Quem tem medo de educação sexual?

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Nunca vou esquecer a primeira aula de educação sexual que eu tive. Tinha dez anos de idade, estava na quarta série. Numa aula de ciências, em que o currículo programático nos mandava estudar sobre os sistemas do corpo humano, finalmente chegamos ao sistema reprodutor.

Estávamos todos na sala muito empolgados e curiosos, muito mais do que jamais estivemos para conhecer nossos órgãos. Aturando muitas piadinhas e risadinhas, a professora nos conduziu pela matéria. Aprendemos quais eram e onde ficavam nossos órgãos reprodutores. Aprendemos como funciona a menstruação. Aprendemos como ocorre a fecundação de um óvulo.

Ao longo da minha adolescência, nos anos seguintes, aprofundamos os temas. Falamos de sexo seguro, de preservativos. Aprendemos sobre os sintomas de ISTs. Falamos de ciclo reprodutivo e métodos anticoncepcionais. Falamos sobre ginecologia, urologia e acompanhamento médico para a saúde sexual.

Minha educação sexual na escola me ofereceu o básico do básico, e muitas vezes deixou a desejar. Não foi no banco da escola que aprendemos sobre orientação sexual, sobre identidade de gênero e transsexualidade. Quem sabe isso teria evitado que um dos meus melhores amigos, gay, sofresse uma tentativa de espancamento de colegas no segundo ano do ensino médio? Mal e mal falamos de masturbação, e jamais ouvi dizer que era normal que mulheres também fizessem. Talvez isso teria evitado a culpa terrível que eu senti quando comecei a me masturbar. Nunca tocamos no assunto de consentimento. Quem sabe isso poderia ter evitado muitos estupros e assédios sofridos pelas minhas amigas e colegas ao longo dos anos?

Quando a gente queria uma informação mais picante recorria à Internet, às revistas como a Capricho, ou às amigas mais experientes. As informações sobre orgasmo, sobre sexo oral, sobre fantasias sexuais, tudo isso era tabu. Mas o básico do básico, para conhecer o meu corpo, eu aprendi na escola.

Ensinar educação sexual é ensinar sobre saúde

Muito triste ter que dizer uma coisa tão óbvia, mas conhecer como nosso corpo funciona é uma questão de saúde. Como cuidar bem de nós mesmos, ou saber quando há algo de errado, é essencial para que possamos viver vidas mais saudáveis. Por isso também temos aulas sobre como funcionam todos os sistemas do nosso corpo. Precisamos conhecer o funcionamento do sistema digestivo, do nosso aparelho respiratório, do nossos sistema nervoso.

Por que seria diferente com o sistema reprodutor?

A educação sexual oferece informações essenciais para que os jovens possam navegar a sua sexualidade com consciência sobre infecções sexualmente transmissíveis, métodos anticoncepcionais, e sua saúde em geral.

Estamos em 2018. Não é possível que vamos achar que jovens não fazem sexo, ou que se negarmos este tipo de informação, adolescentes vão entrar em abstinência sexual. A descoberta da sexualidade é uma parte natural da vida, e o sexo só é perigoso quando é feito sem informação. Conversar com seus filhos é fundamental para que as escolhas quanto ao sexo sejam conscientes e não traumáticas.

Eu fui perder minha virgindade depois dos vinte anos, enquanto outros colegas o fizeram aos quinze. Recebemos a mesma educação sexual, e isso não influenciou na nossa inicialização.

O desmonte não vem de agora

A educação sexual, bem como o progresso educacional, vem sofrendo ataques sistemáticos há alguns anos, provenientes da ingerência religiosa que quer promover a ignorância a todo custo em nosso país. Porém estamos agora diante do ataque mais flagrante à educação sexual de qualidade no Brasil.

O projeto intitulado Escola Sem Partido, que vem ganhando força com o levante conservador/religioso que vivemos no Brasil atualmente, propõe eliminar a educação sexual do currículo de ciências biológicas dos ensinos fundamental e médio. A justificativa se baseia numa paranoia que estes ensinamentos serviriam para “moldar o juízo moral” dos jovens.

Eu de verdade queria muito saber quem em sã consciência acredita que o interesse dos adolescentes por sexo vem da escola e não o contrário. Não é de agora que os jovens procuram saber todo o tipo de informação sobre o tema assim que começam a sentir as primeiras pontadas da puberdade. Sexo é uma parte natural da condição humana, e uma parte importante do nosso amadurecimento.

Existe abundância de informação de todo tipo sobre o sexo na Internet. Não sei como dizer isso sem ser direta: É ingenuidade acreditar que adolescentes não vão se informar sobre sexo se a escola não oferecer mais educação sexual. Estaremos apenas negando a parte mais técnica e chata da informação – justamente a mais importante para a nossa saúde.

Este é o pior momento para fazer isso

Aprender sobre educação sexual na escola é aprender sobre o funcionamento do nosso corpo e nossa saúde, mas é também levantar pontos importantes sobre o sexo que podem deixar nossa sociedade mais justa e segura. Este é o pior momento para negar aos jovens informações tão preciosas, por vários motivos.

Estamos vivendo epidemias de DSTs, principalmente entre os casais heterossexuais

O Brasil está passando por um aumento perigoso nos casos de diversas infecções sexualmente transmissíveis, que podem ser prevenidas com o uso de preservativo. Ano passado, o país sofreu uma epidemia de sífilis, doença que há muitos anos estava praticamente erradicada. Ademais, o HIV vem se espalhando entre os jovens de uma maneira silenciosa. Os casos dobraram em menos de dez anos, e entre os grupos de risco, estão as mulheres heterossexuais em relacionamentos estáveis (vítimas muitas vezes da infidelidades de seus parceiros “cidadãos de bem” e “defensores da família”).

Falar sobre o uso de preservativos, sobre como as DSTs são transmitidas, quais suas causas e consequências, e como preveni-las, é parte fundamental do currículo de educação sexual e uma informação essencial para qualquer jovem antes que a vida sexual se inicie. Estamos vivendo um momento crítico em relação a infecções que podem ser fatais, e negar este tipo de informação com toda certeza agrava – e muito – o quadro.

Estamos matando nossos LGBTs

Quer uma estatística deprimente? O Brasil é o país que mais mata LGBTs no mundo – um a cada 19 horas. São cidadãos, jovens, velhos, que trabalham, sonham, dão duro todos os dias. Sou eu. São os meus amigos. São os LGBTs na periferia que sofrem ainda mais discriminação e violência.

Sim, precisamos abordar orientação sexual nas escolas, porque é uma questão de humanidade. O Brasil tem um problema crônico e gravíssimo de homofobia, cujas raízes estão calcadas na ignorância a respeito do tema. Não venha me falar de religião. Todas as religiões, inclusive a cristã, pregam tolerância e amor ao próximo. LGBTs existem, são vulneráveis e estão sendo vítimas de violência, todos os dias. A sua religião aprova isso? Aposto que não.

Não existe curso para aprender a ser gay, minha gente. Quem dera os treze anos do governo do PT tivessem tanto a pauta LGBT em mente quanto a direita conservadora gosta de alardear. Se estamos a mercê de uma agenda gay, porque ainda somos o país mais perigoso NO MUNDO para um homossexual viver? Só podemos parar esta violência educando sobre orientação sexual, e estimulando uma sociedade igualitária e tolerante (não estamos mais na idade das trevas, estamos em 2018, vamos começar a agir de acordo, por favor).

Educação sexual é uma ferramenta de proteção para mulheres e crianças

Além das informações básicas sobre DSTs, e doenças como câncer de mama e de colo de útero, a educação sexual é fundamental para as mulheres. Nada menos que cinco mulheres morrem por dia no nosso país por questões relacionadas à gravidez. Em 2014, os abortos clandestinos levaram 200.000 brasileiras aos hospitais por complicações decorridas do procedimento.

Não vou discutir descriminalizar aborto aqui, isso pode ser assunto para outro post. Minha questão é, se somos totalmente contra a interrupção da gravidez não desejada, precisamos oferecer às mulheres a informação e as ferramentas adequadas para que ela possa prevenir que isso aconteça – isso inclui acesso à meios contraceptivos. Anticoncepcionais, preservativos, pílula do dia seguinte.

Mais do que garantir o acesso das mulheres a estes recursos, é fundamental que elas saibam usá-los corretamente. Somente uma educação sexual de qualidade pode garantir que as brasileiras tenham as informações corretas para viver sua sexualidade de maneira plena e segura.

Ou vocês vão me dizer que acreditam que a partir de agora todo mundo só vai transar pra se reproduzir?

Sem contar o número alarmante de abusos e estupros de crianças e adolescentes no Brasil, cuja maioria ainda acontece dentro de casa. Crianças, em sua maioria mulheres, são vítimas dos abusos de pais e padrastos, como no horrorizante caso recente do homem que estuprou a filha sistematicamente por dois anos, como compensação pelos gastos que tinha com ela com coisas como roupa e alimentação. Aprender o que é sexo na escola e saber diferenciar o que pode ser feito do que é abuso pode ser o que salva uma criança de uma situação dessas.

De maneira geral, não podemos confiar apenas que os pais passem informações sobre educação sexual para os filhos, simplesmente porque por mais bem intencionados ou informados que sejam, educação sexual é principalmente conhecimento científico.

Informar detalhadamente sobre o funcionamento do corpo, sobre infecções sexualmente transmissíveis e métodos anticoncepcionais deve ser dever de quem tem o conhecimento especializado na área. Não esperamos que os pais ensinem aos seus filhos sobre números complexos, sobre como resolver uma equação de saponificação, ou o funcionamento do sistema nervoso. Este conhecimento pode ser complementado em casa, mas é primeiramente dever da escola.

Estamos na contramão do mundo

Dar passos para trás em relação a educação sexual nas escolas é fazer justamente o contrário do que o resto das nações está fazendo, principalmente as mais desenvolvidas. Na Alemanha, onde eu moro, a educação sexual é obrigatória nas escolas, e não engloba apenas os aspectos biológicos do funcionamento do corpo humano, mas também questões de identidade de gênero, sexualidade e relacionamentos.

Numa decisão histórica, a Escócia, país onde vivi por um breve período, acaba de aprovar uma lei que torna obrigatório o ensino sobre a população LGBT+ nas escolas. O novo currículo contará com aulas sobre homofobia e a história dos movimentos sociais LGBT, protegendo e acolhendo alunos da comunidade desde cedo.

A própria UNESCO recomenda a educação sexual como parte do currículo escolar como maneira de garantir que os jovens tenham uma vida sexual segura e responsável, já que as pesquisas apontam que mais informações garantem uma relação mais sadia com o sexo, e não o contrário.

Negar informação é uma forma de oprimir

Do ponto de vista ético, temos o dever enquanto sociedade de dar aos nosso jovens as ferramentas necessárias para que eles entrem na vida adulta capazes de cuidarem de si mesmos. Olhando para as estatísticas atuais, fica claro que omitir informações preciosas neste caso é uma forma de violência, já que estamos negando aos nossos conhecimento que interfere em saúde física e psicológica.

Falando em especial do caso das mulheres, para mim está muito claro que a nossa sexualidade é uma das ferramentas mais utilizadas para a prática da opressão. A liberdade e autonomia femininas começam a ser restringidas em relação nosso corpo desde que somos crianças – somos vigiadas e cerceadas em relação a nossa aparência, como nos vestimos e comportamos e se espalha por todos os aspectos de nossas vidas – nossa sexualidade é associada ao nosso caráter e pode impactar nossas escolhas profissionais, de relacionamento e na maternidade.

Para mim garantir mais liberdade para as mulheres passa necessariamente pela libertação sexual. Devolver para as mulheres sua autonomia sexual é um ato de empoderamento real, porque para além de podermos fazer o que quisermos, retiramos da mão do opressor uma das suas principais armas para nos controlar.

Basicamente, para exemplificar, numa sociedade em que o caráter de uma mulher não está associado ao que ela veste, uma saia curta não pode ser uma justificativa aceitável para um estupro. Numa sociedade em que a maternidade não é vista como punição à mulher pelo ato sexual, os pais precisam assumir seus deveres paternos com responsabilidade e diligência.

A quem serve este salto para trás?

Bom, se a educação sexual é uma fonte de saúde física e mental, a quem interessaria retirar este direito dos nossos jovens? Pessoalmente eu concordo com a ideia de que o que testemunhamos no Brasil hoje é um levante da masculinidade tóxica. Homens que cresceram acreditando que merecem glória e afeto por terem nascido homens e sentem ameaçados e cerceados com a possibilidade de mais igualdade, e querem reafirmar sua relevância dentro da sociedade resgatando valores antigos de uma época em que eles se sentiam mais respeitados e valorizados – mesmo que às custas da opressão de outrem.

No fim, os homens sempre gozaram de mais liberdade sexual e como consequência tiveram mais acesso à informação sobre o tema. Para um homem falar sobre sexo, masturbação, fantasias sexuais, é um sinal de virilidade. Meninos são encorajados a iniciarem a sua vida sexual cedo, e o sexo é considerado coisa de homem, algo que os meninos devem ouvir e falar sobre como uma parte do processo de amadurecimento.

Portanto fica claro que o retrocesso serve apenas para uma parte da população. Não estamos negando conhecimento a todos – estamos negando conhecimento principalmente a mulheres, crianças, e LGBTs. Com isso, quem continua ditando as regras da sexualidade no Brasil são os homens – e o sexo continua a servir como algo que existe apenas para satisfazê-los.

A parte mais cruel disso tudo é que estamos negando proteção básica e saúde a quem mais precisa. São justamente as mulheres, os homossexuais e transsexuais e as crianças os grupos mais vulneráveis e mais propensos a sofrer com abusos, doenças sexualmente transmissíveis e gestações indesejadas.

Para mim, usar religião para justificar um retrocesso dessas proporções, num país cuja população já sofre com as consequências de educação sexual inadequada, é imoral. Educação sexual só assusta quem tem a ganhar mantendo nossos jovens no escuro e em risco. E quem não depende somente da escola para se informar e se proteger.

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A história do strip-tease que não foi (e agora foi, pra todo mundo)

Para conseguir sentar e contar essa história, tive que esperar toda a raiva e a humilhação passarem. Eu não queria que fosse uma carta de ódio, porque afinal o que eu conseguir extrair de tudo isso tem muito mais a ver comigo do que com qualquer outra pessoa.

Já falei algumas vezes aqui no blog sobre como é complicado para mim viver a minha sexualidade de maneira aberta, e como foi um processo de autoaceitação, que muitas vezes implicou em julgamentos e me isolou das pessoas.

Eu sempre fui uma pessoa cheia de desejo e energia, sempre tive vontade de me expressar sexualmente de maneira plena, por ser uma faceta natural da minha personalidade, mas esse meu desejo sempre esbarrou em muitas coisas. Uma delas, a insegurança dos homens e mulheres com quem me relaciono (principalmente os homens).

Como já comentei anteriormente, a sexualidade feminina é vista como ameaça, e por conta disso, tem que ser sempre objeto do desejo de outros, mas nunca ideia das próprias mulheres. Como consequência disso, os homens costumam tratar o sexo como uma temporada de caça e abate, e portanto muitas vezes só conseguem gozar literal e figurativamente quando sentem que estão no controle da situação.

Eu sou prova viva desse mal. Sendo uma mulher extremamente aberta com a minha sexualidade, sempre tive que ficar pisando em ovos para proteger a frágil masculinidade dos meus parceiros na cama. Tudo que não é iniciativa deles os deixa morrendo de medo. Não pode assim, não pode assado. Falar uma putaria, colocar uma lingerie, querer experimentar um troço novo na cama – tudo é motivo para a noite ir por água abaixo. Eu ando cada vez mais convencida que os homens podem até achar que gostam muito de sexo, mas gostam mesmo é de colecionar conquistas.

O que me traz à história de agora: Para mim, nunca bastou viver minha sexualidade de maneira aberta sozinha. Eu sempre quis ter esse meu lado reconhecido, validado e compartilhado. De alguma forma, pra mim nunca bastou que esse lado meu existisse. Eu queria que ele existisse com alguém, que eu pudesse ser reconhecida na minha maneira de expressar causando desejo na minha intimidade.

Bom, pra resumir, não rolou.

Embora eu tenha tido uma vida sexual divertida e vibrante, todas as vezes que tentei experienciar isso de maneira mais exuberante, foi tudo um grande fiasco. Ocorre que eu fiz aulas de dança por alguns anos, sempre me interessei por performance burlesca e sempre tive uma fantasia louca de fazer um strip-tease para alguém especial. Nos meus últimos dois relacionamentos sérios, as tentativas foram muito frustradas. Na primeira, fui interrompida no meio da coreografia pelo meu ex namorado, que não era capaz de lidar com aquilo (palavras dele). Na segunda, o moço em questão com quem estava num relacionamento cortou logo a ideia pela raiz, quando em devaneei em dar de presente de aniversário uma strip-tease, com um taciturno “melhor não”.

Daí que isso me gerou uma enorme frustração, que eu achei que ia se resolver este ano quando eu conheci um argentino. Moreno, alto, bonito e sensual. Só que como nada é perfeito na vida, tinha um problema: Um oceano entre nós. Eu moro em Berlim, ele em Buenos Aires. Nos conhecemos quando ele estava aqui de passagem, vivemos um breve porém tórrido affair, antes de ele voltar para os confins do cone sul. Para a minha surpresa e deleite, continuamos a conversar mesmo assim.

Ele era um pouco hétero demais para o meu gosto, mas como estava cansada de dar murro em ponta de faca com esquerdomacho, resolvi dar uma chance para o destino, mesmo sabendo que relacionamento à distância só traz dor e sofrimento. Num dos nossos papos, falei da minha fantasia frustrada de fazer o tal strip-tease, e ele se interessou imediatamente, sinalizando com entusiasmo que ia adorar me ver tirar a roupa pra ele.

Pois bem, né, logo me animei. Prometi que se ainda estivéssemos nos falando no aniversário dele, faria um strip-tease de presente.

Dois meses depois, chegou o famigerado aniversário. A nossa relação já começava a dar sinais de desgaste por conta da distância, mas como missão dada é missão cumprida, resolvi fazer o tal strip, que pelo menos ele ia ter uma boa lembrança de mim.

No meu escasso tempo livre, montei uma coreografia. Fui até a casa do meu amigo, pedi para ele me ajudar com a luz. Me maquiei. Botei uma lingerie daora. Repeti a coreografia umas cinco vezes. Editei o vídeo. Montei o link. E mandei no dia do aniversário.

Aguardei a reação dele ansiosíssima. Sentia que finalmente estava realizando uma fantasia antiga, que estava me realizando naquele momento em poder me expressar de uma maneira que nunca tinha conseguido antes. Os dias se passaram e nada. Ele sumiu. Me fez um belíssimo ghosting, e suspeito que nunca tenha baixado nem assistido ao tal vídeo.

É engraçado como, de diferentes maneiras e em diferentes graus, esse tipo de coisa acaba se repetindo nas minhas interações e das minhas amigas com os homens héteros. Nós mulheres somos ensinadas e encorajadas a trabalhar pelas relações, a tentar consertar o que está quebrado, a darmos o nosso melhor sempre, enquanto os homens aprendem a receberem os frutos dos esforços da companheira, mas se retirarem da situação quando as coisas ficam minimamente difíceis.

Nem precisa dizer que isso cria uma dinâmica de relacionamentos heterossexuais esquizofrênicos, com expectativas conflitantes. Mas eu não estou aqui para falar sobre isso. Como disse no começo, esse texto é mais sobre mim.

No fim das contas, percebi que tinha feito aquilo por mim

Toda essa experiência foi incrivelmente frustrante porque eu senti que estava muito perto de mostrar um lado meu que é muito importante pra mim e ser reconhecida por ele, coisa que acabou não acontecendo. Fiquei inconformada de pensar que ele nem sequer se interessou em ver o vídeo; eu estava tão orgulhosa do meu trabalho. Gostei do resultado final, da luz, me vi naquela coreografia, vi uma nova versão de mim, que sempre existiu mas eu nunca tive como dar vazão. E eu queria que aquela Ana existisse, fora do cantinho da fantasia em que ela sempre esteve guardada.

Foi então que eu percebi que aquele vídeo não tinha nada a ver com aquele cara, nem com meu ex, nem com meu outro ex. Eu estava fazendo tudo errado. Eu queria procurar nos outros autorização para fazer uma coisa que tinha a ver comigo, com a minha expressão, e que não precisava de mais ninguém para existir.

O negócio é; muitas das minhas interações foram satisfatórias porque eu sempre tive medo e vergonha de ser assim tão libidinosa como eu sou. Aí eu tentei apresentar esse lado meu no privado, como se fosse um presente especial, esperando que isso pudesse amortecer o impacto nas minhas relações pessoais, e eu pudesse ganhar a autorização que queria para ser desse jeito. Só que eu percebi, graças a toda essa experiência, o quanto eu me diverti, o quanto eu me senti livre, minha e poderosa, fazendo algo que eu sempre tive vontade de fazer.

Então no fim das contas, por mais que o episódio todo tenha sido meio bosta, estou grata ao meu argentino por ter, como os outros, se acovardado diante de mim. Foi por causa disso que eu percebi que eu quero continuar fazendo strips por aí porque estou fazendo para satisfazer o meu tesão, e eu não preciso da validação de mais ninguém pra isso.

E se por causa disso eu afastar pessoas que eu gosto, paciência. Eu não posso continuar apresentando uma versão diet de mim na esperança de ser mais palatável (em outras palavras, não vou ficar mais diminuindo meu brilho para proteger o ego frágil de ninguém – especialmente dos homens).

Portanto, como você já pode imaginar, este texto só pode acabar com o famigerado vídeo. Que foi fruto de muita vergonha pra mim – vergonha de ser tão disponível, vergonha do esforço que coloquei nele pra nada, vergonha de me sentir tão plena ao me expressar e ser repelida por isso – mas que agora eu só tenho orgulho e vontade de mostrar para quem quiser assistir.

Bom proveito.

 

Caro homem pró-feminismo,

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e então, meu amigo que adora encher o peito e dizer que é pró-feminismo. Que vai na marcha das vadias, que posta textão no Facebook no dia oito de março, que diz que quer ouvir o nosso lado, que fala por horas de como os seus amigos são machistas, vangloriando-se de não ser igual, que ri complacente quando a gente diz que homem é uma merda.

Eu tenho uma notícia pra você.

Vai chegar uma hora, em algum ponto, que você vai receber uma crítica. Vai chegar uma hora que o machismo que você julga nos outros vai ser apontado em você. Vai chegar uma hora que você vai ouvir algo que não quer. Pode ser uma coisa boba, só um “aquele personagem que você adora em Star Wars é bem machista”. Pode ser que te avisem que você tem mania de interromper a fala das minas. Pode ser que te avisem que aquele comentário que você fez outro dia foi muito desnecessário. Pode ser que te cobrem continuar amigo daquele bróder que tem fama de assediador. Pode ser que te digam que a sua ex se sentiu sim pressionada a fazer aquele aborto.

E aí, meu amigo, o que você vai fazer?

Vai reagir na defensiva, vai negar de primeira, vai rechaçar argumentos? Ou vai parar para ouvir, vai refletir com calma, mesmo que isso signifique ter que aceitar que você não é todo esse cara legal, inatingível que você gosta de achar que é?

Olha só, não é que ninguém está dizendo que você é uma pessoa ruim. Nem que todos os seus esforços em ser nosso aliado vão ser anulados a partir de agora. Mas é o momento em que o feminismo toca nas suas feridas que te define. Ninguém disse que é fácil. Nenhuma mulher aprendeu sobre o feminismo sem se doer. Sem questionar as próprias atitudes. Sem ter que se rever inteira. Ir até o fim é um caminho sem volta; não dá pra fazer sem sacrifício pessoal. A desconstrução tem que ser diária, e às vezes ela é incômoda. E aí, o que me diz? Tá mesmo a fim?

É fácil enxergar os defeitos dos outros homens; separá-los de você e se sentir melhor do que eles. Mas isso nos ajuda muito pouco na luta. O que agrega de verdade é você querer ouvir, estar disposto a rever suas atitudes, a remexer do seu passado, a admitir os erros. Só isso vai ser capaz de te transformar num aliado real. Num homem que na próxima não vai nos diminuir, nos agredir, nos silenciar. O resto, me desculpe, é pura vaidade. Se você quer se unir à nós, saiba que algum dia o feminismo vai bater na sua porta. E você vai ter que decidir se você só quer se sentir especial, ou se quer ver que o machismo está em todos nós. Está em você. E pra poder se livrar dele de verdade, só vai ter um jeito; descobrindo até onde ele vai.

Vlog: Sendo brasileira na gringa

Saiu o primeiro Vlog em inglês no canal! Flertei por um tempo com essa ideia, mas foi só quando acontecimentos infelizes da vida real me deixaram de saco cheio de ser tratada como um brinquedinho sexual nas minhas andanças fora do país só por ser brasileira que eu achei que realmente faria sentido fazer esse vídeo.

O estereótipo de que a gente é sexy e selvagem não é só irritante, mas traz muitas situações de desconforto e perigo. O vídeo tem legendas em português, e espero que represente muitas mulheres por aí que sentem a mesma coisa.

 

Eu odeio ser mulher

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Fonte: VALENTIN CHENAILLE

 

Você me olha com essa cara de desdém.

Essa cara de quem nunca soube se colocar no lugar do outro, e me diz; “Você odeia tanto os homens, porque na verdade odeia ser mulher”.

Pois bem, então vou ser muito sincera. Você está certo. Eu odeio ser mulher.

Eu odeio ser mulher porque desde que nasci soube que minha aparência é muito mais valorizada do que minha capacidade.

Empatia.

Dedicação.

Eu odeio ser mulher porque eu choro sozinha à noite pensando em tudo que está imperfeito no meu corpo. Que não deveria ser assim. Que eu deveria me cuidar.

Mas eu também odeio ser mulher porque se eu te contar isso, você vai dizer que é frescura minha.

Eu odeio ser mulher porque envelhecer dói. Ninguém quer saber da sua sabedoria,da maturidade que os anos trazem.

Só das rugas. Da flacidez. Das manchas.

Eu odeio ser mulher porque eu fui diminuída e silenciada todas as vezes que eu tentei me fazer ouvir. Colocar pra fora minha opinião, meu riso, meu choro, minha criatividade.

Eu odeio ser mulher porque eu sei que pra tantas outras basta isso para se perder o direito à vida.

Eu odeio ser mulher porque só vão me respeitar se eu for mãe ou esposa de alguém.

Eu odeio ser mulher porque não me deixam decidir se eu quero ser mãe ou esposa de alguém.

Mas, principalmente, eu odeio ser mulher porque ser mulher é viver com medo.

É saber que a cada passo, o perigo anda à espreita.

É saber que nenhum lugar é seguro.

Eu odeio muito ser mulher quando eu lembro que todo o meu prazer em estar viva é acompanhado de uma ameaça.

Uma caminhada, um drink gelado numa noite morna, uma paixão, uma viagem, uma risada, um sorriso, um aceno.

Tudo pode ser uma sentença.

Eu odeio ser mulher porque estou sufocada entre agir com cortesia e saber que isso pode ser encarado como convite à violência, ao assédio, à coerção.

Eu odeio ser mulher porque todo o conhecimento do mundo não me protege. Eu ainda sou frágil e vulnerável, e posso morrer como todas as que morrem, todos os dias, por ser mulher.

Então, você tem toda razão. Eu odeio ser mulher.

Num mundo que odeia mulheres.

 

Vlog: Insegurança feminina e indústria da beleza

A gente se endivida, adoece, sofre pra perseguir um ideal de beleza inalcançável. E enquanto o produto de tanta pressão é apreciado por todos,quando a gente demonstra insegurança, somos chamadas de fúteis e fracas. O vlog de hoje é justamente sobre como lidar com a pressão pra ser bonita e a pressão para não sentir essa pressão.

Vulgar sem ser sexy

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Fonte: Pinterest

Acho que esse clichê sempre caiu muito bem para me definir. Minha relação com minha sexualidade sempre foi conflituosa e difícil – ao mesmo tempo que sempre foi parte importantíssima da minha identidade, lidar com isso nunca foi algo natural pra mim.

Fui criada num ambiente bem repressor sexualmente falando – uma família dominada por homens, extremamente machista. Uma escola dominada por preconceitos, extremamente religiosa. Durante toda a minha adolescência, eu fui uma menina magrela, desengonçada, esquisita. Sempre era a última a fazer tudo – a última a beijar, a última a transar – e ainda assim sempre tive de reputação de fácil ou de piranha, apesar de ter uma vida social inexistente – e de ter certeza de que ninguém nem ao menos se interessava por mim para ter a fama de fácil em primeiro lugar. Lembro de ouvir amigas ficando com carinhas cafajestes, que as enrolavam, as usavam, e enquanto elas choravam as pitangas, sentia uma pontada muito clara de inveja – eu não parecia ser boa o suficiente nem para ser usada.

Apesar de tudo, sentia que meu exterior de extrema timidez e introversão eram completamente incompatíveis com a pessoa que eu era por dentro. Eu sempre fui alguém com a libido extremamente alta – desde que descobri o que era sexo gasto a maior parte do meu tempo pensando a respeito. Minha imaginação fértil sempre compensou minha pouco vivência criando fantasias vívidas e sórdidas. Eu desejava ardementemente poder ser a pessoa que eu era – poder externalizar toda essa minha natureza sexual, conseguir colocar pra fora o que estava por dentro.

Como todas essas questões complicadas de personalidade que a gente tem, foi um processo. Foi no início da vida adulta, aos poucos, que fui começando a me sentir à vontade na minha própria pele para dar vazão à minha personalidade. As roupas, o comportamento, tudo que eu tinha para dizer. Fui tirando os meus filtros, um a um, e revelando toda essa vulgaridade que eu tinha por dentro.

Vejam bem,eu advogo vulgaridade. Talvez porque eu não tenho escolha, e acaba sendo uma autodefesa. Talvez porque  eu ache mesmo que as coisas que a gente faz sem refinamento, sem pensar demais, sem editar demais, são as mais sinceras. Sempre fui alguém de natureza muito intuitiva e é libertador para mim finalmente dar ouvidos aos desejos que urravam por dentro. Tenho bem claro na minha cabeça que não tem nada de errado em ser assim, porque eu simplesmente sou, é algo que vem tão naturalmente de dentro, que não tem razão de não ser.

Porém, nem sempre é fácil. Para ter coragem de ser que eu sou, pago o preço nas minhas interações sociais. Eu consigo sentir as pessoas ficando desconfortáveis ao meu redor – quando eu falo palavrão demais, quando eu sou muito gráfica em descrever minhas putarias, quando eu me abro demais rápido demais. Nessas horas, eu fico pensando que eu queria muito mesmo conseguir ser uma pessoa reservada e discreta. Que tudo na minha vida seria mais fácil se eu não tivesse essa personalidade hiperbólica e dionisíaca.

Na minha vida amorosa, isso se multiplica. Para começar com o óbvio, digamos que #piranhastambémamam. O fato de eu ser uma pessoa sexualmente libertina, ficar com muita gente, ser aberta à experimentar, não significa que eu não me envolva, ou queira apenas sexo. Enfim, é óbvio, mas parece que não pra todo mundo. Me frustrei muitas vezes sentindo o julgamento de pessoas por quem estava apaixonada. Por muitas vezes fui trocada por um tipo tão específico de mulher que isso me criou um complexo.

Sabe aquelas meninas, discretas, dignas, reservadas, com um comportamento quase blasé, que sempre parecem estar acima de tudo isso? Elas se divertem, bebem, mas sem dar PT. Elas sabem rir de uma piada, mas não alto demais. E principalmente, elas são capazes de amar, mas sem exageros. Elas estão sempre nos cantos, cercadas por uma aura de ~mistério. Logo eu, que sempre me faltou indiferença ao que quer que seja, fui me interessar por gente que gosta deste tipo. Nem preciso falar que não tenho chances.

Nessas horas fica difícil continuar no meu propósito de seguir firme sendo a pessoa que eu sou, apesar dos pesares. Lembro de uma briga horrível que tive com um carinha por quem estava apaixonada. Ele me olhou bem no olho e disse:

– Você é uma ridícula, fica falando um monte de putaria e todo mundo está rindo da sua cara e você nem percebe.

Ele basicamente enfiou a botina em uma das minhas maiores inseguraças. Essas palavras me machuram muito, porque tocaram num dos meus maiores medos: De ser ridícula, por ser como eu sou, assim, vulgar, exagerada, extratosfericamente libidinosa.

Estou apredendo a fazer as pazes com a minha natureza vulgar sem ser sexy, simplesmente porque fingir que eu sou outra pessoa é exaustivo. Aprendendo que eu não posso oferecer para as pessoas o que elas gostariam que eu fosse – essa versão mais light de mim. Apenas o que eu sou. E também que se tem gente que vai me reduzir a isso, paciência. Quem é importante para mim sabe que eu sou sim essa pilha de energia sexual – mas também muito mais do que isso.

Por fim, talvez eu seja sim ridícula, e seja incapaz de não continuar agindo de maneira ridícula. Vou continuar usando roupas estupidamente curtas para a minha idade, ficando com todo mundo que der vontade, falando – e escrevendo! – todas as barbaridades que passam pela minha cabeça. Pelo menos hoje em dia eu consigo dizer que sou muito mais quem eu sempre quis ser – e por enquanto está bom.