Vlog: Brasileiros machistas na Rússia e desculpas que não servem para nada

Depois do escândalo envolvendo torcedores brasileiros na copa e uma mulher russa, um deles tentou se justificar, mas a emenda saiu pior do que o soneto. As desculpas foram tão ofensivas que eu me senti na obrigação de vir aqui comentar.

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Eu odeio ser mulher

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Fonte: VALENTIN CHENAILLE

 

Você me olha com essa cara de desdém.

Essa cara de quem nunca soube se colocar no lugar do outro, e me diz; “Você odeia tanto os homens, porque na verdade odeia ser mulher”.

Pois bem, então vou ser muito sincera. Você está certo. Eu odeio ser mulher.

Eu odeio ser mulher porque desde que nasci soube que minha aparência é muito mais valorizada do que minha capacidade.

Empatia.

Dedicação.

Eu odeio ser mulher porque eu choro sozinha à noite pensando em tudo que está imperfeito no meu corpo. Que não deveria ser assim. Que eu deveria me cuidar.

Mas eu também odeio ser mulher porque se eu te contar isso, você vai dizer que é frescura minha.

Eu odeio ser mulher porque envelhecer dói. Ninguém quer saber da sua sabedoria,da maturidade que os anos trazem.

Só das rugas. Da flacidez. Das manchas.

Eu odeio ser mulher porque eu fui diminuída e silenciada todas as vezes que eu tentei me fazer ouvir. Colocar pra fora minha opinião, meu riso, meu choro, minha criatividade.

Eu odeio ser mulher porque eu sei que pra tantas outras basta isso para se perder o direito à vida.

Eu odeio ser mulher porque só vão me respeitar se eu for mãe ou esposa de alguém.

Eu odeio ser mulher porque não me deixam decidir se eu quero ser mãe ou esposa de alguém.

Mas, principalmente, eu odeio ser mulher porque ser mulher é viver com medo.

É saber que a cada passo, o perigo anda à espreita.

É saber que nenhum lugar é seguro.

Eu odeio muito ser mulher quando eu lembro que todo o meu prazer em estar viva é acompanhado de uma ameaça.

Uma caminhada, um drink gelado numa noite morna, uma paixão, uma viagem, uma risada, um sorriso, um aceno.

Tudo pode ser uma sentença.

Eu odeio ser mulher porque estou sufocada entre agir com cortesia e saber que isso pode ser encarado como convite à violência, ao assédio, à coerção.

Eu odeio ser mulher porque todo o conhecimento do mundo não me protege. Eu ainda sou frágil e vulnerável, e posso morrer como todas as que morrem, todos os dias, por ser mulher.

Então, você tem toda razão. Eu odeio ser mulher.

Num mundo que odeia mulheres.

 

8 De Março

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Texto postado em 8 de Março do ano passado. Continua bem atual.

 

No dia 8 de março de 2003 eu estava na sétima série e estudava em uma escola católica. Todas as manhãs, antes do início das aulas, nos reuníamos no pátio para rezar uma Ave-Maria e um Pai-Nosso. Naquele dia, depois da oração comandada pela diretora da escola, ela disse que aquele era um dia especial porque era o dia da mulher. E por causa disso, os meninos deveriam passar o dia sendo “gentis” com as meninas, começando por levar as mochilas delas para as salas de aula, puxando a cadeira para elas sentarem, etc.
Ela não mencionou que aquele dia havia sido institucionalizado como dia internacional da mulher porque 130 mulheres foram trancadas e queimadas dentro de uma fábrica nos Estados Unidos em 1857. Não mencionou que elas estavam em greve porque queriam equiparação de salário com os homens, tratamento digno no trabalho e redução da carga horária. A diretora não nos contou que aquele dia simbolizava uma luta de anos por igualdade e emancipação. Não. Ela apenas mandou que os meninos levassem nossas mochilas para a sala.
Eu estava numa escola. Num ambiente que deveria me preparar para me tornar uma cidadã consciente. O que eu aprendi lá sobre o dia internacional da mulher é que somos tão delicadas e frágeis, que não deveríamos nem carregar nossas próprias mochilas. Que a data existe para celebrar nossa fragilidade e doçura. Não vou entrar aqui nos méritos dos métodos pedagógicos dessa minha escola. Acredito, porém que se nem na escola temos acesso a esse tipo de conhecimento e informação, fica mesmo difícil sermos cidadãos conscientes.
Deve ser por isso que esse tipo de concepção em relação ao dia 8 de Março seja tão comum. É só dar um google aí: “Lembrancinhas para o dia da mulher” e você vai ver uma enxurrada de cartõezinhos com desenhos de rosas nos parabenizando por sermos “fortes e fracas”, “divinas”, “sensíveis” e claro “lindas”. Quer dizer. O dia 8 de Março que deveria ser um dia de tristeza, de rememoração desse passado sombrio, um dia de refletir sobre o papel da mulher e o avanço da nossa luta, tornou-se uma data “romântica”. Outro dia, num site de compras coletivas, me foi sugerido ir celebrar o dia da mulher comendo um fondue. É como celebrar o dia da consciência negra sem mencionar escravidão.
Eu não tenho nada contra romantismo. E nem quero discutir esse famigerado estereótipo de que somos lindas e doces e essa porra toda. Meu ponto é: O dia 8 não é pra isso! Ele não existe por isso! Ele existe para nos mobilizarmos, construirmos uma sororidade, refletirmos sobre o que mudou e o que não mudou desde o triste episódio de 1857.
Eu não quero acreditar que preciso que um menino carregue minha mochila. Não quero acreditar que preciso de privilégios e lembrancinhas “no meu dia”. Não quero flores, não quero romantismo, não quero fondue. Quero salários iguais, quero respeito à minha sexualidade, quero o mesmo tratamento ao ser contratada numa empresa, quero poder dividir tarefas domésticas e criação dos filhos IGUALMENTE com xs meus parceirxs. 
Enfim, meninas (e meninos também). Nesse dia, vamos parar para pensar em todas as conquistas e todas as derrotas que tivemos nos últimos anos. Vamos para relembrar os massacres que sofremos. Vamos agradecer às mulheres que morreram, que passaram fome, que lutaram para que pudéssemos votar, trabalhar e expressarmos nossa opinião. E vamos discutir sobre tudo aquilo que ainda nos oprime para irmos em direção à liberdade.
Nesse dia 8 de Março, vamos exigir o que realmente é importante: Respeito.