Imergente

O meu Março foi um pedido da alma que ecoou em todos os cantos do universo e voltou pra mim com gosto de sal e cheiro de mar. Justamente quando eu mais precisava, foi trazer um pouquinho de magia de volta para a minha vida, iluminando os cantinhos com a luz sincera dos vagalumes. Nos seus braços, eu encontrei dentro de mim um quartinho fechado cheio de paz interior, transbordando até a tampa, a calma das incertezas, da confiança no acaso, de viver a vida com leveza e sem culpa. Foram horas de devaneio olhando o mar – as ideias, o mundo, as viagens, a vida, o desejo por dentro. O desejo por fora, que se chocou em beijos trôpegos, cheios de areia, cheios de paixão, a pele castigada pelo sol encontrando bálsamo em banhos de mar noturnos. Eu mergulhei no mar, mergulhei em mim, mergulhei nele. Da areia até o céu claro de estrelas, houve um sem fim de desejos entre dois vagabundos que a fórmula do acaso uniu, abençoados por Iemanjá e a lua dos amantes.

Imperativo

O meu Maio foi uma primavera inteira dentro do outono – porque eu fiz assim, porque eu fui buscar sol, e confete, e o que mais me estivesse faltando, onde tinha. Falava baixo e devagar, sorriso tímido e um daqueles buracos negros no peito, cheio de escuridão e mistério, nos quais eu adoro me enfiar. Com cheiro de noite e o mar dos trópicos nos olhos, foi me hipnotizando. Em noites transbordando de álcool e inconsequência, quando as risadas eram mais altas e as decisões mais fáceis e eu estava longe demais para qualquer coisa da minha existência fazer algum sentido. Meu Maio foi uma ilha paradisíaca, distante, no meio do nada, em que eu fui parar com meu barquinho à esmo e não podia ter sido porto melhor. Derrapei nas palavras doces e planos de ver o mundo, tanta vida entre nós dois que daria até pra ressuscitar gente morta. Nos braços dele fui muito da mulher que eu sempre quis ser, me deixei levar pelo jeito opressivo, doído, sufocante de me devorar. Eu o quis, dos dedos pés até o último fio de cabelo. Nós descemos nos lugares mais profundos e incontroláveis da existência humana, trôpegos de vodca barata, juventude e desejo. Maio existiu pra mim e só pra mim, mas faz parte de um universo brilha com o dobro da força e eu roubei dele um pouquinho desse brilho pra dentro de mim.