Vulgar sem ser sexy

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Fonte: Pinterest

Acho que esse clichê sempre caiu muito bem para me definir. Minha relação com minha sexualidade sempre foi conflituosa e difícil – ao mesmo tempo que sempre foi parte importantíssima da minha identidade, lidar com isso nunca foi algo natural pra mim.

Fui criada num ambiente bem repressor sexualmente falando – uma família dominada por homens, extremamente machista. Uma escola dominada por preconceitos, extremamente religiosa. Durante toda a minha adolescência, eu fui uma menina magrela, desengonçada, esquisita. Sempre era a última a fazer tudo – a última a beijar, a última a transar – e ainda assim sempre tive de reputação de fácil ou de piranha, apesar de ter uma vida social inexistente – e de ter certeza de que ninguém nem ao menos se interessava por mim para ter a fama de fácil em primeiro lugar. Lembro de ouvir amigas ficando com carinhas cafajestes, que as enrolavam, as usavam, e enquanto elas choravam as pitangas, sentia uma pontada muito clara de inveja – eu não parecia ser boa o suficiente nem para ser usada.

Apesar de tudo, sentia que meu exterior de extrema timidez e introversão eram completamente incompatíveis com a pessoa que eu era por dentro. Eu sempre fui alguém com a libido extremamente alta – desde que descobri o que era sexo gasto a maior parte do meu tempo pensando a respeito. Minha imaginação fértil sempre compensou minha pouco vivência criando fantasias vívidas e sórdidas. Eu desejava ardementemente poder ser a pessoa que eu era – poder externalizar toda essa minha natureza sexual, conseguir colocar pra fora o que estava por dentro.

Como todas essas questões complicadas de personalidade que a gente tem, foi um processo. Foi no início da vida adulta, aos poucos, que fui começando a me sentir à vontade na minha própria pele para dar vazão à minha personalidade. As roupas, o comportamento, tudo que eu tinha para dizer. Fui tirando os meus filtros, um a um, e revelando toda essa vulgaridade que eu tinha por dentro.

Vejam bem,eu advogo vulgaridade. Talvez porque eu não tenho escolha, e acaba sendo uma autodefesa. Talvez porque  eu ache mesmo que as coisas que a gente faz sem refinamento, sem pensar demais, sem editar demais, são as mais sinceras. Sempre fui alguém de natureza muito intuitiva e é libertador para mim finalmente dar ouvidos aos desejos que urravam por dentro. Tenho bem claro na minha cabeça que não tem nada de errado em ser assim, porque eu simplesmente sou, é algo que vem tão naturalmente de dentro, que não tem razão de não ser.

Porém, nem sempre é fácil. Para ter coragem de ser que eu sou, pago o preço nas minhas interações sociais. Eu consigo sentir as pessoas ficando desconfortáveis ao meu redor – quando eu falo palavrão demais, quando eu sou muito gráfica em descrever minhas putarias, quando eu me abro demais rápido demais. Nessas horas, eu fico pensando que eu queria muito mesmo conseguir ser uma pessoa reservada e discreta. Que tudo na minha vida seria mais fácil se eu não tivesse essa personalidade hiperbólica e dionisíaca.

Na minha vida amorosa, isso se multiplica. Para começar com o óbvio, digamos que #piranhastambémamam. O fato de eu ser uma pessoa sexualmente libertina, ficar com muita gente, ser aberta à experimentar, não significa que eu não me envolva, ou queira apenas sexo. Enfim, é óbvio, mas parece que não pra todo mundo. Me frustrei muitas vezes sentindo o julgamento de pessoas por quem estava apaixonada. Por muitas vezes fui trocada por um tipo tão específico de mulher que isso me criou um complexo.

Sabe aquelas meninas, discretas, dignas, reservadas, com um comportamento quase blasé, que sempre parecem estar acima de tudo isso? Elas se divertem, bebem, mas sem dar PT. Elas sabem rir de uma piada, mas não alto demais. E principalmente, elas são capazes de amar, mas sem exageros. Elas estão sempre nos cantos, cercadas por uma aura de ~mistério. Logo eu, que sempre me faltou indiferença ao que quer que seja, fui me interessar por gente que gosta deste tipo. Nem preciso falar que não tenho chances.

Nessas horas fica difícil continuar no meu propósito de seguir firme sendo a pessoa que eu sou, apesar dos pesares. Lembro de uma briga horrível que tive com um carinha por quem estava apaixonada. Ele me olhou bem no olho e disse:

– Você é uma ridícula, fica falando um monte de putaria e todo mundo está rindo da sua cara e você nem percebe.

Ele basicamente enfiou a botina em uma das minhas maiores inseguraças. Essas palavras me machuram muito, porque tocaram num dos meus maiores medos: De ser ridícula, por ser como eu sou, assim, vulgar, exagerada, extratosfericamente libidinosa.

Estou apredendo a fazer as pazes com a minha natureza vulgar sem ser sexy, simplesmente porque fingir que eu sou outra pessoa é exaustivo. Aprendendo que eu não posso oferecer para as pessoas o que elas gostariam que eu fosse – essa versão mais light de mim. Apenas o que eu sou. E também que se tem gente que vai me reduzir a isso, paciência. Quem é importante para mim sabe que eu sou sim essa pilha de energia sexual – mas também muito mais do que isso.

Por fim, talvez eu seja sim ridícula, e seja incapaz de não continuar agindo de maneira ridícula. Vou continuar usando roupas estupidamente curtas para a minha idade, ficando com todo mundo que der vontade, falando – e escrevendo! – todas as barbaridades que passam pela minha cabeça. Pelo menos hoje em dia eu consigo dizer que sou muito mais quem eu sempre quis ser – e por enquanto está bom.

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A importância de dizer “eu quero”

 

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Esses dias eu estava revendo a minha comédia romântica preferida, chamad “Qual é o seu número?”. Resumindo a história, a personagem da Anna Faris decide que não quer transar com mais ninguém novo, e que vai achar o amor de sua vida dentre os caras com quem já transou. Ela contrata o seu vizinho gatinho (Chris Evans) para ajudá-la nessa missão, mas os dois começam a se envolver, e lá pelas tantas, ele a confronta sobre a sua missão mirabolante, perguntando os porquês, dizendo que não tem sentido, até que ela explode e diz: É o que eu quero!

Essa cena me impacta bastante porque eu acho que vi poucas vezes personagens femininas dizerem tão explicitamente que querem alguma coisa, porque querem e fim, sem dar maiores justificativas. Pensando bem, eu não vejo essa cena na vida real muitas vezes, e também não costumo responder para as pessoas que algo “é o que eu quero” como ponto final.

Nós mulheres somos muitas vezes condicionadas a priorizar os outros nas nossas decisões. Fazer escolha em prol dos filhos, dos companheiros, da família, do chefe, etc. Nós somos ensinadas, desde pequenas, a abrir mão dos nossos desejos. Quando as mulheres colocam suas próprias vontades como prioridade, são tachadas de egoístas.

E exatamente para evitar esse tipo de julgamento é que nós inventamos artifícios para justificar nossos desejos, para os outros e para nós mesmas. Não estamos acostumadas a querer simplesmente, porque isso basta para que sejamos capazes de tomar uma decisão. Nós somos treinadas a desejar de maneira condicional, apresentando uma série de argumentos que deem suporte àquele desejo.

Não escutamos “não quero ter filhos”. É sempre “não quero ter filhos, porque minha rotina não comporta crianças”. Não escutamos “eu quero comprar este sapato”. E sim “eu quero comprar esse sapato, porque estava tão baratinho na promoção, e combina com tudo”. Não é de bom tom dizer “eu quero transar com ele”, mas se você ameniza com “eu quero transar com ele, porque ele é um cara muito legal”, até que vai.

Querer as coisas simplesmente porque a gente quer pode ser libertador. No fim das contas, somos nós que vamos ter que conviver diariamente com as consequências das nossas decisões, não as outras pessoas. Seguir os nossos desejos deveria ser natural, e não requerer uma série de malabarismos e desculpas  para não sermos vistas como – e nem nos sentirmos – egoístas.

Estou tentando fazer um exercício de justificar menos os meus desejos, e assumi-los mais. Acho que isso é importante porque eu treino que eu posso querer por mim mesma, sem ter que me justificar. E também dizer isso para as pessoas também deixa os limites mais claros para a interferência delas. Não estou dando motivos com os quais a pessoa pode argumentar; estou expressando o meu desejo e só.

Muitas vezes eu sinto que a nossa autonomia nos é tirada quando se é mulher. Se apoderar das decisões das nossas vidas está nas pequenas e nas grandes coisas, porque é só seguindo o que a gente realmente quer, é que a gente consegue ser mais feliz.