Queria te dizer

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Vou te dizer que não esperava, mas você já sabe. Ando muito arredia e avessa, mais cética do que jamais fui, mas de repente me pego com a cabeça nas nuvens, o coração aos saltos, energia para atravessar a cidade de um canto a outro umas dez vezes por dia.

Se eu te disser que dessa vez é diferente, será que você acredita? Será que eu acredito?

 

Depois de me enfiar na névoa tantas vezes que perdi a conta, sentimentos arrebatadores e confusos, intensos demais, parece que tudo é tão claro que eu vejo em alta definição, as nossas promessas e os nossos desejos, os nossos medos e as nossas falhas, as nossas lembranças e segredos.

E eu sei que nada dura, ninguém nunca fica, já me acostumei, mas dessa vez, me pego desejando que você fique mais, mais um pouco, mais que um pouco, muito mais, mesmo com tantas barreiras, mesmo a gente sendo improvável, quem sabe a gente não consegue fazer dar certo, como você divaga.  Não vá embora assim que eu me entregar, estou cansada de ser só um desafio, você não imagina o quão solitário ser a tal da mulher incrível pode chegar a ser, fica mais um pouco, me conta do seu dia, me fala dos seus sonhos, que eu estou fazendo malabarismo na minha cabeça para não deixar minha insegurança envenenar tudo dessa vez, me deixa deitar no seu colo, me faz um carinho e me deixa sentir tudo que eu quero sentir que eu não sei por quanto tempo mais eu consigo me segurar.

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Ode a um sentimento forasteiro

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Fonte

Uma das coisas que eu mais gosto em aprender línguas é que a gente ganha novas ferramentas pra explicar o mundo ao nosso redor. Tem coisas que a gente sente ou sabe, mas na nossa língua elas não têm nome, e aí a gente descobre magicamente que existem em outra língua e parece que o mundo ganha uma nova pecinha.

Gosto muito, por exemplo, da palavra infatuation do inglês, que é usada para descrever aquela sensação de paixão passageira ou crush em bom português, mas que tem uma conotação de sentimento intenso e fugaz que não tem paralelo na nossa língua. Ou a sobremesa do espanhol, que não significa necessariamente quitutes docinhos, mas sim aquele papo que se segue a uma boa refeição e pode se estender por horas. Nunca entendi como não temos tradução para essa palavra em mineirês, sendo que nós mineiros somos especialistas em sobremesear.

Os alemães são campeões em dar nome pra tudo; pode pensar nas coisas mais específicas que elas vão ter alguma averbação em alemão (de preferência com muitas consoantes todas juntas). Fernweh, por exemplo, descreve o desejo intenso de se estar longe, sentimento esse que precisamente que me trouxe para a Alemanha quase dois anos atrás.

Mas de todas essas palavras que as outras línguas me trouxeram talvez nenhuma me fascine tanto quanto longing.

O Google me diz que o significado de longing é “yearning desire“, que por sua vez pode ser traduzido literalmente como “desejo ansiado”.

Hmmm, desejo ansiado.

O que mais me pega nessa palavra é justamente o sentimento que ela descreve. É um tipo de desejo tão intenso que queima. Aquele sentimento de querer tão desesperadamente que dói por dentro, dói lá no fundo, em algum lugar que fica mais ou menos atrás do umbigo.

Sabe?

Eu acho que poucas sensações me fazem me sentir tão viva quanto longing. Me aperta no ventre, mexe com meu instinto mais primário de querer, querer e ponto, sem justificativas ou racionalizações.

É uma emoção que se basta.

Chego à conclusão que talvez seja essa uma das minhas emoções preferidas na vida; longing aparece no olhar, contamina a voz, o toque, até a respiração. É uma emoção poderosa, incontrolável.

Senti longing por inúmeras coisas e pessoas, muitas vezes também ansiei dessa maneira extremada por outras emoções. Poucas vezes me senti na outra ponta deste sentimento, mas aí vale lembrar que eu sou insegura e um pouco cega, e me falta sensibilidade para detectar determinadas coisas.

Mas minha vaidade não me deixa mentir que ser objeto de longing me parece mais sedutor que ser objeto de paixão, admiração, tesão, até amor.

Acho que no fim, eu passei e continuo passando a vida toda longing por longing.

Uma noite de abril

Enxuguei as lágrimas, acendi mais um cigarro. Bom, meu sono já era. Talvez eu devesse assistir Netflix pra distrair a cabeça. Talvez eu devesse ir até um Späti e comprar uma garrafa de vodca pra tomar de guti guti até entrar em coma alcoólico. Quando eu olhei para o lado, Berlim estava no canto do quarto, as mãos nos bolsos da jaqueta de couro e aquele sorriso infeliz de sempre.

– Ah, não. Outra vez? Cê não tá vendo que não é uma boa hora?

– Tô. Eu acho que é bem feito. Foi arranjar sarna pra se coçar, e quer que eu sinta pena de você? Não sinto nem um pouco.

– Vai tomar no cu. Eu não te convidei. Não preciso de você aqui pra me espezinhar.

Ele se sentou na cadeira com aquele mesmo jeito afetado insuportável.

– Engraçado essa história de não te convidei. Não era você que me queria?

– Eu só quero ficar sozinha.

– Quantas vezes, Ana? Quantas vezes você esteve nessa exata mesma situação? Quantas vezes mais? Você quer que eu sinta pena, eu não sinto. Você sente pena de você mesma por nós dois.

– Pra alguém descolado, seu discurso é bem de autoajuda americano. Já disse, não quero ouvir.

– Olha pro lado. Não tem mais ninguém aqui. Só tem nós dois. Sempre foi só nós dois.

O silêncio é tão alto que é quase um barulho. Nem um carro, nem uma folha, nem uma buzina. A noite é estática. Ele tem razão.

– Vem cá. – Ele aponta para o colo. Eu dou um muxoxo irritado. – Gostei das trancinhas.

– Apareceu aqui só pra comentar meu penteado?

– Vem aqui. Por que você resiste tanto a tudo? Para de resistir. Para de fazer tanta força.

Reconheci a derrota, fui cambaleando para o colo dele, humilhada. Não era pra ser assim. Era para a gente dar as mãos, sair por aí, viver aventuras.

Chorei mais. Chorei muito. Nem um pio, nem um alívio, nem uma anestesia.

– Dói, né? Olha pra mim. – Eu resisti. Ele me puxou pelas trancinhas. Me fez encarar os seus olhos azuis frios e cruéis. – Até quando a gente vai brincar de gato e rato? O que você quer? Você me queria, e eu estou aqui. Não tem mais ninguém. Ouviu? Nunca teve mais ninguém. Sou só eu. Sempre foi.

Desci do colo dele. A gente entrelaçou os dedos. As mãos dele eram frias e úmidas, como as de um cadáver. Mas ele tinha razão, nunca houve mais ninguém.

Levei Berlim pra cama, deixei ele me ninar em silêncio, me julgando baixinho enquanto eu chorava mais.

Pela primeira vez, adormeci nos seus braços.

Impelente

Meu abril veio porque nenhum inverno dura pra sempre. A gente encanta e se encanta, é tão fácil quando é passageiro, mas ainda assim, tantas coisas ficaram, quando a gente às vezes se entrega por tão pouco, se machuca por tão pouco, se desespera por tão pouco. Eu tinha me esquecido que também não existem só pessoas que vêm cheias de espinhos. Tem aquelas que só dão sem esperar nada em troca, que vêm e passam só pra preencher a nossa vida com um pouquinho de felicidade.

E é ilusão eu sei, de ilusões eu entendo bem, já estive vezes demais no olho do furacão e sei que tudo que explode rápido se esgota rápido, mas que seja ilusão, deixa queimar até a cinza, deixa arder devagarzinho. E eu prometo que dessa vez eu não estou mentindo, eu não estou fingindo, e nós já somos adultos, e somos livres, e sabemos separar as coisas, eu sei colocar tudo em perspectiva, que mal tem em deixar alguém entrar e fazer na morada na nossa vida por uns dias, se a minha solidão me cai tão bem, já me acompanha há tanto tempo, sei que vai me esperar de braços abertos depois.

Então me deixar viver meu abril, rir nas madrugadas e nas festas, ouvir elogios melados e vazios, me perder na paixão momentânea, encantar e me encantar, porque nenhum inverno dura pra sempre.

Mas o meu foi longo demais.

Diálogo imaginário

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Fonte

Abri a janela. Berlim entrou me fustigando com seu vento gelado de inverno, jaqueta de couro, uma garrafa de Club Mate Vodka na mão. Roubou meu último cigarro sem a menor cerimônia.

– Ei! – Eu protestei, ela não deu atenção. Saiu examinando meu quarto, se largou numa cadeira.

– E então, dona Ana Pimenta, Pimenta Cítrica… Está de volta? – Fiz que sim dando de ombros. – E agora, fica de vez? Ou decidiu que é nômade por natureza?

– Não decidi nada.

– E já achou o que veio procurar aqui?

– Estou quase.

– Eu acho que dessa vez você fica.

– É mesmo?

– Eu acho. Acho que você pode até tentar fugir de quem é, mas não tem jeito. Você tem talento natural pra falta de limite, pra autodestruição, para almoçar álcool e jantar cigarros, pra se perder em hedonismo até esquecer quem foi um dia.

Eu recostei na cadeira. Em outros tempos, aquele tom assertivo teria me intimidado. Não mais.

– Será? Será que eu sou só isso mesmo? Não sei… E também não estou muito certa que você seja só isso. Acho que tem muito mais que você esconde.

– Por quê? Você esconde muita coisa?

– Mostro pra quem vale a pena.

Ela se inclinou na cadeira, soprou a fumaça no meu rosto, estreitou o olhar.

– Pra mim vale a pena?

– Tá tarde. Tá frio. A gente conversa outra hora.

Fechei a janela, a expulsei dali. Ela podia esperar até amanhã. Agora, nenhuma cidade, nenhuma pessoa, nenhuma decisão.

Só o silêncio do meu universo particular.

Meu artigo para a Pornceptual MAG #3!

Tô escrevendo esse post cheia de orgulho – mas não é todo dia que a gente colabora para um projeto que acredita e admira muito. Para quem não conhece, o Pornceptual é um coletivo de pornografia queer e de guerrilha que é baseado aqui em Berlim. Quem comanda são três brasileiros, e eles produzem desde festas de fetiche, festivais de música, até sessões de fotos, vídeos e também, em edições especiais, a revista Pornceptual MAG. A edição #3 que acabou de sair tem como tema “Guerrilla”; uma compilação de autores, modelos, artistas visuais e fotógrafos criando conteúdo em cima de uma temática comum: A ideia de que o sexo e a pornografia podem ser instrumentos de justiça social, quando eles se afastam de estereótipos mainstream e dão voz para as minorias.

Foi uma delícia colaborar com a revista porque acredito no que o projeto propõe. Falei sobre a importância da alternativa feminista ao pornô tradicional como arma para o empoderamento feminino. A edição é limitada, mas você pode correr aqui para encomendar a sua. Aproveita e entra lá no site da Pornceptual para fuçar em tudo. O conteúdo é de encher os olhos.

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Sobre a minha terra

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Fonte: Nasa

A minha terra fica muito, muito longe. É preciso sair do continente, dobrar a esquina ali no Atlântico, e descer direto, até um cantinho do mundo em que você achou que já não tinha mais nada.

Só que ela está lá, e é imensa.

Tem prédios enormes, cheiro de peixe nas feiras, ondas que quebram com força na areia, fábricas que empoeiram o ar, música tocando em todos os lugares. Também tem rios mortos, dinheiro manchado de sangue circulando nas ruas, sereno misturado com medo assim que cai a noite.

Mas principalmente, tem gente. Muita gente, provavelmente muito mais do que você já viu na sua vida. Gente que acorda cedo e demora muito pra chegar no trabalho, gente que gosta mais de frio do que calor, gente que fica doente se o time perde, gente que prefere gato a cachorro, gente que fala uma língua só existe lá e que parece uma colcha de retalhos, cheia de meandros e pedacinhos e voltas pra dar conta de tanta ideia diferente. Tanta gente, que nasce, cresce, vive a vida inteira e você nem sabe. Você nem viu.

A minha terra, ela é um soco no peito, ela é um ferro em brasa, ela te atravessa e vai contigo pra todos os lugares, não te deixa esquecer. Eu posso estar aqui, posso me vestir como você, comer como você, beber como você, o tempo pode até apagar meu sotaque, você pode não imaginar. Mas lá no fundo, eu sei exatamente de onde eu vim, e isso me faz ser quem eu sou.

Um recado endereçado

O que aconteceu é só nosso. Porque mesmo que a gente tentasse, não tem o que dizer. Não tem o que explicar. Nem horas de prosa narrativa da mais prolixa seria capaz de fazer outras pessoas entenderem algo que não pode ser decodificado em palavras, sintaxe, sujeito e predicado.

O que aconteceu é só meu. O que aconteceu é só seu.

O que aconteceu é só nosso. Porque eu floresço em você, sou alguém mais livre, mais forte, mais verdadeira. E você desabrocha em mim, como foi, como eu encontrei alguém diferente de quem tinha deixado.

Eu nunca estive tão nua. Você vai me despindo com os olhos, os lábios, os gestos, as palavras.

Até só restar minha alma, inteira e cristalina, iluminando os cantinhos do seu quarto cheio de penumbra.

Não tem nada pra dizer. Eu sei, você sabe. Agora o tempo vai passar. Quem sabe aonde a vida vai me levar, quem eu vou me tornar, o que vai acontecer.

Mas uma coisa é certa: Eu sou mais feliz porque eu te tive um dia.

Mais um verão

 

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Fonte 

Fui feliz pela primeira vez aos vinte anos, e o que ninguém conta sobre felicidade é que ela amarga também. Nunca tinha sentido medo de perder, e de repente eu tinha muito. Tive medo de perder tudo; pessoas, oportunidades, momentos, tive medo de me perder de mim mesma.
Mas mesmo com todo esse pavor, a verdade é que eu acabei perdendo muito também. Perdi muita gente. Perdi muita coisa. Perdi amigos, perdi amores, perdi sonhos, e me perdi de mim, muitas e muitas vezes. O que eu não imaginava é que eu ia ganhar muita coisa. Quando alguma coisa se vai, geralmente vem outra em troca. A vida às vezes me levou por caminhos que eu nem podia imaginar. Acabei ganhando pessoas e memórias que acrescentaram muito, quando eu já achava que tinha tudo.
Hoje é meu aniversário. E às vezes eu me sinto muito velha, mais velha do que jamais estive; pesam as decepções, pesam as frustrações, pesam os “e se”. Mas eu também me supreendo com a minha energia, minha capacidade de ver magia em tudo, em continuar sonhando, alto, muito, sem esmorecer.
Eu nunca tive menos certezas na vida. Tudo é um grande ponto de interrogação. Não sei o que me reserva o dia de amanhã, não sei quem vai chegar, quem vai partir, aonde eu vou parar, tem vezes que eu não sei nem quem sou eu.
Mas eu não tenho mais o medo de perder. Algumas coisas são passageiras, outras são permanentes. Mas mesmo quando tudo se vai, só depende de mim fazer casa nova.
E hoje eu sei que consigo.

Relato: Diagnóstico e tratamento de câncer de mama pelo SUS

O texto abaixo relata o diagnóstico e tratamento do câncer de mama pelo Sistema Único de Saúde. Poderia ser o relato de muitas mulheres, mas é o relato da minha mãe. Em 2009 ela foi diagnosticada com um tumor na mama direita. Minha mãe sempre fez tudo que os médicos recomendam à risca. Nunca bebeu, fumou, sempre se alimentou bem, praticou exercícios, dormiu cedo. O diagnóstico devassou nossas vidas na época, e o tratamento, embora ágil, esteve longe de ser humanizado como uma paciente com câncer necessita. Imagino que deve ser bem pior conseguir tratamento especializado longe dos grandes centros, em pacientes com demais complicações, com filhos pequenos que não tem com quem deixar, etc. A intenção do relato é mostrar um raio x sincero de como foi o tratamento pelo SUS do ponto de vista de quem sentiu na pele como é depender dele em um caso extremo como esse. Queria agradecer à minha mãe pela coragem de compartilhar esse momento tão doloroso da vida dela. Caso você queira ler mais do que ela escreve, pode encontrar mais textos aqui.

Em novembro de 2009 fui encaminhada pela minha ginecologista ao hospital público Pérola Byington, em São Paulo. O motivo: estava com um nódulo grande na mama direita. De posse da mamografia e do ultrassom, me dirigi ao hospital que atendia mulheres com câncer e que não possuíam plano de saúde.

Chegando lá, logo me perguntaram se eu havia trazido algum encaminhamento. Diante de minha resposta positiva fui imediatamente dirigida para a triagem, que na verdade era uma sala grande onde inúmeras mulheres aguardavam ser chamadas. Depois de esperar por uma hora mais ou menos, chamaram o meu nome e me fizeram apenas duas perguntas: Minha idade e se eu era fumante.

Relatei que jamais fumei. Então uma médica veio examinar a minha mama e concluiu que precisaria fazer uma biópsia. Me pediram pra aguardar porque a biópsia seria feita no mesmo dia.

Depois de umas duas horas de espera, a médica voltou com uma enfermeira e realizaram o procedimento ali mesmo na maca do ambulatório.

Me entregaram um papel dizendo que o resultado sairia em três dias.

Passado este tempo retornei ao hospital, cheia de medo e torcendo para não ser nada.
Quando chamaram o meu nome uma outra médica me atendeu. Ela pegou meu resultado em meio a dezenas de outros que estavam em cima da sua mesa e disse:

– Você sabe o que você tem não é?

– Câncer? – Respondi.

– Sim. Mas a gente vai tratar.

De lá ela já me encaminhou para outra médica que me informou que eu e muitas outras mulheres iríamos ser operadas em um regime de mutirão.

Isto mesmo. Mutirão.

Me pediram hemograma e um raio X do pulmão. Fizeram uma anamnese para investigar possíveis riscos de diabetes e hipertensão. Como estava tudo certo, disseram que o melhor seria me operar o mais rápido possível, afinal, segundo a própria médica, “você tem um câncer aí”.

Ela me disse também que achava “bobagem” preservar a minha mama e que depois caso eu quisesse poderia fazer a reconstrução.

Marcaram a cirurgia para dali a quinze dias.
A sensação que eu tinha era que precisavam resolver o problema o mais rápido possível, pois várias mulheres estavam na mesma situação que eu.

Sem alternativa, acuada, deprimida e sem ao menos conhecer o médico que iria me operar compareci ao hospital no dia e horários marcados.

Fui a primeira a ser operada em meio a dezenas de outras mulheres naquele mutirão.

Quando acordei da anestesia me colocaram em uma enfermaria com mais três pacientes; todas operadas de câncer de mama, entre elas uma garota de 24 anos.

Mais tarde uma enfermeira veio fazer os procedimentos, medir pressão, pulso, enfim curativos pós operatórios. Meu corpo estava cheio de hematomas e com um dreno que ficaria por dez dias. A enfermeira disse simplesmente que era para eu me levantar e tomar banho.

Aleguei que estava ainda.muito tonta e tinha medo de cair.

Ela respondeu que se eu precisasse, isto mesmo, se eu precisasse ela me ajudaria.
Consegui tomar o banho com um mínimo de ajuda possível.

Depois de dois dias tive alta, sem sequer saber o nome do médico que me operou.

Compareci por vários dias ao hospital para fazer curativos e tirar o dreno. Porém, tudo em regime ambulatorial. Depois que retiraram os pontos recebi um relatório contendo os dados de minha cirurgia e as condições de minha saúde naquele momento; que, segundo o relatório, eram estáveis.

Tudo muito frio e impessoal.

Isto sem falar que aquele hospital era na época o melhor em atendimento para mulheres portadoras de câncer sem plano de saúde. O Brasil também estava vivendo um momento melhor e eu estava na melhor cidade do país em termos de atendimento médico, mesmo público.

De lá para cá não sei como andam as coisas no SUS.

Confesso que percebi que o queriam era agilidade para resolver o problema e salvar a vida das mulheres, mas o lado humano deixou muito a desejar. Como eu não tinha escolha minha única alternativa era me submeter ao tratamento que me propuseram… Cirurgia, quimioterapia.

Quando você é surpreendida com um diagnóstico destes parece que seu mundo desaba e a sensação que se tem é que chegou o fim. A experiência foi extremamente difícil e dolorosa. Traumática mesmo. Mas era o que se podia fazer diante das circunstâncias.

E assim foi.

Maíra de Freitas

São estimados quase 60.000 casos de câncer de mama por ano no Brasil. A lei federal 12.732 prevê que após o diagnóstico, o tratamento pelo SUS deve ser iniciado em até 60 dias, mas a lei ainda está longe de se aproximar da realidade. De acordo com o seu site oficial, o hospital Pérola Byington tem investido na humanização do seu tratamento, criando até um blog para acompanhar as iniciativas neste sentido. Porém, o blog não é atualizado desde 2013.

Muitos instiutos e ONGs oferecem tratamento psiclógico gratuito para pacientes com câncer de mama. Para se informar sobre esse serviço na sua cidade, procure o conselho regional de psicologia.