Uma noite de abril

Enxuguei as lágrimas, acendi mais um cigarro. Bom, meu sono já era. Talvez eu devesse assistir Netflix pra distrair a cabeça. Talvez eu devesse ir até um Späti e comprar uma garrafa de vodca pra tomar de guti guti até entrar em coma alcoólico. Quando eu olhei para o lado, Berlim estava no canto do quarto, as mãos nos bolsos da jaqueta de couro e aquele sorriso infeliz de sempre.

– Ah, não. Outra vez? Cê não tá vendo que não é uma boa hora?

– Tô. Eu acho que é bem feito. Foi arranjar sarna pra se coçar, e quer que eu sinta pena de você? Não sinto nem um pouco.

– Vai tomar no cu. Eu não te convidei. Não preciso de você aqui pra me espezinhar.

Ele se sentou na cadeira com aquele mesmo jeito afetado insuportável.

– Engraçado essa história de não te convidei. Não era você que me queria?

– Eu só quero ficar sozinha.

– Quantas vezes, Ana? Quantas vezes você esteve nessa exata mesma situação? Quantas vezes mais? Você quer que eu sinta pena, eu não sinto. Você sente pena de você mesma por nós dois.

– Pra alguém descolado, seu discurso é bem de autoajuda americano. Já disse, não quero ouvir.

– Olha pro lado. Não tem mais ninguém aqui. Só tem nós dois. Sempre foi só nós dois.

O silêncio é tão alto que é quase um barulho. Nem um carro, nem uma folha, nem uma buzina. A noite é estática. Ele tem razão.

– Vem cá. – Ele aponta para o colo. Eu dou um muxoxo irritado. – Gostei das trancinhas.

– Apareceu aqui só pra comentar meu penteado?

– Vem aqui. Por que você resiste tanto a tudo? Para de resistir. Para de fazer tanta força.

Reconheci a derrota, fui cambaleando para o colo dele, humilhada. Não era pra ser assim. Era para a gente dar as mãos, sair por aí, viver aventuras.

Chorei mais. Chorei muito. Nem um pio, nem um alívio, nem uma anestesia.

– Dói, né? Olha pra mim. – Eu resisti. Ele me puxou pelas trancinhas. Me fez encarar os seus olhos azuis frios e cruéis. – Até quando a gente vai brincar de gato e rato? O que você quer? Você me queria, e eu estou aqui. Não tem mais ninguém. Ouviu? Nunca teve mais ninguém. Sou só eu. Sempre foi.

Desci do colo dele. A gente entrelaçou os dedos. As mãos dele eram frias e úmidas, como as de um cadáver. Mas ele tinha razão, nunca houve mais ninguém.

Levei Berlim pra cama, deixei ele me ninar em silêncio, me julgando baixinho enquanto eu chorava mais.

Pela primeira vez, adormeci nos seus braços.

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Impelente

Meu abril veio porque nenhum inverno dura pra sempre. A gente encanta e se encanta, é tão fácil quando é passageiro, mas ainda assim, tantas coisas ficaram, quando a gente às vezes se entrega por tão pouco, se machuca por tão pouco, se desespera por tão pouco. Eu tinha me esquecido que também não existem só pessoas que vêm cheias de espinhos. Tem aquelas que só dão sem esperar nada em troca, que vêm e passam só pra preencher a nossa vida com um pouquinho de felicidade.

E é ilusão eu sei, de ilusões eu entendo bem, já estive vezes demais no olho do furacão e sei que tudo que explode rápido se esgota rápido, mas que seja ilusão, deixa queimar até a cinza, deixa arder devagarzinho. E eu prometo que dessa vez eu não estou mentindo, eu não estou fingindo, e nós já somos adultos, e somos livres, e sabemos separar as coisas, eu sei colocar tudo em perspectiva, que mal tem em deixar alguém entrar e fazer na morada na nossa vida por uns dias, se a minha solidão me cai tão bem, já me acompanha há tanto tempo, sei que vai me esperar de braços abertos depois.

Então me deixar viver meu abril, rir nas madrugadas e nas festas, ouvir elogios melados e vazios, me perder na paixão momentânea, encantar e me encantar, porque nenhum inverno dura pra sempre.

Mas o meu foi longo demais.

Diálogo imaginário

Capturar
Fonte

Abri a janela. Berlim entrou me fustigando com seu vento gelado de inverno, jaqueta de couro, uma garrafa de Club Mate Vodka na mão. Roubou meu último cigarro sem a menor cerimônia.

– Ei! – Eu protestei, ela não deu atenção. Saiu examinando meu quarto, se largou numa cadeira.

– E então, dona Ana Pimenta, Pimenta Cítrica… Está de volta? – Fiz que sim dando de ombros. – E agora, fica de vez? Ou decidiu que é nômade por natureza?

– Não decidi nada.

– E já achou o que veio procurar aqui?

– Estou quase.

– Eu acho que dessa vez você fica.

– É mesmo?

– Eu acho. Acho que você pode até tentar fugir de quem é, mas não tem jeito. Você tem talento natural pra falta de limite, pra autodestruição, para almoçar álcool e jantar cigarros, pra se perder em hedonismo até esquecer quem foi um dia.

Eu recostei na cadeira. Em outros tempos, aquele tom assertivo teria me intimidado. Não mais.

– Será? Será que eu sou só isso mesmo? Não sei… E também não estou muito certa que você seja só isso. Acho que tem muito mais que você esconde.

– Por quê? Você esconde muita coisa?

– Mostro pra quem vale a pena.

Ela se inclinou na cadeira, soprou a fumaça no meu rosto, estreitou o olhar.

– Pra mim vale a pena?

– Tá tarde. Tá frio. A gente conversa outra hora.

Fechei a janela, a expulsei dali. Ela podia esperar até amanhã. Agora, nenhuma cidade, nenhuma pessoa, nenhuma decisão.

Só o silêncio do meu universo particular.

Meu artigo para a Pornceptual MAG #3!

Tô escrevendo esse post cheia de orgulho – mas não é todo dia que a gente colabora para um projeto que acredita e admira muito. Para quem não conhece, o Pornceptual é um coletivo de pornografia queer e de guerrilha que é baseado aqui em Berlim. Quem comanda são três brasileiros, e eles produzem desde festas de fetiche, festivais de música, até sessões de fotos, vídeos e também, em edições especiais, a revista Pornceptual MAG. A edição #3 que acabou de sair tem como tema “Guerrilla”; uma compilação de autores, modelos, artistas visuais e fotógrafos criando conteúdo em cima de uma temática comum: A ideia de que o sexo e a pornografia podem ser instrumentos de justiça social, quando eles se afastam de estereótipos mainstream e dão voz para as minorias.

Foi uma delícia colaborar com a revista porque acredito no que o projeto propõe. Falei sobre a importância da alternativa feminista ao pornô tradicional como arma para o empoderamento feminino. A edição é limitada, mas você pode correr aqui para encomendar a sua. Aproveita e entra lá no site da Pornceptual para fuçar em tudo. O conteúdo é de encher os olhos.

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Sobre a minha terra

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Fonte: Nasa

A minha terra fica muito, muito longe. É preciso sair do continente, dobrar a esquina ali no Atlântico, e descer direto, até um cantinho do mundo em que você achou que já não tinha mais nada.

Só que ela está lá, e é imensa.

Tem prédios enormes, cheiro de peixe nas feiras, ondas que quebram com força na areia, fábricas que empoeiram o ar, música tocando em todos os lugares. Também tem rios mortos, dinheiro manchado de sangue circulando nas ruas, sereno misturado com medo assim que cai a noite.

Mas principalmente, tem gente. Muita gente, provavelmente muito mais do que você já viu na sua vida. Gente que acorda cedo e demora muito pra chegar no trabalho, gente que gosta mais de frio do que calor, gente que fica doente se o time perde, gente que prefere gato a cachorro, gente que fala uma língua só existe lá e que parece uma colcha de retalhos, cheia de meandros e pedacinhos e voltas pra dar conta de tanta ideia diferente. Tanta gente, que nasce, cresce, vive a vida inteira e você nem sabe. Você nem viu.

A minha terra, ela é um soco no peito, ela é um ferro em brasa, ela te atravessa e vai contigo pra todos os lugares, não te deixa esquecer. Eu posso estar aqui, posso me vestir como você, comer como você, beber como você, o tempo pode até apagar meu sotaque, você pode não imaginar. Mas lá no fundo, eu sei exatamente de onde eu vim, e isso me faz ser quem eu sou.

Um recado endereçado

O que aconteceu é só nosso. Porque mesmo que a gente tentasse, não tem o que dizer. Não tem o que explicar. Nem horas de prosa narrativa da mais prolixa seria capaz de fazer outras pessoas entenderem algo que não pode ser decodificado em palavras, sintaxe, sujeito e predicado.

O que aconteceu é só meu. O que aconteceu é só seu.

O que aconteceu é só nosso. Porque eu floresço em você, sou alguém mais livre, mais forte, mais verdadeira. E você desabrocha em mim, como foi, como eu encontrei alguém diferente de quem tinha deixado.

Eu nunca estive tão nua. Você vai me despindo com os olhos, os lábios, os gestos, as palavras.

Até só restar minha alma, inteira e cristalina, iluminando os cantinhos do seu quarto cheio de penumbra.

Não tem nada pra dizer. Eu sei, você sabe. Agora o tempo vai passar. Quem sabe aonde a vida vai me levar, quem eu vou me tornar, o que vai acontecer.

Mas uma coisa é certa: Eu sou mais feliz porque eu te tive um dia.

Mais um verão

 

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Fonte 

Fui feliz pela primeira vez aos vinte anos, e o que ninguém conta sobre felicidade é que ela amarga também. Nunca tinha sentido medo de perder, e de repente eu tinha muito. Tive medo de perder tudo; pessoas, oportunidades, momentos, tive medo de me perder de mim mesma.
Mas mesmo com todo esse pavor, a verdade é que eu acabei perdendo muito também. Perdi muita gente. Perdi muita coisa. Perdi amigos, perdi amores, perdi sonhos, e me perdi de mim, muitas e muitas vezes. O que eu não imaginava é que eu ia ganhar muita coisa. Quando alguma coisa se vai, geralmente vem outra em troca. A vida às vezes me levou por caminhos que eu nem podia imaginar. Acabei ganhando pessoas e memórias que acrescentaram muito, quando eu já achava que tinha tudo.
Hoje é meu aniversário. E às vezes eu me sinto muito velha, mais velha do que jamais estive; pesam as decepções, pesam as frustrações, pesam os “e se”. Mas eu também me supreendo com a minha energia, minha capacidade de ver magia em tudo, em continuar sonhando, alto, muito, sem esmorecer.
Eu nunca tive menos certezas na vida. Tudo é um grande ponto de interrogação. Não sei o que me reserva o dia de amanhã, não sei quem vai chegar, quem vai partir, aonde eu vou parar, tem vezes que eu não sei nem quem sou eu.
Mas eu não tenho mais o medo de perder. Algumas coisas são passageiras, outras são permanentes. Mas mesmo quando tudo se vai, só depende de mim fazer casa nova.
E hoje eu sei que consigo.

Relato: Diagnóstico e tratamento de câncer de mama pelo SUS

O texto abaixo relata o diagnóstico e tratamento do câncer de mama pelo Sistema Único de Saúde. Poderia ser o relato de muitas mulheres, mas é o relato da minha mãe. Em 2009 ela foi diagnosticada com um tumor na mama direita. Minha mãe sempre fez tudo que os médicos recomendam à risca. Nunca bebeu, fumou, sempre se alimentou bem, praticou exercícios, dormiu cedo. O diagnóstico devassou nossas vidas na época, e o tratamento, embora ágil, esteve longe de ser humanizado como uma paciente com câncer necessita. Imagino que deve ser bem pior conseguir tratamento especializado longe dos grandes centros, em pacientes com demais complicações, com filhos pequenos que não tem com quem deixar, etc. A intenção do relato é mostrar um raio x sincero de como foi o tratamento pelo SUS do ponto de vista de quem sentiu na pele como é depender dele em um caso extremo como esse. Queria agradecer à minha mãe pela coragem de compartilhar esse momento tão doloroso da vida dela. Caso você queira ler mais do que ela escreve, pode encontrar mais textos aqui.

Em novembro de 2009 fui encaminhada pela minha ginecologista ao hospital público Pérola Byington, em São Paulo. O motivo: estava com um nódulo grande na mama direita. De posse da mamografia e do ultrassom, me dirigi ao hospital que atendia mulheres com câncer e que não possuíam plano de saúde.

Chegando lá, logo me perguntaram se eu havia trazido algum encaminhamento. Diante de minha resposta positiva fui imediatamente dirigida para a triagem, que na verdade era uma sala grande onde inúmeras mulheres aguardavam ser chamadas. Depois de esperar por uma hora mais ou menos, chamaram o meu nome e me fizeram apenas duas perguntas: Minha idade e se eu era fumante.

Relatei que jamais fumei. Então uma médica veio examinar a minha mama e concluiu que precisaria fazer uma biópsia. Me pediram pra aguardar porque a biópsia seria feita no mesmo dia.

Depois de umas duas horas de espera, a médica voltou com uma enfermeira e realizaram o procedimento ali mesmo na maca do ambulatório.

Me entregaram um papel dizendo que o resultado sairia em três dias.

Passado este tempo retornei ao hospital, cheia de medo e torcendo para não ser nada.
Quando chamaram o meu nome uma outra médica me atendeu. Ela pegou meu resultado em meio a dezenas de outros que estavam em cima da sua mesa e disse:

– Você sabe o que você tem não é?

– Câncer? – Respondi.

– Sim. Mas a gente vai tratar.

De lá ela já me encaminhou para outra médica que me informou que eu e muitas outras mulheres iríamos ser operadas em um regime de mutirão.

Isto mesmo. Mutirão.

Me pediram hemograma e um raio X do pulmão. Fizeram uma anamnese para investigar possíveis riscos de diabetes e hipertensão. Como estava tudo certo, disseram que o melhor seria me operar o mais rápido possível, afinal, segundo a própria médica, “você tem um câncer aí”.

Ela me disse também que achava “bobagem” preservar a minha mama e que depois caso eu quisesse poderia fazer a reconstrução.

Marcaram a cirurgia para dali a quinze dias.
A sensação que eu tinha era que precisavam resolver o problema o mais rápido possível, pois várias mulheres estavam na mesma situação que eu.

Sem alternativa, acuada, deprimida e sem ao menos conhecer o médico que iria me operar compareci ao hospital no dia e horários marcados.

Fui a primeira a ser operada em meio a dezenas de outras mulheres naquele mutirão.

Quando acordei da anestesia me colocaram em uma enfermaria com mais três pacientes; todas operadas de câncer de mama, entre elas uma garota de 24 anos.

Mais tarde uma enfermeira veio fazer os procedimentos, medir pressão, pulso, enfim curativos pós operatórios. Meu corpo estava cheio de hematomas e com um dreno que ficaria por dez dias. A enfermeira disse simplesmente que era para eu me levantar e tomar banho.

Aleguei que estava ainda.muito tonta e tinha medo de cair.

Ela respondeu que se eu precisasse, isto mesmo, se eu precisasse ela me ajudaria.
Consegui tomar o banho com um mínimo de ajuda possível.

Depois de dois dias tive alta, sem sequer saber o nome do médico que me operou.

Compareci por vários dias ao hospital para fazer curativos e tirar o dreno. Porém, tudo em regime ambulatorial. Depois que retiraram os pontos recebi um relatório contendo os dados de minha cirurgia e as condições de minha saúde naquele momento; que, segundo o relatório, eram estáveis.

Tudo muito frio e impessoal.

Isto sem falar que aquele hospital era na época o melhor em atendimento para mulheres portadoras de câncer sem plano de saúde. O Brasil também estava vivendo um momento melhor e eu estava na melhor cidade do país em termos de atendimento médico, mesmo público.

De lá para cá não sei como andam as coisas no SUS.

Confesso que percebi que o queriam era agilidade para resolver o problema e salvar a vida das mulheres, mas o lado humano deixou muito a desejar. Como eu não tinha escolha minha única alternativa era me submeter ao tratamento que me propuseram… Cirurgia, quimioterapia.

Quando você é surpreendida com um diagnóstico destes parece que seu mundo desaba e a sensação que se tem é que chegou o fim. A experiência foi extremamente difícil e dolorosa. Traumática mesmo. Mas era o que se podia fazer diante das circunstâncias.

E assim foi.

Maíra de Freitas

São estimados quase 60.000 casos de câncer de mama por ano no Brasil. A lei federal 12.732 prevê que após o diagnóstico, o tratamento pelo SUS deve ser iniciado em até 60 dias, mas a lei ainda está longe de se aproximar da realidade. De acordo com o seu site oficial, o hospital Pérola Byington tem investido na humanização do seu tratamento, criando até um blog para acompanhar as iniciativas neste sentido. Porém, o blog não é atualizado desde 2013.

Muitos instiutos e ONGs oferecem tratamento psiclógico gratuito para pacientes com câncer de mama. Para se informar sobre esse serviço na sua cidade, procure o conselho regional de psicologia.

A Playboy e a libertação sexual que não serve à mulher

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Hugh Hefner e a coelhinha Bonnie J Halpin – Fonte

A morte de Hugh Hefner, fundador da Playboy, no mês passado, reacendeu a polêmica que acompanha a revista desde o seu nascimento. Novamente, Hugh foi acusado de machismo, misginia, assédio, e de usar a sexualidade das mulheres para lucro próprio. Diante disso, muitos saíram em sua defesa, alegando que a Playboy fez sim, muito pela libertação sexual e inclusive contribuíu diretamente com causas consideradas feministas, apoiando financeiramente fundações pró-aborto no Estados Unidos.

A Playboy fez parte da minha vida desde quando eu era criança. Nunca vou esquecer do outdoor com a Tiazinha mascarada, coberta apenas por um boá preto e o texto que dizia, “olá, sobrinhos”. No início da adolescência, no fuzuê da descoberta da minha bissexualidade, baixei muitos ensaios e acho que alguns deles são de grande refinamento estético – principalmente os da Playboy Brasil, a americana sempre foi meio farofada mesmo.

Até então, sabia muito pouco sobre a história da revista e sobre o seu fundador, mas isso mudou quando eu comecei a assistir Girls of The Playboy Mansion, no E! O reality mostrava a rotina de Hefner e suas três (principais) namoradas, Holly, Bridget e Kendra. O programa era muito divertido, e mostrava uma vida ótima; as três meninas pareciam se dar bem e adorar a vida que levavam, a atmosfera de glamour e poligamia amigável transparecia muito natural. Hefner era um coadjuvante na série – sem dúvida as três namoradas brilhavam mais – mas quando ele aparecia, até dava para ententer porque jovens atraentes iam querer se relacionar com um senhor de mais de oitenta anos.

Hefner demonstrava ser uma simpatia; carismático, carinhoso, divertido, inteligente. Suas aparições e depoimentos pontuais no reality pintavam a imagem de um homem respeitoso e bem-intencionado. Era fácil esquecer que existia uma relação de poder enorme entre Hefner e suas namoradas, talvez por um desejo natural que a gente tem de que o mundo seja mais simples às vezes.

Claro, as coisas não eram bem assim.

Desde o início da Playboy, Hefner se apresentou para o público com uma imagem de glamour, sofisticação e libertação sexual. E desde o começo também usou métodos pouco ortodoxos para alcançar o sucesso. O primeiro ensaio da revista foi com fotos de Marilyn Monroe – feitas antes da fama, e compradas por 500 dólares. A marca Playboy se fez às custas da sexualização da mulher, especialmente de tirá-la de seu domínio.

Quando Kim Kardashian foi convidada para posar para a revista, no início da sua carreira, ela aceitou desde que as fotos não revelassem nudez total. Um approach estranho para uma revista de nudez, talvez. Mas esses eram os termos. A sessão de fotos foi veiculada no reality de Kim, o Keeping Up With The Kardashians, e ela foi pressionada a tirar cada vez mais peças de roupa até sua mãe e agente ter que intervir.

Na minha opinião, essa cena é emblemática do quanto a Playboy se utiliza de suas modelos como produtos – sob o verniz da libertação sexual.

Sem moralismo. Putaria é comigo mesmo, vocês sabem. E acho que ensaios sensuais podem sim ser empoderadores. O problema, como eu já falei antes, é que a objetificação da mulher acontece quando a sua sexualidade é tirada do seu domínio para servir ao outro – para o olhar masculino, ou para vender algo. A Playboy se utiliza dela para os dois – a libertação sexual que ela vende não é para satisfazer a fantasia das mulheres que estão posando – é cuidadosamente customizada para atender ao imaginário masculino.

Alguns anos após a estreia de Girls of The Playboy Mansion as três namoradas originais saíram da mansão – e terminaram seu relacionamento com Hugh Hefner. Foi então que Holly Madison, a namorada “número um”, públicou uma autobiografia contando das suas experiências na Playboy. Longe de ser um conto de fadas, a vida de Holly na mansão foi um episódio traumático. Ela relata em detalhes como Hefner mantinha as coelhinhas em regime rígido, incluindo toque de recolher, e pouco dinheiro. O ambiente da mansão era tóxico, com muitas drogas, e Hefner instigando a competição entre as meninas para se sentir mais poderoso.

Infelizmente, nada disso surpreende muito. Muitos são os homens que usam de um discurso de empoderamento feminino para conseguir poder, sexo, ou os dois. Hefner fez pouco caso das críticas que a Playboy recebeu ao longo dos anos, defendendo que a revista  contribuiu para a libertação sexual nos Estados Unidos e no mundo. O que pode até ser verdade, mas a libertação sexual de quem? Fica claro que nesse jogo, as mulheres foram apenas peças para o lucro e a exploração masculinas.

O problema não é tirar a roupa, o problema não é falar de sexo. O problema é reservar a seção de fotos sensuais apenas para as mulheres, e a seção de entrevistas revolucionárias apenas para os homens. O problema é vender o tesão e as fantasias femininas como existentes única e exclusivamente para atender aos homens.

Fica claro que a Playboy é um reflexo de como o  próprio Hefner viveu sua vida: Com libertinagem e glamour, mas dispensando tratamento sub-humano às mulheres fizeram a revista – e o seu pai – serem um sucesso.

Atenção, jovens! O Outubro Rosa também é para vocês

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Fonte: Flávia Totoli

Os números estão aí, e não são bons. Embora ainda raro, o câncer de mama em mulheres jovens está aumentando. Entre 2010 e 2015, houve um aumento de 2,6% nos casos em mulheres abaixo dos 40 anos. Com o agravante de que o câncer é mais difícil de ser detectado em tecidos mais jovens, e muitas vezes ele pode ser mais agressivo que em mulheres mais velhas.

Porém, não é um caso para alarmismo. É um caso para prevenção. Como em quase todo tipo de câncer, o diagnóstico precoce é a melhor arma na luta contra o tumor. Pessoalmente, acho que a campanha do Outubro Rosa tem se desvirtuado bastante, e é preciso retomar o seu propósito original: Falar de prevenção ao câncer de mama e saúde da mulher.

Muitas vezes estive em consultas com médicos displicentes com a minha saúde por causa da pouca idade, mesmo eu tenho histórico de câncer de mama na família. Por isso, é importante que a gente se aproprie da nossa saúde, faça o autoexame, e procure segunda opinião sempre que sentir que o médico não está nos levando a sério. Uma dica que funcionou comigo, caso você seja atendida por plano de saúde, é denunciar o clínico ao SAC do plano. Fiz isso uma vez quando um ginecologista se recusou a fazer o ultrassom das mamas, mesmo eu insistindo que tinha dois casos de câncer na família. O médico foi notificado, e o plano me indicou uma segunda ginecologista que pediu o exame.

Por sorte, eu nunca tive nenhum nódulo, e tenho seios bem pequenos, o que facilita na hora do autoexame. Mas os casos de tumores em mulheres abaixo dos 35 são mais comuns do que se pode imaginar. Abaixo reuni relatos de diversas mulheres jovens e suas experiências com a saúde das mamas:

Bruna, 25 anos

Ano passado, minha mãe foi diagnosticada com câncer de mama. 2016 foi um ano muito difícil. Eu sempre que lembrava fazia o autoexame, mesmo me achando nova e acho que errado também hahaha. É meio esquisito e nunca senti nada. Aos 22 anos coloquei silicone. E na ecografia mamária foram detectado dois nódulos na mama direita. Os medicos disseram que é comum entre as mulheres e na minha idade nao seria nada demais. Os nódulos foram retirados na cirurgia do implante. A biópsia não acusou nada também.

Fui ao meu médico no final do ano passado, pois gostaria de engravidar. Na nova ecografia apareceram três nódulos na mesma mama. Ou seja, em nem três anos eles voltaram… Saí chorando, pois o medo de passar futuramente por tudo que a mãe passou me assustou, né. Mas segui com os planos de engravidar, e estou quase ganhando já. Após amamentar, voltarei ao médico, vou marcar com o mastologista que cuida da minha mãe para facilitar a comunicação. Acredito que ficarão mais de olho em mim pelo histórico.


Lívia Beatriz, 26 anos

Quando eu era criança, eu adorava fazer o autoexame. Só porque eu achava bonito ser uma mulher adulta fazendo coisas de adulta, como muitas crianças. Daí, sempre fiz regurlamente. Até encontrar um caroço, aos 18 anos. Já pensei que era câncer. Mas era só um nódulo grande mesmo. Fiz a cirurgia para retirar porque ele estava um pouco grande mas o ginecologista mesmo falou que não tinha necessidade. O recomendado é tirar quando tem mais ou menos 1cm e ele tinha mais que o dobro. Daí, achei melhor tirar. O que achei louco na época é que eu ainda fazia só de zoeira mesmo. Fiquei com medo de achar mais hahaha mas tem que fazer, né… porque quando menos esperamos, pode rolar.


Luíza*, 27 anos

Este ano eu resolvi fazer um ultrassom das mamas e axilas, simplesmente por nunca ter feito antes, e achar necessária sua realização. Em abril marquei o exame, estava em uma onda de consultas, pois pretendo cuidar mais de minha saúde. Durante o ultrassom a médica percebeu a presença de algo diferente na mama esquerda. Ela disse que o meu tecido mamário é muito heterogêneo, ou seja, muita “confusão” entre a distribuição do parênquima e da gordura. O que a médica encontrou foi um suposto nódulo bem pequeno, não seria nem sensível ao toque. Só que ela não tinha certeza se era um nódulo ou um lóbulo de gordura, devido à constituição heterogênea da minha mama. Ela me informou que ainda que fosse um nodulo as características seriam de benignidade, então me pediu apenas para fazer o controle. Claro que minha mente assustada e hipocondríaca não sossegou né? Marquei mastologista na mesma semana. Ele me deu informações bem semelhantes, e pediu para fazer controle em seis meses com a médica de confiança dele em um laboratório específico. Os meses foram passando, e nos últimos dias minha ansiedade explodia em meu corpo. Enfim no momento do exame, a médica teve a certeza que se tratava de um nódulo, e que quase todas características exceto uma poderiam o configurar como fibroadenoma, um tipo de nódulo benigno. Para quem não sabe, a chance de ter esse tipo de nodulo é enorme. Meu médico me informou que entre 10 mulheres da minha idade (27 anos) 3 têm nodulo do tipo. Bom, essa única característica que não excluía a malignidade de cara foi necessária para me prescrever uma biópsia. Aí eu surtei. Sem contar os relatos de familiares que me falaram que o procedimento da punção doía muito. Levei o laudo do ultrassom para meu mastologista, e ele me deu a opção de fazer mais de um tipo de exame para verificar a natureza do nodulo. Por fim, eu optei por fazer uma mamotomia. Esse exame tem anestesia local, então juro que a gente não sente nada. E no próprio exame se retira o nódulo por completo, então a gente fica um pouco menos preocupada na hora de fazer o controle a cada seis meses por ultrassom (o que não deixo nunca mais de fazer). Durante o exame colocam um chip no lugar da extração para marcar qualquer crescimento eventual na área. Ahhh o chip não para a gente no aeroporto, perguntei pro doce de médico que fez o procedimento. Graças a Deus o resultado saiu rápido e não mostrou sinal de malignidade. Os achados foram sugestivos de fibroadenoma. Só que preciso fazer sempre controle, apesar desse tipo de nódulo não se transmutar. Não tenho dúvidas que vou manter ansiedade cada vez que fizer um exame do tipo, mas aconselho todas mulheres a fazerem um ultrassom, ainda que não sintam nódulos apalpáveis ou que sejam jovens. Mesmo que não encontrem nada, é bom criar esse hábito; conhecer a constituição e aspecto do seu peito; e também mesmo o nodulo benigno vai crescendo, mesmo que lentamente, e algum dia sentir ele no toque vai ser ainda mais horripilante. Isso sem contar com a possibilidade de aparecer um câncer em uma mulher com menos de 30 anos, o que não deixa de ser uma possibilidade. E o câncer de mama na mulher mais jovem é muito mais agressivo. Então por favor, todas se cuidem!


Gabriela, 25 anos

Desde os oito anos de idade eu sou muito peituda. Tive um desenvolvimento hormonal precoce e era uma pequena criança com peitões. Por ter os seios muito grandes, sempre tive muita dificuldade em fazer o tal do autoexame. Li em cartilhas, a ginecologista me ensinou, mas mesmo assim, é difícil. Tenho muita pele, gordura e tecido para conseguir sentir direito se há algo de diferente ou não. E mesmo que haja, muitas vezes uma leve diferença é sinal de uma alteraçãoo hormonal do ciclo menstrual e daí fica muito mais dificil de auto-diagnosticar. Já passei por ginecologistas que nem encostaram no meu peito, dizendo que eu era “muito nova e sem casos próximos de câncer na familia, por isso não precisava tirar a blusa não”. Outros, melhores médicos, me examinaram e, felizmente, nunca foi detectado nada anormal.


Márcia, 30 anos

Eu tenho vários cistos e alguns nódulos nas duas mamas. Quando eu descobri fiquei muito bolada. Aí o que se faz é acompanhar a cada seis meses por dois anos e se não houver alteração nesse período, fazer o ultrassom preventivo anualmente. Felizmente são nódulos todos benignos e hoje faço o exame só anualmente, mas sempre dá aquele medinho toda vez, né? Outra coisa é que como minha mama é cheia de cistos, o autoexame é praticamente inútil porque não dá pra distinguir direito o que é cisto ou nódulo, o que é uma merda. Mas todas as médicas que já fui repetiram que é muito difícil esse tipo de nódulo que eu tenho virar câncer, então hoje não me estresso muito com isso.


Bruna, 26 anos

Quando eu tinha uns 20 anos, tive um susto em relação à minha saúde mamária. Um caroço apareceu na minha mama esquerda, era duro e pequeno. Como não gerava nenhum incômodo, eu não dei atenção ao caroço de imediato e ele cresceu muito rapidamente. Em uns 10 dias cresceu tanto que chegou a deformar meu mamilo. Meu peito ficou inchado, quente, vermelho e doía quando eu erguia o braço esquerdo. Além disso, duas vezes havia saído leite do meu mamilo. E então, finalmente, eu fui ao médico.
Fizemos um ultrassom mamário e até então eu estava bem tranquila. Quando chegaram os resultados, vimos que o ultrassom indicava um tumor de alguns centímetros, esse tumor vinha de uma inflamação, mas era necessário verificar se o tumor era benigno ou maligno e para isso era necessário fazer uma biópsia – só que nada disso me foi explicado!
Meu médico tinha tantos dedos pra falar comigo e nada era dito objetivamente, ao invés de ser dito palavras como tumor, câncer, exame TAL, eram usados termos genéricos como “coisa pior”, e eu não conseguia entender com que exatamente eu estava lidando. O tom sério assumido e o excesso de hesitações do médico, só me apavorava mais!
Quando eu perguntei se era grave, ele me respondeu “é um tumor, né, claro que é, você já ouviu falar de tumor?” (sim, ele tinha esse jeito meio grosseiro). Eu que não sabia nada de tumores, entendi ali por essa informação e por todos as hesitações que ele estava dando na conversa, que eu estava com câncer. Quando ele me disse que teria que fazer uma biópsia pra saber se era benigno ou maligno, pra mim era só uma questão de saber se eu ia viver ou morrer. O que eu havia entendido até aquele momento era:
TUMOR = CÂNCER.
CÂNCER BENIGNO = UM CÂNCER BAD MAS QUE TEM CURA
CÂNCER MALIGNO = MORRE
Mas ao mesmo tempo que eu “recebia essa notícia bombástica” sobre a minha saúde, eu não me sentia acolhida. Eu queria fazer várias perguntas, mas meu médico me tratava desse jeito meio grosseiro, meio brincando e não me respondia nada objetivamente. Eu não entendia quais seriam os próximos passos, nada. Foi uma semana difícil! Então eu resolvi ir em outro médico, um que eu não me sentisse intimidada de falar e perguntar exatamente o que eu queria, porque escutar que você tem um tumor (que na minha cabeça era um câncer) e não se sentir a vontade de fazer as perguntas que você precisa, é horrível.
No outro mastologista eu descobri que se tratava de uma mastite, uma inflamação mamária – no meu caso, muito intensa -, que geralmente acontece em período de amamentação, mas também pode ocorrer com mulheres que fumam (que era meu caso) ou por algum traumatismo. O leite que saía do meu peito, no caso, não era leite e sim pus. Foram retirados do meu peito quase duas seringas de pus. Fiquei na iminência de fazer uma cirurgia pra tirar completamente o nódulo, mas após tratar a infecção ele praticamente desapareceu. Agora só tenho que ficar mais atenta a esse peito para acompanhar se não há nenhuma anormalidade.
No mais, deu tudo certo, e era muito mais tranquilo do que parecia no início.
Fica como aprendizado que é importante sim fazer as perguntas que você quer fazer para seu médico para não haver desencontros na comunicação em uma coisa tão importante quanto saúde. E sim, buscar segunda opinião é sempre válido.

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*Nome alterado a pedido da autora do relato.