Vlog: Em defesa dos corações partidos

Nessa semana de dia dos namorados, o tema do vlog é amorrrr. Na verdade, a falta dele. Por que sofrer por amor é considerada a maior humilhação que um serumano pode passar? Porque todo mundo espera que a gente não esteja nem aí para a pessoa que a gente estava namorando até ontem? Em defesa dos corações partidos e do nosso direito de sofrer pelos pés na bunda.

Entre o sempre e o nunca

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Quase chorei no meio da aula quando cheguei naquela parte do livro que você me recomendou em que o Elio deixa o tal bilhete para a sua paixão, o Oliver, dentro de um livro. Zwischen Immer und Nie. Você me falou isso, e eu não tinha entendido. Achei que era só uma frase em alemão. Só fui entender quando cheguei nessa cena filha da puta. Meu coração deu um nó.

Mas foda mesmo foi quando eu cheguei na parte em que o Elio visita o Oliver em Nova York, muito anos depois do romance de verão deles. Lembra? O Oliver está casado, tem filhos. O Elio não. Fiquei me perguntando se vai ser assim com a gente. Minha imaginação excessivamente fértil logo pintou um cenário pronto. É tão fácil para mim imaginar todos os detalhes.

Consigo enxergar direitinho, você vivendo numa cidade do interior, numa casa térrea, com uma decoração em cores quentes, pendendo para o laranja, totalmente descoordenada e genérica do jeito que você sabe que eu detesto. Você não liga para isso, nem a sua companheira. Ela tem um jeitinho doce e desencanado, rosto de traços simpáticos, um estilo meio hippongo. Vocês têm dois filhos. Eles entram e saem da sala para o quintal aos gritos, brincando de pega. A casa é cheia de livros e cheia de janelas emperradas, maçanetas quebradas, e paredes infiltradas que vocês dois nunca se preocuparam em consertar.

Nesse futuro paralelo, quando eu chego para visitar, contrasto com tudo na sua vida. E como a porra da imaginação é minha e pelo menos alguma vantagem tem que ter, estou muito bem, obrigada. Bem sucedida, bem comida, bem viajada. Uso jeans colados no corpo e salto agulha, conto de todas as coisas que ando fazendo, o meu mundo é imenso. Aí sentamos os três naquela sala, o passado tão distante do presente, que nem naquele clipe da Gwen Stefani.

Nessa hora, me perguntei se seria assim, ou se vai ter algum capítulo mais próximo na nossa história. O pior é que antes de você eu nunca nem quis estar com ninguém. Nem conseguia me imaginar em um relacionamento assim antes de você. Não podia imaginar que era possível ser tão eu mesma ao lado de outra pessoa, sem ter que editar nada, nada, da minha personalidade.

Nem podia imaginar que eu ia encontrar tanto de mim em você. Ah, se as pessoas soubessem que por trás dessa sua máscara de bom moço, tem tanta coisa que você esconde. Você sabe que eu te conheço de verdade. Eu sou assim toda errada, toda estragada, mas você também é. Nos reconhecemos um no outro. Tipo um Namastê ao contrário, a sombra que habita em mim saúda a sombra que habita em você.

Conheci esse seu jeito depravado, egoísta, sombrio, corrompido e me apaixonei por ele. Você não é perfeito, e eu não sou nem nunca fui. De repente era um alívio saber que com você eu tinha segurança pra gente se trancar no nosso mundinho em que a moral era colocada de cabeça para baixo, os limites se dissolviam, a selvageria era bem-vinda. Mas acabou e assim é, não há o que se possa fazer, existe muito pouco que pode ser dito, menos ainda que pode ser feito, vivi a vida inteira muito bem sozinha, eu e minhas sombras, e assim vamos ter que aprender a seguir.

Mas a sua doçura e barbárie, a sua versão para todos e a sua versão só para mim são coisas que ninguém vai me tirar. Vou levar comigo, para lembrar que um dia, a gente existiu. E em algum lugar vamos continuar sempre existindo: Entre o sempre e o nunca.

Fumaça

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Hoje eu enterrei você. É aquilo, as coisas doem até não doerem mais. Talvez eu ainda tenha recaídas. E eu me dou o direito de sentir sua falta, seja sem motivo, seja quando alguma coisa me lembrar de você, seja quando eu queria te contar coisas, ouvir sua opinião, sua risada. Acho que doer vai doer sempre, mesmo que seja só um pouco, mas assim é, um dia eu acordei e percebi que você tinha virado uma memória, um capítulo que acabou.

Eu não me arrependo de nada. Acho que nunca fui tão franca e sincera com os meus sentimentos. Acho que nunca tinha me entregado assim tão completamente. Não me arrependo de nada que eu fiz, porque foi tudo de verdade, foi tudo de coração, foi tudo de peito aberto. Eu fui genuína, fui fiel aos meus desejos, e me permiti sentir coisas boas, e querer coisas boas, e viver isso sem anestesia, do começo ao fim. É claro que tem coisas que eu gostaria que tivessem sido diferentes, mas acho que a gente estava tentando fazer o melhor que podia, e nos viramos como deu.

Eu fui fundo, e foi porque foi importante. Tudo bem a gente se estilhaçar às vezes, tem horas que a bússola quebra mesmo, e eu já me perdi por muito menos, é claro que ia me perder dessa vez, sendo que eu nunca tinha sido amada dessa maneira antes, nunca tinha sentido tanta afeição e aceitação, então é claro que a abstinência ia ser de enlouquecer, foda-se quem não entende, eu sou assim, as coisas pra mim funcionam desse jeito, não me arrependo de experimentar tudo em detalhes, os bons e ruins.

Doeu, doeu mesmo, doeu de verdade.

Mas agora eu saí mais uma vez inteira do outro lado. E a vida continua lá fora.

E agora eu estou aqui com uma taça de vinho, vendo a neve cair na janela, assistindo um filme ruim e quando eu encho os pulmões de ar sinto uma paz tão gostosa de saber que tudo que eu passei foi incrível.

Tudo que está por vir será melhor ainda.

 

Naufrágio

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Espera. Deixa eu ficar quietinha aqui só um pouquinho. Deixa eu ficar em silêncio mais um tempinho. Eu preciso ficar bem encolhida, lamber minhas feridas, dar os pontos necessários, me curar para ficar inteira de novo.

Eu sempre fui muito fundo nas coisas, e desta vez não teria como ser diferente. Eu sempre fui de me perder dentro dos outros, de sair sem rumo, de me embriagar de dopamina até perder os sentidos, ver minha razão em coma.

Então é claro que eu ainda estou zonza. Vou precisar de um tempo para achar o caminho para a saída desta névoa, para conseguir desembaçar o espelho, desembaralhar os pensamentos, lembrar da direção em que seguia e ajeitar a minha bússola.

Agora, porém, eu ainda estou afogada no seu baldinho. Sem forças para nadar. Engolindo da sua água até doer os pulmões. Desta vez eu fui muito fundo mesmo, em velocidade meteórica e eu começo a achar que talvez nunca mais pare de soluçar a água do seu mar, mesmo quando eu estiver seca e salva, do outro lado.