo hoje é com os meninos. Sexo é uma delícia, e não deve ser motivo para transtorno e tristeza.

Se cuidar e se prevenir é algo que você deve fazer por você, pela sua saúde. E também pelas pessoas com quem você se relaciona. As que você vai namorar e as que você vai passar só uma noite. Sexo é troca, e requer cuidado mútuo.

Então vamos usar camisinha. De morango, de limão, de uva, que esquenta, que esfria, com ranhuras, extragrande, que brilha no escuro, que vibra. Mas vamos usar. Da próxima vez que você ver um comercial de camisinha na TV, saiba: É pra você. Eles estão falando com você.