Vulgar sem ser sexy

d104258a3400c9ffc90be8779ffcd475.jpg
Fonte: Pinterest

Acho que esse clichê sempre caiu muito bem para me definir. Minha relação com minha sexualidade sempre foi conflituosa e difícil – ao mesmo tempo que sempre foi parte importantíssima da minha identidade, lidar com isso nunca foi algo natural pra mim.

Fui criada num ambiente bem repressor sexualmente falando – uma família dominada por homens, extremamente machista. Uma escola dominada por preconceitos, extremamente religiosa. Durante toda a minha adolescência, eu fui uma menina magrela, desengonçada, esquisita. Sempre era a última a fazer tudo – a última a beijar, a última a transar – e ainda assim sempre tive de reputação de fácil ou de piranha, apesar de ter uma vida social inexistente – e de ter certeza de que ninguém nem ao menos se interessava por mim para ter a fama de fácil em primeiro lugar. Lembro de ouvir amigas ficando com carinhas cafajestes, que as enrolavam, as usavam, e enquanto elas choravam as pitangas, sentia uma pontada muito clara de inveja – eu não parecia ser boa o suficiente nem para ser usada.

Apesar de tudo, sentia que meu exterior de extrema timidez e introversão eram completamente incompatíveis com a pessoa que eu era por dentro. Eu sempre fui alguém com a libido extremamente alta – desde que descobri o que era sexo gasto a maior parte do meu tempo pensando a respeito. Minha imaginação fértil sempre compensou minha pouco vivência criando fantasias vívidas e sórdidas. Eu desejava ardementemente poder ser a pessoa que eu era – poder externalizar toda essa minha natureza sexual, conseguir colocar pra fora o que estava por dentro.

Como todas essas questões complicadas de personalidade que a gente tem, foi um processo. Foi no início da vida adulta, aos poucos, que fui começando a me sentir à vontade na minha própria pele para dar vazão à minha personalidade. As roupas, o comportamento, tudo que eu tinha para dizer. Fui tirando os meus filtros, um a um, e revelando toda essa vulgaridade que eu tinha por dentro.

Vejam bem,eu advogo vulgaridade. Talvez porque eu não tenho escolha, e acaba sendo uma autodefesa. Talvez porque  eu ache mesmo que as coisas que a gente faz sem refinamento, sem pensar demais, sem editar demais, são as mais sinceras. Sempre fui alguém de natureza muito intuitiva e é libertador para mim finalmente dar ouvidos aos desejos que urravam por dentro. Tenho bem claro na minha cabeça que não tem nada de errado em ser assim, porque eu simplesmente sou, é algo que vem tão naturalmente de dentro, que não tem razão de não ser.

Porém, nem sempre é fácil. Para ter coragem de ser que eu sou, pago o preço nas minhas interações sociais. Eu consigo sentir as pessoas ficando desconfortáveis ao meu redor – quando eu falo palavrão demais, quando eu sou muito gráfica em descrever minhas putarias, quando eu me abro demais rápido demais. Nessas horas, eu fico pensando que eu queria muito mesmo conseguir ser uma pessoa reservada e discreta. Que tudo na minha vida seria mais fácil se eu não tivesse essa personalidade hiperbólica e dionisíaca.

Na minha vida amorosa, isso se multiplica. Para começar com o óbvio, digamos que #piranhastambémamam. O fato de eu ser uma pessoa sexualmente libertina, ficar com muita gente, ser aberta à experimentar, não significa que eu não me envolva, ou queira apenas sexo. Enfim, é óbvio, mas parece que não pra todo mundo. Me frustrei muitas vezes sentindo o julgamento de pessoas por quem estava apaixonada. Por muitas vezes fui trocada por um tipo tão específico de mulher que isso me criou um complexo.

Sabe aquelas meninas, discretas, dignas, reservadas, com um comportamento quase blasé, que sempre parecem estar acima de tudo isso? Elas se divertem, bebem, mas sem dar PT. Elas sabem rir de uma piada, mas não alto demais. E principalmente, elas são capazes de amar, mas sem exageros. Elas estão sempre nos cantos, cercadas por uma aura de ~mistério. Logo eu, que sempre me faltou indiferença ao que quer que seja, fui me interessar por gente que gosta deste tipo. Nem preciso falar que não tenho chances.

Nessas horas fica difícil continuar no meu propósito de seguir firme sendo a pessoa que eu sou, apesar dos pesares. Lembro de uma briga horrível que tive com um carinha por quem estava apaixonada. Ele me olhou bem no olho e disse:

– Você é uma ridícula, fica falando um monte de putaria e todo mundo está rindo da sua cara e você nem percebe.

Ele basicamente enfiou a botina em uma das minhas maiores inseguraças. Essas palavras me machuram muito, porque tocaram num dos meus maiores medos: De ser ridícula, por ser como eu sou, assim, vulgar, exagerada, extratosfericamente libidinosa.

Estou apredendo a fazer as pazes com a minha natureza vulgar sem ser sexy, simplesmente porque fingir que eu sou outra pessoa é exaustivo. Aprendendo que eu não posso oferecer para as pessoas o que elas gostariam que eu fosse – essa versão mais light de mim. Apenas o que eu sou. E também que se tem gente que vai me reduzir a isso, paciência. Quem é importante para mim sabe que eu sou sim essa pilha de energia sexual – mas também muito mais do que isso.

Por fim, talvez eu seja sim ridícula, e seja incapaz de não continuar agindo de maneira ridícula. Vou continuar usando roupas estupidamente curtas para a minha idade, ficando com todo mundo que der vontade, falando – e escrevendo! – todas as barbaridades que passam pela minha cabeça. Pelo menos hoje em dia eu consigo dizer que sou muito mais quem eu sempre quis ser – e por enquanto está bom.

Precisamos falar sobre camisinha

tumblr_static_tumblr_static_8dnpezqj6p8o0kgos8sgw80wo_640.jpg

Pois é, gente. No encalço do dia internacional de luta contra a AIDS, primeiro de dezembro, vamos falar sobre essa coisinha de plástico que foi criada pra que a gente pudesse transar por aí sem ter que lidar com gravidez indesejada nem doenças sexualmente transmissíveis.

Primeiro, alguns dados que por mais que sejam repetidos vezes e vezes, parecem que não entram na cabeça da galera: Em 2014 um estudo revelou que os casos de infecção por HIV no Brasil aumentou 50% em seis anos. Sim, você leu direito. CINQUENTA POR CENTO.  Isso sem contar outras doenças sexualmente transmissíveis. A cada ano, mais de um milhão de pessoas contraem gonorreia. Os casos de herpes genital ultrapassam 600.000. Sem falar na atual epidemia de sífilis que está acontecendo no país, cuja principal causa é justamente a falta de uso do preservativo.

Cruzo esses dados estatísticos com a minha vivência pessoal e a de muitas amigas e eu começo a ver um padrão muito preocupante. Muitos homens não fazem questão ou mesmo se recusam a usar camisinha na hora do sexo. As desculpas são muitas. Já ouvi muitos relatos de homens que não conseguem manter uma ereção com camisinha, ou que pedem pra começar sem, ou a clássica, “não dá pra sentir nada, é como chupar bala com papel”. Inúmeras vezes aconteceu comigo de eu pegar a camisinha e o sujeito me perguntar, “ué, mas você não toma pílula?”

Sinceramente, está difícil de entender vocês, rapazes. Primeiro e óbvio que você não me conhece direito, nem sabe sobre a minha saúde. Então pra que se colocar em risco desse jeito? Outra que, em uma one night stand, como é que você vai saber se eu tomo a pílula regularmente? Você confia cegamente nisso o suficiente para não se preocupar nem um pouco com uma gravidez indesejada?

É fato estatístico que os homens morrem mais cedo e vão menos ao médico. E quando eu ouço e vivo este tipo de coisa, ainda fico abismada com a displicência com a qual muitos homens tratam a saúde e o bem-estar. Próprio e dos outros ao seu redor. É fato que muitas mulher também não gostam e se recusam a usar camisinha. É fato também que ser soropositivo não é sentença, e os tratamentos de hoje garantem qualidade de vida para os portadores de HIV. Mas o tratamento é para a vida inteira, e uma coisa tão simples quanto camisinha pode prevenir. De novo, pra que arriscar?

Não quero mentir e ser moralista, e dizer que nunca escapei e transei sem camisinha, porque não é verdade. Já dei minhas escorregadas sim, mas acho que isso não é exemplo pra ninguém. Principalmente nos momentos em que não tenho parceiro fixo, sempre levo a camisinha na bolsa. Agora, o que é impressionante é em 90% dos casos, sou eu quem toca no assunto, ou pega a camisinha. A impressão que dá é que se eu não falasse nada, rolaria sem. A minoria dos caras com quem eu transei tomou a iniciativa de colocar a camisinha. Quando converso com as minhas amigas sobre o assunto, escuto a mesma coisa. Sem contar as vezes que eu fui pressionada a não usar, culminando numa vez que eu me recusei incisivamente a transar sem camisinha com um cara que estava insistindo muito que “não tinha nada”, e tive que escutar um “ah, então você é uma dessas mulheres egoístas?”.  Respondi que era sim, peguei minhas coisas e fui embora.

Claro que este sujeito foi o ápice, mas essa sensação de que você está sendo “chata” quando pede para o cara encapar o menino é frequente. Eu só queria entender, porque na minha cabeça, é uma coisa mútua. Eu estou me protegendo e te protegendo. Deveria ser natural para os homens também quererem se preservar, mas parece que não é com eles.

Uma vez tive uma conversa séria com um peguete sobre isso, e ele me disse que tinha dificuldade que manter a ereção com a camisinha, e que ele achava que isso prejudicava muito a performance. Ele até me mostrou pesquisas que estão sendo feitas para criar preservativos mais ergonômicos e modernos, para substituir os que temos agora. Eu acho que é muito bom que a gente possa ter em breve camisinhas mais confortáveis, mas não dá pra esperar esse dia e ter sexo desprotegido até lá. Ah, e mais uma coisa. Não existe isso de “camisinha pequena demais para o meu pau”, tá? Aqui está uma foto de uma cantora que colocou uma camisinha até o joelho para provar que não existe. Se o seu pinto é maior do que isso, você precisa ser estudado pela ciência. Estamos combinados?

To all the guys saying "my dick is too big for condoms" TAKE A SEAT

A post shared by Zara Larsson (@zaralarsson) on

 

Pessoalmente, eu também prefiro transar sem camisinha. Eu também acho mais gostoso. Mas eu acho que precisa entrar na cabeça dos caras que não dá pra fazer sem quando você acabou de conhecer a pessoa. Tem que ser automático na cabeça das pessoas, sexo = preservativo. Se quiser fazer sem, podemos fazer os exames e aí começamos.

O que nos leva a outro assunto. Uma em cada cinco pessoas contaminadas pelo vírus HIV não sabe. Lembrando que quando a AIDS não está sendo tratada é que o risco de transmissão é maior. Estou acostumada a fazer os exames de sangue para DSTs anualmente, junto com o papanicolau, o ultrassom, etc. Acho que como nós mulheres já estamos acostumadas a cuidar da nossa saúde sexual, fica mais natural incorporar na rotina. Agora, para os homens, que já vão menos ao médico, parece que fazer este tipo de exame é raridade. O ex namorado de uma amiga recebeu a notícia que uma menina com quem saiu um tempo era soropositiva. Minha amiga insistiu para que ele fosse fazer o exame, já que eles estavam transando sem preservativo, e ele ia deixando sempre para amanhã, como se não fosse problema dele. No fim, ela foi se consultar primeiro, para saber o resultado.

No meu último relacionamento, eu tinha acabado de fazer todos os meus exames quando começamos a namorar. Usávamos camisinha, e pedi para que ele também fizesse os testes pra gente poder transar sem. Adivinha quem enrolou e adiou? Transamos sem camisinha, com a promessa de que ele faria os exames logo, mas no fim, eu que tive que refazer os exames. Eu acho que eu nem deveria ter que pedir uma coisa dessas duas vezes, é o mínimo de consideração e respeito com alguém com quem você se importa. Mas eu ouço esse tipo de história o tempo todo. Os meninos não querem ir fazer o teste. Lembrando que o exame é feito gratuitamente pelo SUS e o resultado sai na hora. É fácil e rápido. Não tem desculpa, gente. Não tem.

Detesto ter que dar essa bronca sobre uma coisa que deveria ser óbvia, mas aparentemente é necessário. E de novo: Sei que muitas meninas também não gostam e se recusam a usar camisinha, mas o meu papo hoje é com os meninos. Sexo é uma delícia, e não deve ser motivo para transtorno e tristeza. Se cuidar e se prevenir é algo que você deve fazer por você, pela sua saúde. E também pelas pessoas com quem você se relaciona. As que você vai namorar e as que você vai passar só uma noite. Sexo é troca, e requer cuidado mútuo.

Então vamos usar camisinha. De morango, de limão, de uva, que esquenta, que esfria, com ranhuras, extragrande, que brilha no escuro, que vibra. Mas vamos usar. Da próxima vez que você ver um comercial de camisinha na TV, saiba: É pra você. Eles estão falando com você.