Diálogo imaginário

Capturar
Fonte

Abri a janela. Berlim entrou me fustigando com seu vento gelado de inverno, jaqueta de couro, uma garrafa de Club Mate Vodka na mão. Roubou meu último cigarro sem a menor cerimônia.

– Ei! – Eu protestei, ela não deu atenção. Saiu examinando meu quarto, se largou numa cadeira.

– E então, dona Ana Pimenta, Pimenta Cítrica… Está de volta? – Fiz que sim dando de ombros. – E agora, fica de vez? Ou decidiu que é nômade por natureza?

– Não decidi nada.

– E já achou o que veio procurar aqui?

– Estou quase.

– Eu acho que dessa vez você fica.

– É mesmo?

– Eu acho. Acho que você pode até tentar fugir de quem é, mas não tem jeito. Você tem talento natural pra falta de limite, pra autodestruição, para almoçar álcool e jantar cigarros, pra se perder em hedonismo até esquecer quem foi um dia.

Eu recostei na cadeira. Em outros tempos, aquele tom assertivo teria me intimidado. Não mais.

– Será? Será que eu sou só isso mesmo? Não sei… E também não estou muito certa que você seja só isso. Acho que tem muito mais que você esconde.

– Por quê? Você esconde muita coisa?

– Mostro pra quem vale a pena.

Ela se inclinou na cadeira, soprou a fumaça no meu rosto, estreitou o olhar.

– Pra mim vale a pena?

– Tá tarde. Tá frio. A gente conversa outra hora.

Fechei a janela, a expulsei dali. Ela podia esperar até amanhã. Agora, nenhuma cidade, nenhuma pessoa, nenhuma decisão.

Só o silêncio do meu universo particular.

Anúncios

Vlog: Existe amizade entre homem e mulher? – Feat. Will SJ

Spoiler alert: Existe. Um papo com o meu BFF, Will, sobre a nossa história de amizade, e sobre o porque dessa coisa de amizade entre homens e mulheres ser polêmica. Canal do Will: https://www.youtube.com/user/willstre…

Caro homem pró-feminismo,

homem nao precisa ser anti homem pra ser pro mulher.png
Fonte

e então, meu amigo que adora encher o peito e dizer que é pró-feminismo. Que vai na marcha das vadias, que posta textão no Facebook no dia oito de março, que diz que quer ouvir o nosso lado, que fala por horas de como os seus amigos são machistas, vangloriando-se de não ser igual, que ri complacente quando a gente diz que homem é uma merda.

Eu tenho uma notícia pra você.

Vai chegar uma hora, em algum ponto, que você vai receber uma crítica. Vai chegar uma hora que o machismo que você julga nos outros vai ser apontado em você. Vai chegar uma hora que você vai ouvir algo que não quer. Pode ser uma coisa boba, só um “aquele personagem que você adora em Star Wars é bem machista”. Pode ser que te avisem que você tem mania de interromper a fala das minas. Pode ser que te avisem que aquele comentário que você fez outro dia foi muito desnecessário. Pode ser que te cobrem continuar amigo daquele bróder que tem fama de assediador. Pode ser que te digam que a sua ex se sentiu sim pressionada a fazer aquele aborto.

E aí, meu amigo, o que você vai fazer?

Vai reagir na defensiva, vai negar de primeira, vai rechaçar argumentos? Ou vai parar para ouvir, vai refletir com calma, mesmo que isso signifique ter que aceitar que você não é todo esse cara legal, inatingível que você gosta de achar que é?

Olha só, não é que ninguém está dizendo que você é uma pessoa ruim. Nem que todos os seus esforços em ser nosso aliado vão ser anulados a partir de agora. Mas é o momento em que o feminismo toca nas suas feridas que te define. Ninguém disse que é fácil. Nenhuma mulher aprendeu sobre o feminismo sem se doer. Sem questionar as próprias atitudes. Sem ter que se rever inteira. Ir até o fim é um caminho sem volta; não dá pra fazer sem sacrifício pessoal. A desconstrução tem que ser diária, e às vezes ela é incômoda. E aí, o que me diz? Tá mesmo a fim?

É fácil enxergar os defeitos dos outros homens; separá-los de você e se sentir melhor do que eles. Mas isso nos ajuda muito pouco na luta. O que agrega de verdade é você querer ouvir, estar disposto a rever suas atitudes, a remexer do seu passado, a admitir os erros. Só isso vai ser capaz de te transformar num aliado real. Num homem que na próxima não vai nos diminuir, nos agredir, nos silenciar. O resto, me desculpe, é pura vaidade. Se você quer se unir à nós, saiba que algum dia o feminismo vai bater na sua porta. E você vai ter que decidir se você só quer se sentir especial, ou se quer ver que o machismo está em todos nós. Está em você. E pra poder se livrar dele de verdade, só vai ter um jeito; descobrindo até onde ele vai.

Reencontro de faculdade – Parte 1

MENAGE
Fonte

Chegamos no tal sítio no início da noite. A Leila se perdeu no caminho, lógico, mas realmente o tal lugar era no meio do nada. E eu também nem dirijo, não teria chegado lá sem a carona dela, então.

Bom, é isso. Nem parece, mas realmente já estamos fazendo cinco anos de formados. A tal reunião começou a ser ensaiada meses antes, num grupo criado especialmente pra isso no WhatsApp. Sinceramente, não botei muita fé. Me pareceu aquelas coisas de “vamos marcar!”, que todo mundo se entusiasma mas nunca vai pra frente. Estava errada.

Das trinta pessoas da classe, parece que dezoito iriam, o que era bastante, considerando que muita gente tinha casado/tido filhos/mudado para o exterior (às vezes as três coisas juntas). Negociamos uma chácara em Bom Jesus do Meio do Nada, com todos os confortos; quarto pra (quase) todo mundo, piscina, varadão, até fogão a lenha.

Eu não podia estar mais animada. Se fosse minha turma de escola teria me horrorizado à perspectiva de ter que ficar frente à frente com meus algozes de adolescência de novo. Mas com o pessoal da faculdade, era diferente. Sempre me dei muito bem com eles – na verdade, me senti em casa pela primeira vez entre gente que tinha as mesmas paixões que eu e estava muito animada para rever todos. Tinha alguns amigos próximos da classe que encontrava com frequência, e outros que sempre via aqui e acolá, num bloquinho de carnaval que calhava de todo mundo colar, ou quando um post no Instagram levava a outro e a gente se juntava na Parada. Mas assim, todo mundo, como nos velhos tempos, ia ser a primeira vez.

E eu estava empolgada de verdade para saber o que cada um andava aprontando. Claro, sabia bastante por causa das redes sociais, mas não tinha tido a chance de realmente conversar com os colegas para saber – como andam os preparativos para o casamento, como está sendo o emprego dos sonhos, e aquela viagem pro Marrocos em 2014, conta dos detalhes.

Foi depois de muita polêmica no tal grupo de WhatsApp que decidimos pelo “banimento” dos respectivos de todos. O argumento era simples; primeiro que ia ser muito mais difícil encontrar um lugar grande o suficiente para praticamente o dobro de gente. Além disso, os @ todo mundo já via sempre, a ideia era passar um tempo com o pessoal da faculdade, como antes. Houve protestos. Muita gente queria que sua metade da laranja conhecesse o povo todo, o que resolvemos jurando que íamos marcar um bar na semana seguinte.

Depois de ter visto o fim de semana no sítio se concretizar, não me surpreenderia se realmente rolasse.

Mas enfim, que enorme digressão. O ponto é que eu estava feliz de passar três dias na companhia dos meus colegas de classe. E também estava solteríssima há anos, e não me importaria de fazer um revival com qualquer um dos meus ex contatinhos.

***

A primeira noite foi tranquila. Organizamos uns petiscos (Ludmilla levou várias opções veganas – “Eu e Thalita estamos 100% vegans há dois anos”), botamos logo umas dez garrafas de vinho pra jogo e lá fomos nós, colocar o papo em dia. O João Paulo tinha se mudado pra Sérvia, era sorte ele estar no Brasil. Tinha ido ficar com a namorada gringa, e estava trabalhando com animação. Tirou um pacote e tabaco e bolou um cigarrinho chique. A Fê tinha virado atriz. Tava fazendo um papel menor numa série da Netflix, e contou de vários projetos engatados. A Laura tinha pintado o cabelo de azul, e estava chefiando um departamento de quarenta pessoas. A Carol estava rodando o país com o seu filme, e tinha montado um coletivo feminista. O Diego tinha acabado de alugar um apartamento no centro com o namorado. Fizemos FaceTime com a Raíssa, em Madrid, que mostrou a barriguinha de oito meses.

Eu, bom, eu estava bem, dividida entre o Brasil e a Alemanha, tentando ganhar dinheiro escrevendo, um pouco menos adulta do que era de se esperar, mas ainda assim, bem. Depois da quarta taça eu estalei os lábios, o álcool já tirando meu filtro, pronta pra deixar escapar a pergunta que ficou na minha cabeça a noite toda, mas fui salva pelo gongo.

– Ah! – A Leila levantou, sempre com aquele ar de quem gerencia as coisas. – Precisa abrir o portão, o Lucas e a Marie chegaram. – E saiu arrastando as havaianas.

Houve um murmúrio geral na mesa, comentando sobre aquele novo casal, lembrando que eles não ficavam na época da faculdade, alguém indagou como tinha começado. Eu sabia a história por cima, às vezes encontrava com gente muito próxima deles, os seguia no Instagram, a gente sempre curtia os posts uns dos outros, mas a verdade é que não tinha estado com eles desde que o namoro começou.

Não vou mentir que sentia uma pontadinha de inveja sempre que via as fotos dos dois. Lindíssimas, a Marie sempre foi uma puta fotógrafa. E de verdade, os dois pareciam muito felizes. Conhecendo-os tão bem como os conhecia, me surpreendia que não tivesse acontecido antes.

Meu coração deu um mini pulinho quando eles chegaram na varanda, as mãos cheias de sacolas. A Marie estava de shortinho jeans, uma camisetinha que deixava à mostra seu braço recentemente fechado de tatuagens e a marquinha de biquíni (os dois tinham ido pra praia no fim de semana anterior, o Instagram me contou). Ela estava muito diferente; na época da faculdade ela usava dreads coloridos, se vestia de um jeito meio clubber, sempre com vestidinhos Neon e Melissas nos pés. Agora, os cabelos crespos estavam naturais, as pontinhas queimadas de sol, e usava cores sóbrias, jeans larguinhos, os cropped da moda, sempre deixando à mostra seu corpo cada vez mais escultural, graças ao pilates.

O Lucas também estava diferente. Usava uma bermuda curtinha, tinha os braços e pernas tatuados. Os cabelos muito lisos e pretos estavam num corte repicado e bagunçado, misturando à armação grossa dos seus óculos, as sardas se destacando na pele queimada de sol. Magrinho ele sempre foi, mas o tempo o fez encorpar, os ombros e braços mais musculosos do que eu lembrava.

– Gente, que calvário chegar aqui, socorro! – A Marie foi falando, sacudindo sua juba de cabelos bem cuidados. – Preciso de uma cerveja.

– Tamo no vinho, baby. –  O Diego logo se adiantou, alisando o bigodinho. – A Fernanda ensinou a gente a fazer sangria. Agora a gente é chique.

– Hmmm, muito bem. – Ela aprovou, servindo-se de um copo e passando ao redor da mesa para abraçar todos os presentes, com o Lucas em seu encalço. Quando chegou a minha vez, a gente trocou um olhar cúmplice.  – E aí?

– Eu aí?? – Eu devolvi com um sorriso largo, e a gente se abraçou. Não nos víamos há uns dois anos. Ela continuava linda. Na verdade, estava muito mais linda do que antes. Os anos a fizeram muito bem. Quando nos largamos, olhei para o Lucas, que baixou o olhar, mordendo os lábios e deixando as covinhas aparecerem num sorriso tímido. Foi uma lembrança gostosa; eu tinha esquecido que ele sempre fazia aquilo.

– Como cê tá? – Ele perguntou, me abraçando. – Como tá a Europa?

– Tá lá, gelada. – Eu ri. Podia sentir a tensão da galera nos observando interagir. Tá, tá, gente, já temos todos quase trinta, podemos agir de acordo, por favor?

Mais tarde, quando eu e Diego nos preparávamos para ir dormir no quarto que iríamos dividir pelos próximos três dias, ele me perguntou a queima-roupa:

– Esse revival aí, hein? Tá todo mundo de olho nesse triângulo.

– O quê? Imagina, eu não vejo nenhum dos dois há anos.

– Sei. Cê pensa que eu não vi o jeito que eles olharam pra você, né? Tá bom. – Ele disse em tom de quem encerra a conversa, afofando o travesseiro da sua cama de solteiro.

***

No dia seguinte, me diverti como não me divertia há anos. Passamos o dia na piscina, aplacando o solão de rachar. O Diego passou o tempo todo tirando fotos das pessoas e criando memes em cima, que iam ficando cada vez mais engraçados conforme a gente ia bebendo. Meu senso de humor tão estranho de repente estava em casa; era incrível sentir que embora cada um em um canto, muito das nossas personalidades tinha se formado em conjunto.

Tudo transcorreu sem maiores incidentes, a atmosfera amigável e tranquila. O Lucas e a Marie se comportaram muito bem, tirando algumas piadinhas aqui e ali, não pude notar nenhum flerte da parte deles. Parte de mim ficou decepcionada, não vou mentir, mas os dois estavam tão lindos juntos, tão em sintonia, que sei lá, dava até medo de estragar, então achei melhor assim.

Porém, no fim da noite, depois dos banhos revezados, do jantar e de muitos drinks, sobramos no sofá, eu e o Lucas. A Marie tinha ido sei lá onde; muita gente já tinha ido dormir, mas ainda sobrava uma rodinha de pessoas ouvindo música enquanto caía uma chuvinha fina. Eu tinha me concentrado num ponto entre as telhas há horas; viajando sobre como ia ser voltar para Berlim e lembrar daqueles momentos, essas coisas que eu acabo pensando sempre. Suspirei, o corpo todo molenga. Na outra ponta do sofá, o Lucas tirou os óculos e esfregou os olhos.

– Nossa, bateu. – Ele disse, rindo de lado.

– Né? Jesus.

Eu olhei bem pra ele, enquanto ele passava a mão pelos cabelos bagunçados, as covinhas das bochechas à mostra, e aquele tom de voz doce que sempre mexeu comigo. Naquela hora me perguntei por que raios eu tinha perdido tanto tempo com cafajestes, se é dos intelectuais tímidos charmosos sensíveis que eu gosto de verdade.

De repente a Marina voltou para a varanda, um copo de caipirinha na mão, um shortinho indecente de minúsculo. Ela fez menção de sentar no colo do Lucas, olhou pra mim, sorriu, e sentou no meu.

– Aaaai que saudade da minha ex! – O João Paulo gritou.

– Aí você tem que ver qual ex de quem né? – O Diego comentou, uma sobrancelha levantada. Eu passei uma das mãos pela cintura dela, a outra repousei na sua coxa. O cabelo dela estava com um cheirinho muito bom de shampoo (mas na verdade não devia ser, já que há anos ela era adepta do low poo).

O Lucas estava vermelho que nem pimentão, esse tonto. A Marie me deu um golinho do drink, só pra provocar mais.

– Vixe. – Eu disse, rindo. Sabia que ela adorava aquele tipo de joguinho, inclusive já tínhamos flertado muitas vezes depois de terminar e quase nunca o flerte terminava em algum lugar. A Marie era como eu; adorava a atenção.

O Lucas foi o primeiro casinho que eu tive na faculdade. Nos pegamos logo na primeira festa. Na época, ele tinha os braços despidos de tatuagens e os cabelos curtos. Daí sempre que tinha um rolê a gente acabava ficando. Por fim as coisas se tornaram menos esporádicas, e a gente começou a se pegar mais sério, nos beijar nos banquinhos da faculdade entre as aulas, passar os intervalos de almoço estirados nos gramados da praça do relógio, eu arrumando trouxinhas para ir dormir no apartamento dele em Pinheiros depois da aula.

Durou uns três, quatro meses, depois arrefeceu. Era o começo da universidade, muita novidade, muita coisa pra fazer, nós dois tínhamos que nos descobrir, não deu. Continuamos amigos, sempre nos demos bem e seguimos a vida.

Com a Marie, foi mais sério.

Nos aproximamos no início do segundo ano. Começamos a fazer muitos rolês juntas; em toda festa a gente estava. A gente se dava muito bem; era tudo natural entre a gente. De amigas de copo, passamos para amigas da vida. Os domingos largadas nos sofás uma da outra, virando madrugadas juntas editando aquele trabalho. Um dia bebemos demais num happy hour. Fomos para minha casa. Uma coisa levou à outra e não paramos mais.

Ficamos por quase um ano; nunca oficializamos nada. Eu me apaixonei por ela. A falta de um título de namorada significava muito pouco. Estávamos sempre juntas, compartilhávamos tudo. Mas não foi muito fácil. Às vezes eu queria mais; e ela não queria. Às vezes era o contrário. Tinha muita coisa acontecendo. Ela foi fazer um intercâmbio de um mês. Quando voltou, num acordo silencioso, tínhamos terminado.

Foi estranho por um tempo, depois voltamos a conversar. Mas a amizade de antes, não conseguimos retomar mais. Eu sempre pensava nela com carinho, me perguntava se um dia íamos conseguir ser tão íntimas quanto antes. O engraçado é que, pra quem via de fora, não dava pra imaginar ela e o Lucas juntos no primeiro ano. Eles sempre se deram bem, faziam parte da mesma turma, até já tinham se dado uns pegas aleatórios numas festas, mas nada além disso.

Foi só depois da faculdade, que eles se reencontraram, se reapresentaram, se apaixonaram. E era louco ver como os dois evoluíram para se encaixarem direitinho um no outro; ele estava mais confiante, mais seguro, sem nunca perder aquele jeitinho manso. Ela estava mais madura, mais focada, mas continuava com a presença exuberante de sempre.

A tensão era palpável. Eu podia sentir que estava todo mundo olhando para nós duas; o Lucas, nossos amigos. Muita pressão pra mim, não tem manual pra saber como agir quando você tem que lidar não só com um, mas com dois ex no mesmo lugar.  Ainda mais quando eles estão juntos.

Nessa hora, por milagre, começou a tocar o funk hit do momento. Eu levantei correndo e a tensão se dissipou. Logo eu e a Marie começamos a ir até o chão, e a Laura se juntou a nós duas. Tudo muito divertido e inofensivo, mas eu podia sentir o olhar do Lucas queimando na minha pele enquanto eu dançava, podia sentir a Marie colocar as mãos na minha cintura por um pouquinho mais do que a coreografia pedia.

Eu decidi que ia precisar me entorpecer mais se queria passar por aquela situação e me manter sã. Gritei que era hora dos shots, virei duas tampinhas de vodka de uma vez. Depois, fui pro banheiro, checar a minha cara, tomar um ar, lavar o rosto, sei lá. Quando eu voltei, Marie, Laura e Diego estavam se acabando na Paradinha. Eu sacudi os cabelos, respirei fundo e me juntei a eles.

Quando a música acabou,começou uma mais lenta, de sarração, que eu não conhecia. A Marie se virou para mim, colocou as mãos na minha cintura e a gente começou a rebolar. Eu estava tentando rir como se nada estivesse acontecendo, mas aquilo era covardia, sinceramente. Ela estava muito próxima de mim, aqueles olhões cor de mel penetrando a minha alma. Eu virei para o Lucas, meio desesperada.

– Cê tá vendo isso, né?

– Tô, sim. – Ele disse com um sorriso de lado filho da puta, como quem diz, não só tô vendo como to gostando. Ai, meu deus. Eu fechei os olhos, só rezando para os dois não estarem brincando comigo, porque aquela ideia já tinha cruzado a minha mente antes, e não tinha como negar que eu estava ficando cada vez com mais vontade.

A Marie me virou de costas pra ela, agarrou minha cintura e a gente foi dançando devagar. Daí ela afastou as mechas do meu cabelo e deu um beijo na minha nuca. Ok, isso aí já é falta. Não dá pra brincar desse jeito e ela sabe. Deixei o arrepio percorrer o meu corpo e voltar, e me virei, disposta a tomar as rédeas da situação de volta pra mim. Ou eles iam até o final ou o chove-não-molha ia parar por ali.

Ela passou a língua pelos lábios em forma de coração, arqueando as sobrancelhas perfeitas, nossas testas coladas. Não tirava os olhos de mim e naquele olhar a gente trocou mil confidências, lembramos dos velhos tempos, contamos muita coisa. Eu estava há tanto tempo tão sozinha, tão acostumada à minha independência e solidão, e de repente me vi de novo naquele olhar, toda aquela cumplicidade que a gente teve um dia, como se a gente tivesse terminado ontem.

Quando ela me beijou, segurou as laterais do meu rosto com as mãos. Meu coração estava acelerado, minhas mãos dormentes, como há muito tempo eu não sentia. Podia ouvir as exclamações dos amigos enquanto ela me empurrava para a parede mais próxima, mas a minha mente se desligou do resto do mundo. Nos enfiamos numa bolha à medida que o amasso se intensificava, minhas mãos seguindo da nuca dela para sua cintura, num daqueles beijos que é bom de primeira, que não dá vontade de parar.

Mas paramos. Quando eu abri os olhos, fazendo força para voltar do abismo de sensações no qual eu estava totalmente absorta, o Lucas estava atrás da Marie, olhando diretamente pra mim.

CONTINUA

 

Vlog: #Kommstdumit – Réveillon em Berlim!

A passagem do ano novo é uma das datas comemorativas mais sem limites na Alemanha. Tem álcool, tem frio e muitos, muitos, MUITOS fogos. Vem acompanhar comigo o meu segundo réveillon nessa cidade gelada.

Meu artigo para a Pornceptual MAG #3!

Tô escrevendo esse post cheia de orgulho – mas não é todo dia que a gente colabora para um projeto que acredita e admira muito. Para quem não conhece, o Pornceptual é um coletivo de pornografia queer e de guerrilha que é baseado aqui em Berlim. Quem comanda são três brasileiros, e eles produzem desde festas de fetiche, festivais de música, até sessões de fotos, vídeos e também, em edições especiais, a revista Pornceptual MAG. A edição #3 que acabou de sair tem como tema “Guerrilla”; uma compilação de autores, modelos, artistas visuais e fotógrafos criando conteúdo em cima de uma temática comum: A ideia de que o sexo e a pornografia podem ser instrumentos de justiça social, quando eles se afastam de estereótipos mainstream e dão voz para as minorias.

Foi uma delícia colaborar com a revista porque acredito no que o projeto propõe. Falei sobre a importância da alternativa feminista ao pornô tradicional como arma para o empoderamento feminino. A edição é limitada, mas você pode correr aqui para encomendar a sua. Aproveita e entra lá no site da Pornceptual para fuçar em tudo. O conteúdo é de encher os olhos.

Screen-Shot-2018-01-18-at-15.27.53.png

(Mais) Oito Instagrams safadinhos para seguir

Como eu contei neste post, no Instagram dá pra achar de tudo. Desde contas com comidas delicias até aquelas com um meme melhor do que o outro, mas engana-se quem pensa que as fotos compartilhadas por lá são só work safe. Vários perfis dedicam-se a compartilhar conteúdo erótico, diferenciado e original. Corre aqui pra ver como deixar o seu feed muito mais interessante – só cuidado na hora de abrir o aplicativo no trabalho!

LUMBRE

Cansou de tudo que é mainstream? Se joga no Lumbre. Lá o foco é erótica feminsta e queer, e as fotos, além de lindas, procuram promover a diversidade e uma relação saudável com o corpo e a sexualidade. Nada melhor para estimular a imaginação.

Petite Bohème

Quer saber mais sobre gravuras eróticas mais não sabe por onde começar? O Petite Bohème é o ponto de partida perfeito. A conta francesa tem uma estética incrível e é focada principalmente em desvendar os fetiches e fantasias femininos. Algo que todo mundo sabe, eu vou muito a favor.

aotearotica

Ainda na pegada das gravuras, corre pra seguir a aotearotica. O perfil faz uma curadoria de variados estilos de ilustração, apresentando conteúdo diversificado num feed para todos os gostos.

Pornceptual

Meu Koo | 📸: Rafa Canoba #brazil #censorship #arts #pornceptual

A post shared by Pornceptual (@pornceptual) on

Bom, eu sou suspeita pra falar, porque frequento a Pornceptual aqui em Berlim assiduamente, maaaas, as fotos compartilhadas pela conta da festa mais decolada que você já viu, além de lindas, propõe uma reflexão sobre o fetiche, trazendo conteúdo queer e usando erotismo como guerrilha social. Imperdível.

Jmamuse

Ninguém vai ficar entediado depois de começar a seguir a Jmamuse. Mais do que uma conta no Insta, trata-se de um coletivo de artistas que criam conteúdo erótico de variados estilos. Diversidade é a ordem do dia, não existe restrição a fantasia alguma. Fotos, ilustrações, de artistas do mundo todo. Acredite, você não vai se arrepender de dar uma olhadinha.

Regards Coupables

Anda numa vibe mais romântica? Então o Regards Coupables foi feito pra você. Um pouquinho mais softcore sem deixar de ser muito sexy, a conta traz conteúdo erótico com uma pitadinha de romance para os apaixonados de plantão.

BBnycart

Mulheres reais fotografadas por uma mulher real, e muitas, muitas tatuagens. Tá esperando o quê pra seguir? As fotos são lindas e o photoshop passa longe.

Byron Power

Misturar erotismo com humor é uma das minhas maneiras preferidas de falar de sexo, vocês sabem. O artista Byron Power faz exatamente isso, com quadrinhos irreverentes, brincando com estereótipos gays sem medo de ser feliz.

O segredo é ir navegando; o Instagram tem conteúdo pra todo mundo, e você com certeza vai achar o seu cantinho de arte erótica preferido. Só não esquece de contar pra gente; conteúdo erótico bom é conteúdo erótico compartilhado.

 

 

 

Vlog: E eu,que fui emo? feat. Johnny Manfredi do Albumlogia

Que atire a primeira pedra quem nunca usou cinco de rebite, ouviu Simple Plan, tirou fotos ~orgásticas pra postar no Fotolog. Eu e meu amigo Johnny nos juntamos para lembrar com orgulho da nossa fase emo – afinal, ela formou muito da nossa personalidade, e fez com que muita gente tivesse amigos pela primeira vez. Vai ter ex emo sim, aqui é miguxo, porra!

O conto da mocinha solteira

bli
Fonte

Entrei em casa derrubando tudo. Cacete, cacete, cacete, era pra eu estar fazendo silêncio! Consegui entrar no quarto sem maiores estragos, tirando a roupa toda na maior aflição, essa blusa pinica, essa calça aperta, e foda-se, não vou tirar a maquiagem porque não é todo dia que dá pra gente ser um bom adulto.

Quando eu deito na cama, o mundo inteiro gira. Ok, ok, tudo bem, eu só preciso respirar devagarzinho. Meus ouvidos ainda estão zumbindo, reverberando o techno que eu ouvi a noite inteira, lá fora a luz do dia chegando preguiçosa e tímida. Luxo é saber que posso dormir até tarde amanhã. Não era exatamente a vida que eu imaginei que teria a essa altura, mas também não está ruim, aceito o que vier, tá de bom tamanho.

Reviro na cama, o álcool deixando minha pele febril. Estou cheia de energia demais para conseguir apagar, o corpo pulsando ainda, todo elétrico. Bom seria se eu tivesse trazido alguém pra casa, mas eu ando 100% sem saco pra essas conversas idiotas, todas as últimas vezes terminei querendo expulsar o fulano da cama, e além disso é sempre uma decepção mesmo, melhor ficar com a minha mão, que não tem contraindicações nem torra minha paciência.

Falando nisso.

Um suspiro sai trêmulo, um dedo alcançando a barra da minha calcinha fio dental. Caralho, esse cheiro de cigarro só sai do meu cabelo ano que vem. Tá, concentra. Separo bem as pernas, deixando o indicador passear por cima da renda, o toque suficiente para me fazer contrair de levinho – devo estar perto de ovular ou coisa assim, porque esses dias até se o pano da calça roça de um jeito mais tchan na minha perna eu já fico morrendo de tesão.

Em um minuto enfio a mão por dentro da calcinha. Já estou um pouquinho molhada, e dá um choque quando toco o meu clitóris bem de leve. Passo os dedos da minha entrada para o restante da vulva, lambuzando tudo, antes de achar o ponto certinho com o dedo médio.

Coordeno os movimentos circulares com as voltas que a minha cabeça alcoolizada dá, devagar, fechando os olhos sentindo o mundo girar novamente. A zonzeira dessa vez não me causa enjoo, só deixa mais fácil de desconectar da realidade, e minha mente começa uma peregrinação pelos arquivos guardados nas gavetas de “fantasias”.

Aquela vez que um cara meteu a mão dentro da minha saia enquanto a gente se pegava contra a parede da boate, aquele gif de squirting que eu vi outro dia no Tumblr, aquela menina que eu vi outro dia no metrô,  quando eu gozei me esfregando na minha ex-namorada, quando o ex-crush disse que queria me ouvir gemendo pra ele, quando eu fiquei sarrando no colo do meu ex ex dentro da piscina na frente de todo mundo…

Opa, opa. Não, espera. Ex errado. Até abro os olhos, chacoalhando a cabeça; sai demônio.

Tá, vamos retomar o raciocínio. Fecho os olhos, lembrando da sensação exata da língua de um peguete que por milagre era bom de oral. De-lí-cia quando ela deslizava devagarzinho dentre os meus lábios, quando ele fazia um biquinho e começava a sugar o meu clitóris sem pressa, separando os dedos dentro de mim, pressionando bem nos lugares certos, ele nunca parava, até eu gozar. Daí geralmente me virava de quatro, me fazia arrebitar bem a bunda, e antes de começar a me comer, me acertava um tapa que quase sempre me deixava marca. Nossa, deu até vontade mandar um “oi sumido” agora.

Tinha também aquela menina com quem eu nunca transei, e como me arrependo. A gente ficava se beijando por horas, ela tinha boca em formato de coração, usava sutiãs com bojo daqueles que desabotoam na frente, e eu adorava colocar as duas mãos por dentro da blusa dela, desfazer o fecho, porque ela sempre gemia muito gostoso quando eu beliscava os mamilos dela, sempre ficava muito molhada quando eu a tocava, abrindo as pernas e deslizando na parede, puxando meus cabelos. Que frustração nunca ter sentido o gosto da boceta dela, nem ter colado ela na minha, aposto que devia ser macia que nem o resto do corpo inteiro…

Eu paro um pouquinho, fico de bruços na cama, levanto os quadris. Agora eu tô muito molhada de verdade, meus músculos pulsando em pequenos espasmos. Geralmente eu tento evitar, mas com a percepção melada de álcool e tesão desse jeito, fica difícil. Como um ímã, meus pensamentos são atraídos para você, aquela vez que você estava me comendo de quatro no chão do seu quarto no meio de um ménage e eu secretamente só conseguia pensar “caralho eu amo dar pra você, podemos fazer isso de novo, podemos fazer isso pra sempre“, ou na primeira vez que você gozou na minha boca, seus gemidos estrangulados e fora de controle, ou você algemado na minha cama, teimando em se mexer, choramingando baixinho depois de eu ter te acertado um tapa e mandado ficar quieto;

– Mas eu não consigo ficar quieto!

Minha mão esquerda chega para o reforço, brincando ali de levinho na minha entrada, as pontas dos dedos penetrando só um pouquinho. Uma onda de adrenalina parte do meu ventre e desce pelas minhas pernas. Eu tô perto. O suor pingando das suas costas quando você se enterrava tão fundo dentro de mim que parecia que ia se perder lá, todas as vezes que você me comeu exatamente assim, segurando meus quadris enquanto eu me debatia de bruços na cama, sentindo cada centímetro do seu pau entrando e saindo, me contraindo ao seu redor e perguntando sem coordenação se você estava sentindo, se conseguia sentir, que eu estava gozando pra você, estava gozando no seu pau…

Não deu pra segurar. O orgasmo me atravessou de cima a baixo como um raio, eu me esfreguei na cama e deixei escapar uma torrente de obscenidades chamando o seu nome, meu cérebro completamente dominado.

Trêmula, abri os olhos, e rompeu-se a bolha erótica. Minha boca estava realmente seca, eu tremi só de pensar na ressaca do dia seguinte. Com os músculos relaxados, deitei na cama, esperando que dessa vez eu conseguisse dormir a noite inteira. Antes de apagar só pensava que bom, ainda bem que pelo menos na fantasia a gente pode fazer tudo que quiser.