Falando sério

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Fonte

Eu gosto de você. Gosto do seu corpo coberto de tatuagens, gosto do seu jeito manso, gosto dos nossos dias perdidos em ressaca no seu apartamento, gosto desse seu sotaque que eu não consigo entender antes do terceiro drink, gosto quando o álcool mela a nossa comunicação e faz tudo ficar mais fácil, gosto das marcas dos seus dedos no meu pescoço e na minha bunda no dia seguinte, gosto do seu pendor pra autodestruição tão parecido com o meu.

Mas você não imagina que às vezes quando a gente tá junto e eu já tô muito bêbada eu ainda penso no meu ex namorado, tem tanta coisa sobre mim que você nunca vai saber, tem tanta vida me esperando em dois cantos diferentes do mundo, e aqui eu nem existo, eu sou só um sopro e pra você eu sou só uma miragem, o que acontece aqui está desconectado do resto da minha vida, entende, e o efêmero é o que faz ser bom, eu gosto da folga de ser quem eu sou, a bagagem às vezes pesa, então se a gente puder deixar ela um tempo no guarda-volumes melhor.

Eu não gosto quando você blefa e se faz de difícil, para que complicar as coisas, mas se tem que ser assim, tudo bem, porque eu estou cansada do jogo mas ainda sei jogar, mas eu queria que você entendesse que se a gente está aqui junto é por algum motivo, seja pela putaria ou pela companhia, às vezes é tão exaustivo manter a pose, às vezes a gente se sente só, e tá todo mundo morrendo de medo de se estrepar, mas paciência, aproveita que eu to aqui de mãos livres sem bagagem pra te fazer um cafuné ou te arranhar as costas, e depois, depois é depois, você não ve que a gente ta perdendo tempo, se você puder parar de fingir eu agradeço, até porque eu me irrito muito com o fato de que funciona e eu fico querendo te ver toda vez que você some, eu não sou sua, nem nunca vou ser, mas agora posso ser, só um pouco, só um pedaço, só uma parte que existe agora e depois vai ser como se nunca tivesse existido.

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Inelutável

Meu maio veio para me atravessar. Já disse que nunca fui boa em resistir a tentações, e dessa vez não podia ser diferente. Me atropelou e me tirou do rumo, levei horas pra conseguir voltar para a estrada, mas era exatamente isso que eu queria, era exatamente isso que eu precisava, é bom saber que eu ainda estou viva, que minha capacidade de me atirar nas coisas continua a mesma. Só me resta dizer, pode vir, pode entrar, porque eu sempre gostei mesmo é do estrago e eu tô louca pra saber o tamanho do rombo que você vai fazer, pode me bagunçar, se misturar essa sua autodestruição sombria alemã com a minha falta de limites latina o que que dá, eu já nem sei mais se eu estou confundindo paixão com tesão, mas a verdade é que eu nunca gostei de gente perfeita, eu te quero por ser assim, cheio de falhas, egoísta, teimoso, irresponsável, do mesmo jeito que eu sou inconsequente, extremada, contraditória. Já consiguia sentir antes mesmo de começar que Maio vai doer, mas como tudo que é bom na vida, a gente deixa pra lidar com a ressaca depois, e se embriaga mais agora, que se é pra sofrer, melhor sofrer direito.

Espiral

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Fonte: Tumblr 8tracks

Tá frio, tá frio pra caralho, mas eu não sinto mais nada, as pontas dos dedos dormentes enquanto você abre a minha boca e despeja mais Jägermeister. Essa situação é ridícula, e talvez nós dois estejamos velhos demais para estarmos bêbados nos beijando em cima do capô de um carro qualquer, minha calça grudada na neve e no metal. Mas foda-se também, eu sempre odiei tudo que é morno e prefiro estar assim, prefiro os seus beijos trôpegos, minha personalidade dionisíaca se encaixa tão bem na sua, talvez seja destino que vagabundos acabem se esbarrando nos cantos do mundo, talvez nós só estejamos nos recusando a crescer, mas eu adoro ser assim toda pequenininha pra minha cintura caber direitinho nas suas mãos, tem horas que me dá vontade de te engolir, tem horas que me dá vontade de correr que essa loucura toda só pode acabar quando eu me machucar mas foda-se, foda-se, foda-se, eu tô tão bêbada e você também, despeja mais álcool na minha boca, me dá um banho, me leva pra casa, arranca minha roupa, me come até a gente desmanchar na minha cama.

***

A gente entrou na banheira de roupa e tudo, e quando eu olho no espelho parece que meu coração tá batendo dentro do meu crânio, essa cidade, essa cidade é a cidade do pecado, eu vim aqui pra me perder, e enquanto você olha pra mim com essa cara de quem mal consegue focar aquela música vem na minha cabeça, I just wanna turn the lights on, in these volatile times… Mas tá certo, eu queria ser livre, e eu estou sendo livre, é que liberdade é uma coisa perigosa, ainda mais pra gente como eu, mas tá tudo certo, eu tô tão descolada da pessoa que eu fui que eu acho que ela não volta nunca mais e isso é bom, ela tinha medo, e eu não tenho mais medo de nada, então vem, turbilhão por turbilhão a gente se neutraliza, se for pra doer deixa doer com força, se a cidade é fria e o inverno é longo, vamos incendiar essa porra toda com gasolina e autodepreciação, até não restar tijolo sobre tijolo.

Até eu me acabar.

Até a gente acabar.

Até a onda quebrar, arrasar e ir embora, pra eu arrumar a bagunça depois.