A Playboy e a libertação sexual que não serve à mulher

2164.jpg
Hugh Hefner e a coelhinha Bonnie J Halpin – Fonte

A morte de Hugh Hefner, fundador da Playboy, no mês passado, reacendeu a polêmica que acompanha a revista desde o seu nascimento. Novamente, Hugh foi acusado de machismo, misginia, assédio, e de usar a sexualidade das mulheres para lucro próprio. Diante disso, muitos saíram em sua defesa, alegando que a Playboy fez sim, muito pela libertação sexual e inclusive contribuíu diretamente com causas consideradas feministas, apoiando financeiramente fundações pró-aborto no Estados Unidos.

A Playboy fez parte da minha vida desde quando eu era criança. Nunca vou esquecer do outdoor com a Tiazinha mascarada, coberta apenas por um boá preto e o texto que dizia, “olá, sobrinhos”. No início da adolescência, no fuzuê da descoberta da minha bissexualidade, baixei muitos ensaios e acho que alguns deles são de grande refinamento estético – principalmente os da Playboy Brasil, a americana sempre foi meio farofada mesmo.

Até então, sabia muito pouco sobre a história da revista e sobre o seu fundador, mas isso mudou quando eu comecei a assistir Girls of The Playboy Mansion, no E! O reality mostrava a rotina de Hefner e suas três (principais) namoradas, Holly, Bridget e Kendra. O programa era muito divertido, e mostrava uma vida ótima; as três meninas pareciam se dar bem e adorar a vida que levavam, a atmosfera de glamour e poligamia amigável transparecia muito natural. Hefner era um coadjuvante na série – sem dúvida as três namoradas brilhavam mais – mas quando ele aparecia, até dava para ententer porque jovens atraentes iam querer se relacionar com um senhor de mais de oitenta anos.

Hefner demonstrava ser uma simpatia; carismático, carinhoso, divertido, inteligente. Suas aparições e depoimentos pontuais no reality pintavam a imagem de um homem respeitoso e bem-intencionado. Era fácil esquecer que existia uma relação de poder enorme entre Hefner e suas namoradas, talvez por um desejo natural que a gente tem de que o mundo seja mais simples às vezes.

Claro, as coisas não eram bem assim.

Desde o início da Playboy, Hefner se apresentou para o público com uma imagem de glamour, sofisticação e libertação sexual. E desde o começo também usou métodos pouco ortodoxos para alcançar o sucesso. O primeiro ensaio da revista foi com fotos de Marilyn Monroe – feitas antes da fama, e compradas por 500 dólares. A marca Playboy se fez às custas da sexualização da mulher, especialmente de tirá-la de seu domínio.

Quando Kim Kardashian foi convidada para posar para a revista, no início da sua carreira, ela aceitou desde que as fotos não revelassem nudez total. Um approach estranho para uma revista de nudez, talvez. Mas esses eram os termos. A sessão de fotos foi veiculada no reality de Kim, o Keeping Up With The Kardashians, e ela foi pressionada a tirar cada vez mais peças de roupa até sua mãe e agente ter que intervir.

Na minha opinião, essa cena é emblemática do quanto a Playboy se utiliza de suas modelos como produtos – sob o verniz da libertação sexual.

Sem moralismo. Putaria é comigo mesmo, vocês sabem. E acho que ensaios sensuais podem sim ser empoderadores. O problema, como eu já falei antes, é que a objetificação da mulher acontece quando a sua sexualidade é tirada do seu domínio para servir ao outro – para o olhar masculino, ou para vender algo. A Playboy se utiliza dela para os dois – a libertação sexual que ela vende não é para satisfazer a fantasia das mulheres que estão posando – é cuidadosamente customizada para atender ao imaginário masculino.

Alguns anos após a estreia de Girls of The Playboy Mansion as três namoradas originais saíram da mansão – e terminaram seu relacionamento com Hugh Hefner. Foi então que Holly Madison, a namorada “número um”, públicou uma autobiografia contando das suas experiências na Playboy. Longe de ser um conto de fadas, a vida de Holly na mansão foi um episódio traumático. Ela relata em detalhes como Hefner mantinha as coelhinhas em regime rígido, incluindo toque de recolher, e pouco dinheiro. O ambiente da mansão era tóxico, com muitas drogas, e Hefner instigando a competição entre as meninas para se sentir mais poderoso.

Infelizmente, nada disso surpreende muito. Muitos são os homens que usam de um discurso de empoderamento feminino para conseguir poder, sexo, ou os dois. Hefner fez pouco caso das críticas que a Playboy recebeu ao longo dos anos, defendendo que a revista  contribuiu para a libertação sexual nos Estados Unidos e no mundo. O que pode até ser verdade, mas a libertação sexual de quem? Fica claro que nesse jogo, as mulheres foram apenas peças para o lucro e a exploração masculinas.

O problema não é tirar a roupa, o problema não é falar de sexo. O problema é reservar a seção de fotos sensuais apenas para as mulheres, e a seção de entrevistas revolucionárias apenas para os homens. O problema é vender o tesão e as fantasias femininas como existentes única e exclusivamente para atender aos homens.

Fica claro que a Playboy é um reflexo de como o  próprio Hefner viveu sua vida: Com libertinagem e glamour, mas dispensando tratamento sub-humano às mulheres fizeram a revista – e o seu pai – serem um sucesso.

Anúncios

Vlog: Masturbação feminina

Uma descoberta que deveria ser natural, acaba sendo uma fonte de culpa para muitas meninas. Por que punheta é normal e siririca é tabu? O vlog de hoje é sobre como essa repressão nada mais é do que mais uma maneira de objetificar a sexualidade feminina, e o antídoto para isso.

Vulgar sem ser sexy

d104258a3400c9ffc90be8779ffcd475.jpg
Fonte: Pinterest

Acho que esse clichê sempre caiu muito bem para me definir. Minha relação com minha sexualidade sempre foi conflituosa e difícil – ao mesmo tempo que sempre foi parte importantíssima da minha identidade, lidar com isso nunca foi algo natural pra mim.

Fui criada num ambiente bem repressor sexualmente falando – uma família dominada por homens, extremamente machista. Uma escola dominada por preconceitos, extremamente religiosa. Durante toda a minha adolescência, eu fui uma menina magrela, desengonçada, esquisita. Sempre era a última a fazer tudo – a última a beijar, a última a transar – e ainda assim sempre tive de reputação de fácil ou de piranha, apesar de ter uma vida social inexistente – e de ter certeza de que ninguém nem ao menos se interessava por mim para ter a fama de fácil em primeiro lugar. Lembro de ouvir amigas ficando com carinhas cafajestes, que as enrolavam, as usavam, e enquanto elas choravam as pitangas, sentia uma pontada muito clara de inveja – eu não parecia ser boa o suficiente nem para ser usada.

Apesar de tudo, sentia que meu exterior de extrema timidez e introversão eram completamente incompatíveis com a pessoa que eu era por dentro. Eu sempre fui alguém com a libido extremamente alta – desde que descobri o que era sexo gasto a maior parte do meu tempo pensando a respeito. Minha imaginação fértil sempre compensou minha pouco vivência criando fantasias vívidas e sórdidas. Eu desejava ardementemente poder ser a pessoa que eu era – poder externalizar toda essa minha natureza sexual, conseguir colocar pra fora o que estava por dentro.

Como todas essas questões complicadas de personalidade que a gente tem, foi um processo. Foi no início da vida adulta, aos poucos, que fui começando a me sentir à vontade na minha própria pele para dar vazão à minha personalidade. As roupas, o comportamento, tudo que eu tinha para dizer. Fui tirando os meus filtros, um a um, e revelando toda essa vulgaridade que eu tinha por dentro.

Vejam bem,eu advogo vulgaridade. Talvez porque eu não tenho escolha, e acaba sendo uma autodefesa. Talvez porque  eu ache mesmo que as coisas que a gente faz sem refinamento, sem pensar demais, sem editar demais, são as mais sinceras. Sempre fui alguém de natureza muito intuitiva e é libertador para mim finalmente dar ouvidos aos desejos que urravam por dentro. Tenho bem claro na minha cabeça que não tem nada de errado em ser assim, porque eu simplesmente sou, é algo que vem tão naturalmente de dentro, que não tem razão de não ser.

Porém, nem sempre é fácil. Para ter coragem de ser que eu sou, pago o preço nas minhas interações sociais. Eu consigo sentir as pessoas ficando desconfortáveis ao meu redor – quando eu falo palavrão demais, quando eu sou muito gráfica em descrever minhas putarias, quando eu me abro demais rápido demais. Nessas horas, eu fico pensando que eu queria muito mesmo conseguir ser uma pessoa reservada e discreta. Que tudo na minha vida seria mais fácil se eu não tivesse essa personalidade hiperbólica e dionisíaca.

Na minha vida amorosa, isso se multiplica. Para começar com o óbvio, digamos que #piranhastambémamam. O fato de eu ser uma pessoa sexualmente libertina, ficar com muita gente, ser aberta à experimentar, não significa que eu não me envolva, ou queira apenas sexo. Enfim, é óbvio, mas parece que não pra todo mundo. Me frustrei muitas vezes sentindo o julgamento de pessoas por quem estava apaixonada. Por muitas vezes fui trocada por um tipo tão específico de mulher que isso me criou um complexo.

Sabe aquelas meninas, discretas, dignas, reservadas, com um comportamento quase blasé, que sempre parecem estar acima de tudo isso? Elas se divertem, bebem, mas sem dar PT. Elas sabem rir de uma piada, mas não alto demais. E principalmente, elas são capazes de amar, mas sem exageros. Elas estão sempre nos cantos, cercadas por uma aura de ~mistério. Logo eu, que sempre me faltou indiferença ao que quer que seja, fui me interessar por gente que gosta deste tipo. Nem preciso falar que não tenho chances.

Nessas horas fica difícil continuar no meu propósito de seguir firme sendo a pessoa que eu sou, apesar dos pesares. Lembro de uma briga horrível que tive com um carinha por quem estava apaixonada. Ele me olhou bem no olho e disse:

– Você é uma ridícula, fica falando um monte de putaria e todo mundo está rindo da sua cara e você nem percebe.

Ele basicamente enfiou a botina em uma das minhas maiores inseguraças. Essas palavras me machuram muito, porque tocaram num dos meus maiores medos: De ser ridícula, por ser como eu sou, assim, vulgar, exagerada, extratosfericamente libidinosa.

Estou apredendo a fazer as pazes com a minha natureza vulgar sem ser sexy, simplesmente porque fingir que eu sou outra pessoa é exaustivo. Aprendendo que eu não posso oferecer para as pessoas o que elas gostariam que eu fosse – essa versão mais light de mim. Apenas o que eu sou. E também que se tem gente que vai me reduzir a isso, paciência. Quem é importante para mim sabe que eu sou sim essa pilha de energia sexual – mas também muito mais do que isso.

Por fim, talvez eu seja sim ridícula, e seja incapaz de não continuar agindo de maneira ridícula. Vou continuar usando roupas estupidamente curtas para a minha idade, ficando com todo mundo que der vontade, falando – e escrevendo! – todas as barbaridades que passam pela minha cabeça. Pelo menos hoje em dia eu consigo dizer que sou muito mais quem eu sempre quis ser – e por enquanto está bom.