Trago sua poesia de volta

Melancolia. 

Uma palavra que nos define tao bem.

Queria poder ter te visto só como quando nos conhecemos.

Alguém com olhos cor de pedra de sangue, pele dourada, e que me sutilizava como fazem os jovens, como já diria Alanis.

Mas foi mais do que isso. Muito mais. 

Voce foi um bálsamo para as minhas feridas. Uma árvore frondosa para me fazer sombra e me trazer abrigo quando eu mais precisei. 

Eu queria que voce soubesse que poderia acordar mais mil dias com seus beijinhos estalados e seus carinhos preguiçosos, seus olhos de lince brilhando para me dar bom dia.

Eu queria ter conseguido aproveitar mais o seu toque, tentamos tanto nos entregar, queria ter sentido sofreguidão, febre, queria ter me despido a alma. 

Fizemos o que podíamos.

O que dava.

E foi muito.

Já sinto sua falta e voce nem se foi.

Mas eu sei que é hora de soltar a sua mão e te deixar partir. O que não tem remédio, remediado está.

Vá levar seus olhos de pedra de sangue para brilhar em outras paragens e outros travesseiros.

Quando nos encontramos, eu estava tao perdida de mim, tao machucada, tao aterrorizada. Fiquei tanto tempo sem me encontrar.

Eu admito que me escondi na sua sombra, com medo da chuva e com medo do sol. Agora eu consigo ver, com clareza, qual foi seu propósito de volta.

Trazer minha poesia de volta.

Nunca ninguém morreu de amor

Photo by Crawford Jolly on Unsplash

Hoje em dia eu sei enrolar meus próprios cigarros.

Lembrei disso hoje, de quantas vezes você gritou comigo porque eu enrolava cigarros deformados, e pensei que nunca mais precisei da ajuda de ninguém pra sustentar meus vícios.

Agora já faz um tempo que eu não sei mais de você, nunca mais quis ouvi dizer, tantas vezes desejei que você estivesse longe, ou que morresse mesmo, para que o fantasma da sua presença me deixasse em paz pra sempre. Já faz tempo desde que a ansiedade misturada com paixão me deixava doente, da sua violência, já faz tempo que eu não preciso mais lidar com seus rompantes, pisando em ovos para não detonar a sua ira, implorando uma migalha de carinho ou de atenção que você sempre parecia ter pra todo mundo menos pra mim.

Tanta coisa que eu não disse e nem faria sentido dizer, não sou capaz mais de reconhecer nem um traço da pessoa que você foi, ou fingiu ser. Pensar que dormi ao seu lado todas as noites por tanto tempo e hoje não me restou nem um como vai para perguntar.

O seu empenho em me machucar doeu mais do que todas as traições, todas as brigas, todas as ofensas proferidas com veneno. Já faz um tempo de quando eu senti essa dor, achei que ela fosse me matar, como podia quem eu mais amei me dilacerar daquela forma – mas naquela época mal sabia eu que a dor estava só começando, que eu estava a ponto de enfrentar muito mais do que eu jamais seria capaz, mais do que eu via nos meus piores pesadelos.

Lembra daquela vez que nos perdemos embriagados numa manhã de muito sol, cambaleando pela cidade embalados pela euforia artificial, procurando um lago e acabamos atentando ao pudor no meio do gramado em plena luz do dia? Achávamos que estávamos tão longe de casa, e veja só que agora estou morando a poucos quarteirões dali, nem reconheço mais a planta da cidade como a vi naquela manhã, a névoa que me acompanhava quando eu estava com você já se dissipou completamente.

Ainda tenho rompantes de rancor, de ódio, de fraqueza, mas hoje em dia pouca coisa daquela época ainda faz sentido. Sei que é clichê dizer que a eu de antes não existe mais, mas ela não existe mesmo, não tinha como existir. Aquela pessoa que vivia pra morrer de amor acabou; já não consigo mais me consumir no outro como era costume, já não tenho tempo para essas alucinações quando estou bastante preenchida de mim mesma – mesmo quando não estou dormindo sozinha.

Às vezes o cinismo me incomoda, e me pergunto se algum dia vou ser capaz de me entregar de novo, de amar de novo, com intensidade e fúria, ainda que com menos violência. Mas ando chegando à conclusão, que demorou, mas chegou, de que sou meio grata por toda a experiência traumática que foi estar ao seu lado. De fato, nunca mais vou ser a mesma, porque foi só com um desastre tão grande que eu me forcei a ver em mim tudo que eu não queria enxergar, para tentar para de usar o amor como uma lâmina para me cortar, para ser honesta e limpa com os meus hábitos autodestrutivos, para poder enrolar meus próprios cigarros, me matar e me salvar sozinha.

Eu sou uma pessoa melhor depois de você, sou uma pessoa melhor também por causa de você, e veja só a ironia disso tudo.

Você foi capaz de me salvar de você; a única coisa que nunca vai conseguir fazer por você mesmo.

Chuva no deserto

Chuva no deserto com raios.
Photo by Lucy Chian on Unsplash

Metáfora fácil. Mas não existe uma melhor para o que eu estou sentindo. No meio da aridez e do calcário, da areia infinita, dos galhos retorcidos, de toda a sequidão; uma nuvem estacionada. Imponente, gorda, ameaçadora e linda, um vulcão de água condensada, inundando o sertão.

Gotas grossas que lambem e cobrem as folhas ásperas, os espinhos. Enxurradas de lama que abrem vales na terra. O tremor dos raios e trovões chacoalhando o céu cinza. O cheiro de secura molhada, de cacto ensopado, de solo alagado, o chiado da água que corre, chovendo vitalidade onde já não crescia mais nada.

E eu ali no meio, as costas afundadas no barro quente e úmido, provando o gosto das gotas mornas, lavando minha alma sedenta.

Sei que é um ano difícil pra todo mundo, e não é hora pra egoísmo, mas meu cerrado já tinha se feito caatinga, os troncos se encolhendo e retraindo, os pastos se estendendo, a grama queimando. Então, a tempestade no deserto não me deixa escolha a não ser continuar deitada, imóvel, sabendo que o verde vai voltar e em algum momento, e mesmo que não seja agora, não importa, porque a chuva é tépida, é clemente, é doce, e é a força da minha natureza que deságua em si mesma pra renascer.