Labareda

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Quando é que você vai abrir essa porta e me arrastar pra dentro de você, pra onde eu deveria estar, para onde eu já estou, que eu sei que eu sou cento e sessenta centímetros de pólvora e sou intensa demais, franca demais, descomedida demais pra tudo, mas por algum motivo você entende, você não me condena, você quer, você sopra a brasa até ela inflamar inflamar, e eu tô cheia de febre, eu te quero por dentro por trás dos olhos e deve ter que ser assim, só pode ser, porque nunca nada fez tanto sentido e tem desejo demais pra eu me preocupar com pontuação, que eu já cansei dessa horda de gente que aparece de todo canto querendo me domar só porque tem medo da fera que grita por dentro mas você vem aqui brincar com ela com essa voz rasgada que raspa na minha pele e me enlouquece, o que é que a gente tá esperando pra tocar fogo na cidade inteira agora que eu já sei, eu já sei que dá, eu já sei que existe, então chuta essa porta e me arrasta pra dentro que é onde eu quero estar e nunca mais sair.

“Eu acho tão bonito isso
De ser abstrato
A beleza é mesmo tão fugaz
É uma ideia que existe na cabeça
E não tem a menor pretensão de acontecer
Pode até parecer fraqueza
Pois que seja fraqueza então
A alegria que me dá
Isso vai sem eu dizer
Se amanhã não for nada disso
Caberá só a mim esquecer
O que eu ganho, o que eu perco
Ninguém precisa saber”

Um Dia

(Novembro – 2011)

Vinho tinto e massa na varanda
Ferro fundido e mormaço noturno
Unhas escuras
Solidão aprazível
O estalar de uma língua estrangeira
Sozinha e tão completa
No ar do mediterrâneo
Pra comer, respirar, beber arte
A Primavera
A Ponte Velha
A ilha que uma mulher longe de casa é capaz de se tornar
Cercada de cores e histórias
Não importa muito quando
Sendo logo
Tudo bem, quando der
Mas eu vou
(Então espera, minha próxima casa, que eu chego)

 

Novembro – 2011

Não demora, eu quero, agora, que é como se você fosse uma lâmina para me lapidar e jogar fora os pedacinhos de dor e me machucar me cortar me deformar, eu quero, eu quero, eu preciso, como um alcoólatra precisa de um gole, como um viciado precisa de um tiro. Eu quero essa anestesia momentânea, esse calmante para minhas dúvidas, me vira do avesso, me faz sangrar sangue suor estrelas qualquer coisa seu nome pra eu me desfazer na sua carne, na sua pele, porque dói demais e é tão bom porque é só doendo que não dó mais, pra você ter o meu coração nas mãos e esmagá-lo pra ele estourar, aquele sopro de vida que bate, bate, bate, arrebenta e eu sinto que o meu corpo é uma folha de papel amassada, minha mente finalmente fica quieta e eu só sinto, como eu deveria ser, obedecendo aos instintos que me dominam e aos quais eu quero me render, então não vai embora, não pára, que eu quero mais mais mais mais até eu te sugar pra dentro de mim e vamos estar nós dois perdidos na minha escuridão absoluta onde só existe desejo e dor, quando tudo se acaba no instante em que sentir se torna insuportável e só tem morte em cada poro e não dói mais.

(vem aqui me abrir como se eu fosse uma noz)

Jornada dupla não é nada

 

Novembro – 2011

– Coisa bonita hein? Todo um dia um vernissage.
– Toda noite.
– Com a nata intelectual e artística para discutir os rumos metafísicos da condição humana.
– Não existe isso de “rumos metafísicos”.
– Pra ouvir Portishead tomando cházinho tailandês no seu sofá de chenile coral. Que new age.
– Deveras.
– Tipo mulher balzaquiana geração prozac.
– Quase balzaquiana.
– Indo a museus e saraus de poesia; feminista praticante.
– Exato.
– Mulher independente, bem sucedida, mal-amada, vivendo com gatos numa parte deprimente de uma metrópole e usando tamanquinhos de couro cru.
– Não é cru.
– Vegetariana quase vegan, cinéfila declarada, solitária de carteirinha.
– Mas e quem não é, hoje em dia?
– Qual das três coisas?
– As três.
– E ainda assim, toda noite um vernissage.
– Toda noite.