Sentença

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Eu não preciso de mais um cigarro, preciso que você me leve para casa. Vem, me tira daqui, me põe debaixo das cobertas que eu estou louca de doce e molhada de chuva, e eu não quero ter que pensar em mais nada, não quero tomar mais nenhuma decisão difícil, não quero ter que ter forças, só quero você me aquecendo, porque eu estou tremendo de frio, e eu estou confusa, e não tem álcool suficiente no mundo pra te matar afogado dentro de mim, e eu não imaginei que seria assim, mas agora é, agora é assim que eu estou, agora é assim que eu me sinto, e talvez não vai ser com você, mas eu sei quando for pra valer vai ser como era com a gente, e eu não quero mais nada, eu quero seu colo, eu quero seu abraço, quero você me secando com os lábios, dentro de mim de todas as  formas, eu quero que tudo volte a ser simples, mesmo que nunca tenha sido, eu quero que você me agarre e me beije num impulso, como tantas vezes, acabando com a tensão, me deixando sóbria num instante ao mesmo tempo em que me deixa mais bêbada, que eu ando tão a flor da pele e não quero mais ninguém nela, eu posso até ser confusa, e errada, e intensa demais, mas eu sei o que eu quero, e com você eu me encontro, e você me resgatou tanta vezes das minhas profundezas, por que não mais uma vez, vem, me tira daqui, eu perdi o juízo, eu estou encharcada, com o coração acelerado e a cabeça rodando e a única coisa que eu quero é você aqui comigo.

Predador

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Você me perguntou por que eu vim, mas eu já te respondi. Eu ando precisando me distrair, e você é uma bela distração. Com esses olhões de coruja, esse casaco de hipster, esse sorriso cafajeste, e esse humor que flutua entre o entusiasmo e o total desinteresse. Vou fingir que não sei que você me chamou só pra testar se eu viria. Nós dois sabemos que foi, mas hoje estou disposta a sentar nessa mesa e ouvir as suas mentiras agradáveis sem pestanejar. Como eu disse, estou precisando me distrair, então me distraia.

Eu ouço você contar vantagem disso e daquilo, e perco o ar observando você sugar o seu cigarro fazendo as covinhas aparecerem. Porra, vai ser gostoso assim lá na puta que pariu. Mas eu sei que pra bancar essa marra você tem que melhorar muito essa performance, mas não tem nada não, você me chamou e eu vim, eu estou aqui, porque eu quis. E pode pedir mais uma rodada, e mais outra, e mais outra, vamos brindar a nós, afinal você não presta e eu só sei gostar do que não presta, e pode me levar pra onde você quiser, afinal, é a sua cidade, não é, então pode me levar, porque estou gostando de inverter os papéis, estou precisando esvaziar a cabeça e ser conduzida e levada e arrastada pra fora de mim.

E estou indo de bom grado para sua armadilha, cercada de você por todos os lados, afundando nos seus braços enquanto você vai soprando ar novo nos meus lábios pulmões adentro,  e não tem nada de mais em ser carregada de volta para a superfície de vez em quando, eu ando precisando me perder pra me achar de novo, então pode mentir mais, pode apertar mais, pode ir mais fundo, que às vezes quem nos afoga num dia nos salva no outro, e hoje você é minha boia, é meu salva-vidas, é meu bote de volta para a terra firme.

Aquelas três palavras…

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Eu nunca gostei de ir ao motel. Sempre achei artificial e constrangedor. Sempre preferi evitar.

Mas daquela vez, foi diferente. Porque eu estava com você. Foi nossa aventura. Passar por todas as partes contrangedoras foi até engraçado.

Num ambiente tão árido, a gente estava transbordando, só porque estar na companhia um do outro era uma celebração.

Quando trancamos a porta, o mundo lá fora deixou de existir.

O sexo foi desesperado, atropelado.

Queríamos enfiar tudo naquelas três horas.

A cada momento a ampulheta estava contra nós.

O tempo estava acabando.

A gente estava acabando.

E depois eu teria dormido dentro das suas costelas se pudesse.

E o sentimento me invadiu como uma onda.

Minha voz foi mais rápida que meu raciocínio.

Meu sussurro saiu sem eu perceber.

Quando me dei conta, já tinha falado.

Eu não queria nada em troca. Eu só queria que você soubesse.

Mas você sussurrou de volta.

E entrelaçou os dedos nos meus.

E naquela hora consumamos o óbvio.

Nossos corpos e almas se amaram.

E nossos corações se juntaram na mesma dor. E deleite.

Que é se jogar no abismo, pra voar.

Mesmo sabendo que o concreto aguarda.

Alguns metros abaixo.

O salto do desejo

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Você transformou a minha vida.

Estou querendo achar um jeito sofisticado de dizer, mas no fundo é apenas isso. Você veio e chacoalhou minha alma, fez todos os segredos escondidos nela caírem no chão, aquelas tranqueiras que eu guardava porque eu esquecia de jogar fora, e também as que estavam lá no fundo, longe dos olhares das pessoas. E depois de ver tudo isso, você juntou todos os pedacinhos, pegou no colo e levou com você.

Passei um tempo dizendo que você foi o último presente que São Paulo me deu. Como se ela já não tivesse sido generosa comigo o bastante, bem no fim ainda veio me lembrar do quanto a vida pode ser mágica, pode ser extraordinária, pode ser especial. Mas a verdade é que é muito mais do que isso. Eu poderia gastar horas descrevendo o quanto eu me senti segura e acolhida na sua companhia. Fui parar sem querer na sua ilha com o meu barquinho de papel e fiquei, porque a água era morna e tranquila, os dias ensolarados e a brisa mansa. E mesmo quando vieram as tempestades e eu quis partir, você esperou passar, abriu o meu barquinho na areia para que ele secasse no sol.

A sua companhia é um banho de vivacidade. Talvez você não saiba, mas ao seu lado eu tive mais vontade de viver do que nunca. Me lembro de uma conversa em que você me disse que a última frase do Miró foi “que pena”. E eu pensei; “que pena, que pena, que pena”, porque ao seu lado a vida era tão mágica que não dava vontade de parar de viver nunca mais.

E tantas vezes eu pensei, que injusto, por que agora, por que as escolhas não poderiam ser mais fáceis, por que para viver os meus sonhos eu tenho que abrir mão de você. Mas a verdade é que eu passei tanto tempo com medo de morrer sem saber o que era viver o amor, e agora eu sei, eu vivi, e foi muito mais do que eu imaginei que seria.

E valeu cada segundo. E cada momento de angústia e saudade. E cada momento de desespero e vontade de voltar. Só por um dia. Para te ver gargalhando e falando sobre aqueles filmes chatos que eu nunca queria ver. Pra sentir o cheiro gostoso do shampoo nos seus cachinhos. Pra ouvir você me dando bom dia com a cara toda amassada.

Ainda assim valeu, porque o que aconteceu, não se apaga. Não tem como mudar o que já passou. Todas as minhas lembranças, eu vou levar comigo, para todos os lugares, e vou saber que um dia tinha uma pessoa que me acolheu com todos os meus detalhes. Os bons e os ruins.

E depois de tudo isso, eu posso dizer que eu sou alguém com muita sorte Eu conheci o amor, uma vez.

 

E ele é lindo.

 

Imergente

O meu Março foi um pedido da alma que ecoou em todos os cantos do universo e voltou pra mim com gosto de sal e cheiro de mar. Justamente quando eu mais precisava, foi trazer um pouquinho de magia de volta para a minha vida, iluminando os cantinhos com a luz sincera dos vagalumes. Nos seus braços, eu encontrei dentro de mim um quartinho fechado cheio de paz interior, transbordando até a tampa, a calma das incertezas, da confiança no acaso, de viver a vida com leveza e sem culpa. Foram horas de devaneio olhando o mar – as ideias, o mundo, as viagens, a vida, o desejo por dentro. O desejo por fora, que se chocou em beijos trôpegos, cheios de areia, cheios de paixão, a pele castigada pelo sol encontrando bálsamo em banhos de mar noturnos. Eu mergulhei no mar, mergulhei em mim, mergulhei nele. Da areia até o céu claro de estrelas, houve um sem fim de desejos entre dois vagabundos que a fórmula do acaso uniu, abençoados por Iemanjá e a lua dos amantes.

Veni, vidi, amavi

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Uma coisa é certa: De falta de amor eu não morro. Posso morrer por excesso dele, ou excesso de inconsequência, ou infarto depois que meu coração bater demais – mas não de falta de amor. Sei que ultrarromantismo é démodé, mas não posso evitar algo que está em cada uma das minhas células – essa vontade incontrolável de me atirar no fogo toda vez que ele aparece na minha frente. E eu que sou uma pessoa até razoável em muitos setores da vida, não tenho escrúpulos em se tratando de amor. Porque é só assim que vale a pena. Muita gente se admira e não consegue entender esse meu afã de viver as paixões até a última gota como se elas fossem veneno. Mas o que elas não sabem é que em troca eu levo pra mim uma coleção de memórias que valem vidas inteiras. Eu vivo mil anos em uma semana. Eu vou viver muitas vidas em uma só. Então, na minha lápide, por favor coloquem que eu vim, eu vi e eu amei. E se eu morrer de amor, ah antes seja, do que morrer de falta dele.

Inveterado

Meu Julho foi como um sopro de sonho que invadiu os meus dias. Tanto que parecia que eu estava vivendo a vida de outra pessoa. Tudo ficou em pausa. Fui abrandar a aspereza do cotidiano na sua voz baixinha, sua doçura inesgotável, fui me inspirar nas suas histórias, na sua coragem, no seu jeito de se atirar sem medo nas coisas – afinal, não deveria ser assim? Eu me afundei, me afoguei nessa nossa bolha de languidez e ternura. Fazia muito tempo que o sol por dentro não brilhava tão forte. Eu me deixei levar pelo seu senso de companhia. Eu me deixei me perder nos seus braços e o deixei penetrar fundo em cada um dos meus poros. Porque a gente se entendeu. Porque não tivemos medo. E agora, eu estou aqui me perguntando como eu consigo fazer isso tantas vezes. Como eu tenho coragem de enfiar meu coração no liquidificador sabendo que vai doer. Como eu tenho a capacidade de continuar me entregando tão completamente a tudo que vem e não fica. Mas eu sei, eu sei que meu Julho foi só meu e só nós dois sabemos o quanto. E eu vou levar cada sussurro, cada segredo, cada momento pelo resto da minha vida. Agora só me resta respirar fundo, juntar meu pedacinhos e continuar a estrada. Ele pode me levar pelo mundo afora no seu caderninho. Quem sabe um dia o universo se encarrega de nos esbarrar outra vez.