Neste 8 de Março de tempos sombrios, de onde tirar esperança para continuar lutando?

 

Este vídeo foi publicado em 2014 no vlog de um amigo muito, muito querido. De lá pra cá, bastante coisa mudou. Então vim aqui fazer justamente o que propus no vídeo: Refletir sobre o movimento de igualdade de gêneros nos últimos anos.

Sinceramente, está difícil falar com otimismo e esperança. Só nesta semana, muitas notícias mostram que a vida das mulheres continua sempre sob ameaça, continua sempre valendo muito pouco. Bruno Fernandes de Souza, ex-goleiro do Flamengo, julgado e condenado pelo assassinato da mãe de seu filho num crime que chocou o país, conseguiu Habeas Corpus e já recebeu propostas de nove clubes brasileiros. O ator Casey Affleck, acusado de assédio, foi premiado com o Oscar, a maior honra que se pode receber em sua profissão, provando que reputação não conta quando se é homem. E duas crianças, de seis e dez anos, foram assassinadas pelo próprio pai a facadas, que queria se vingar da mãe pelo término do relacionamento.

Não está fácil.

No últimos anos, o feminismo alcançou uma projeção midiática sem precedentes. Artistas de grande renome e projeção começaram a falar sobre o assunto. Vimos Beyoncé no palco do VMA na frente de um grande leitreiro onde se lia “feminista”. Vimos Katy Perry se juntando à marcha das mulheres. Vimos muitas atrizes, cantoras, pessoas de destaque se assumindo como feministas. E por mais catártico que seja ver a nossa causa ganhando reconhecimento (e acreditem, eu sei que é), isso não nos protegeu. O Brasil é  o quinto país que mais mata mulheres no mundo, e vimos um aumento de 54% no assassinato de mulheres negras em 2015. Num ranking de 144 países, somos o 79 em igualdade salarial. As mulheres negras chegam a ganhar inacreditáveis 40% que os homens brancos na mesma função. As jornadas duplas e triplas continuam sendo realidades. A luta pela discriminalização do aborto avançou muito pouco. Pela primeira vez desde a ditadura, não temos nenhuma mulher no quadro de ministros.

Acho que tudo isso mostra que o feminismo precisa se alinhar com uma mobilização mais ampla. Em vez de nos unirmos pelo que nos diferencia, precisamos nos unir pelo que nos aproxima. Precisamos nos unir em torno de um ideal comum, reconhecer as opressões que nós todas sofremos, darmos plataformas às mulheres que têm ainda mais direitos extirpados. Dar voz às mulheres trans, negras, periféricas, lésbicas, bissexuais. Dar voz às mães solteiras, às portadoras de deficiência, às marginalizadas. Ficou claro que adianta muito pouco colocar um rosto no feminismo. Ele precisa ser a luta de todas nós.

Neste dia oito de março, infelizmente, precisamos chorar. Precisamos sentir a dor das 530.000 mulheres estupradas por ano no Brasil. Precisamos chorar a perda das mulheres assassinadas em 2016. Precisamos estar de luto, mas precisamos seguir lutando. O machismo continua matando. Nós continuamos morrendo. Por isso, mais do que nunca, o ativismo precisa ser real, precisa ser mais do que só virtual, precisa se estender para fora de nossas bolhas. Neste oito de março, em vez de perguntar o que o feminismo pode fazer por você, pergunte o que você pode fazer pelo feminismo.

Infelizmente, estamos engatinhando. Não conseguimos nem garantir uma vida sem violência para as mulheres. Não conseguimos nem garantir igualdade salarial para nossas filhas. Mas amanhã é um novo dia. E vamos precisar lutar de novo, e de novo, e de novo. Não só por mim, não só por você. Mas por todas nós.

A importância de dizer “eu quero”

 

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Esses dias eu estava revendo a minha comédia romântica preferida, chamad “Qual é o seu número?”. Resumindo a história, a personagem da Anna Faris decide que não quer transar com mais ninguém novo, e que vai achar o amor de sua vida dentre os caras com quem já transou. Ela contrata o seu vizinho gatinho (Chris Evans) para ajudá-la nessa missão, mas os dois começam a se envolver, e lá pelas tantas, ele a confronta sobre a sua missão mirabolante, perguntando os porquês, dizendo que não tem sentido, até que ela explode e diz: É o que eu quero!

Essa cena me impacta bastante porque eu acho que vi poucas vezes personagens femininas dizerem tão explicitamente que querem alguma coisa, porque querem e fim, sem dar maiores justificativas. Pensando bem, eu não vejo essa cena na vida real muitas vezes, e também não costumo responder para as pessoas que algo “é o que eu quero” como ponto final.

Nós mulheres somos muitas vezes condicionadas a priorizar os outros nas nossas decisões. Fazer escolha em prol dos filhos, dos companheiros, da família, do chefe, etc. Nós somos ensinadas, desde pequenas, a abrir mão dos nossos desejos. Quando as mulheres colocam suas próprias vontades como prioridade, são tachadas de egoístas.

E exatamente para evitar esse tipo de julgamento é que nós inventamos artifícios para justificar nossos desejos, para os outros e para nós mesmas. Não estamos acostumadas a querer simplesmente, porque isso basta para que sejamos capazes de tomar uma decisão. Nós somos treinadas a desejar de maneira condicional, apresentando uma série de argumentos que deem suporte àquele desejo.

Não escutamos “não quero ter filhos”. É sempre “não quero ter filhos, porque minha rotina não comporta crianças”. Não escutamos “eu quero comprar este sapato”. E sim “eu quero comprar esse sapato, porque estava tão baratinho na promoção, e combina com tudo”. Não é de bom tom dizer “eu quero transar com ele”, mas se você ameniza com “eu quero transar com ele, porque ele é um cara muito legal”, até que vai.

Querer as coisas simplesmente porque a gente quer pode ser libertador. No fim das contas, somos nós que vamos ter que conviver diariamente com as consequências das nossas decisões, não as outras pessoas. Seguir os nossos desejos deveria ser natural, e não requerer uma série de malabarismos e desculpas  para não sermos vistas como – e nem nos sentirmos – egoístas.

Estou tentando fazer um exercício de justificar menos os meus desejos, e assumi-los mais. Acho que isso é importante porque eu treino que eu posso querer por mim mesma, sem ter que me justificar. E também dizer isso para as pessoas também deixa os limites mais claros para a interferência delas. Não estou dando motivos com os quais a pessoa pode argumentar; estou expressando o meu desejo e só.

Muitas vezes eu sinto que a nossa autonomia nos é tirada quando se é mulher. Se apoderar das decisões das nossas vidas está nas pequenas e nas grandes coisas, porque é só seguindo o que a gente realmente quer, é que a gente consegue ser mais feliz.

 

Oração pelas meninas

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Que não sejamos donas dos nossos corpos
Que não sejamos donas da nossa voz
Que sejamos eternamente portadoras do pecado original
Que nunca nos falte quem nos diga o que podemos fazer

Deus nos perdoe
Por nossa ousada existência
Por nossa indolente desobediência
Por nossas vidas enfim
Pequenas, tímidas, espremidas

Que sejamos capazes de esquecer dos nossos desejos
Das nossas vontades
E que saibamos muito bem do nosso lugar
E do be-a-bá que nos entra pelo cu

Que nasçamos e cresçamos lindas
Com quadris largos para o bom parir
E ouvidos surdos para o aleijado ouvir
E que se por acidente colocarmos mais uma de nós no mundo
Que ela ande calada
Que aceite ser castrada
Que não reclame quando tiver a alma estuprada
Diversas vezes pela vida
Que seja dócil ao toque
E fiel ao amor

Que seja então menina moça mulher e velha
Sem levantar a voz nenhuma vez
Para que possa garantir que, quem sabe
Consiga morrer de morte morrida
Serpenteando, escorregadia
De lá pra cá
Para fugir do perigo
De ser quem é

Nunca santa o suficiente
Jamais puta o bastante
Se burra demais já não tem valor
Mas que também não se atreva ser opinante

Que consigamos cumprir
Uma vida decente sem que ninguém descubra
As falhas e os ímpetos por dentro
Que são sentença de morte
Em qualquer parte em nos encontremos

E assim, nosso senhor, nos guie
Desde o momento em que nascemos
Deus, tem piedade de nós.