Sobre a Bruna

A primeira lembrança que eu tenho da Bruna é do primeiro dia de aula na faculdade. Tínhamos que nos apresentar para turma num microfone. Ela deu um passo à frente, sacudiu os longos cabelos para longe do rosto, piscou os olhões por trás dos cílios compridos e começou a listar alguns fatos. Nada de mais, que afinal ninguém ali tinha nada de muito extraordinário para contar, até que ela começou a enumerar coisas banais de que gostava e emendou um “adoro sexo” sem alterar o tom de voz, sem nem pestanejar. Eu, que até aquele momento estava me sentindo a própria doutora em desenvoltura, olhei bem para aquela menina de gestos tímidos, franjinha e sotaque carregado do interior de São Paulo, e pela primeira vez a enxerguei.

A Bruna é assim. Ela fala. Para ela, tem coisas que são como são, e não há vergonha nisso.

A Bruna também é parceira. Ela transita entre todas as tribos. Vai do sambinha ao Audioslave sem criar caso. Com ela não tem isso da pessoa ser isso ou aquilo. Pode ser tudo ao mesmo tempo, que é melhor ainda. Essa foi uma das lições que eu aprendi com a Bruna.

Ela tem o riso solto, e o choro mais ainda. Gosta de aproveitar a vida, gosta de contar histórias, gosta de ouvir histórias. Houve um tempo em que éramos só duas contra o mundo, em conversas que se estendiam pela madrugada enquanto a gente olhava a cidade da janela do apartamento. Uma com a outra, a gente tentava entender as injustiças, as experiências, o que significava ser mulher, o que significava ser adulta, como lidar os medos, as frustrações, as tristezas. Talvez a Bruna não saiba, mas muito da minha personalidade se formou ali, e roubei muito do jeito dela de ver a vida para mim.

Uma vez, a Bruna se cortou num caco de vidro. Foi um corte muito fundo, e sangrou muito. Tanto que dias depois a cicatriz ainda estava bem feia e inchada,e todos nós nos compadecemos dela. Ela contou que o machucado ainda estava doendo, e todos os presentes começaram a exclamar. Na quarta exclamação, ela soltou:

– Ai gente, já pode parar. Eu só queria confete, já tá bom.

Essa foi outra lição que eu aprendi com a Bruna. Ela nunca tem medo, nem vergonha, de ser totalmente franca, mesmo nas coisas que a gente geralmente esconde. Ela escancara, não tem medo de rir de si mesma, de chorar por si mesma, de demonstrar o que está sentindo, de contar quando a vida não está perfeita, quando a vida incomoda, quando ela está sem forças.

Hoje em dia, a Bruna cortou os cabelos longos. Eles são curtos e coloridos, ela já não fala mais daquele jeito tímido, e tem muitos feitos extraordinários para contar. Como eu, ela também está tentando encontrar o seu lugar no mundo.

Qualquer que seja ele, uma coisa é certa: Ela nunca vai passar despercebida.

Espiral

tumblr_nxkha3GY5B1qznmazo1_1280.jpg
Fonte: Tumblr 8tracks

Tá frio, tá frio pra caralho, mas eu não sinto mais nada, as pontas dos dedos dormentes enquanto você abre a minha boca e despeja mais Jägermeister. Essa situação é ridícula, e talvez nós dois estejamos velhos demais para estarmos bêbados nos beijando em cima do capô de um carro qualquer, minha calça grudada na neve e no metal. Mas foda-se também, eu sempre odiei tudo que é morno e prefiro estar assim, prefiro os seus beijos trôpegos, minha personalidade dionisíaca se encaixa tão bem na sua, talvez seja destino que vagabundos acabem se esbarrando nos cantos do mundo, talvez nós só estejamos nos recusando a crescer, mas eu adoro ser assim toda pequenininha pra minha cintura caber direitinho nas suas mãos, tem horas que me dá vontade de te engolir, tem horas que me dá vontade de correr que essa loucura toda só pode acabar quando eu me machucar mas foda-se, foda-se, foda-se, eu tô tão bêbada e você também, despeja mais álcool na minha boca, me dá um banho, me leva pra casa, arranca minha roupa, me come até a gente desmanchar na minha cama.

***

A gente entrou na banheira de roupa e tudo, e quando eu olho no espelho parece que meu coração tá batendo dentro do meu crânio, essa cidade, essa cidade é a cidade do pecado, eu vim aqui pra me perder, e enquanto você olha pra mim com essa cara de quem mal consegue focar aquela música vem na minha cabeça, I just wanna turn the lights on, in these volatile times… Mas tá certo, eu queria ser livre, e eu estou sendo livre, é que liberdade é uma coisa perigosa, ainda mais pra gente como eu, mas tá tudo certo, eu tô tão descolada da pessoa que eu fui que eu acho que ela não volta nunca mais e isso é bom, ela tinha medo, e eu não tenho mais medo de nada, então vem, turbilhão por turbilhão a gente se neutraliza, se for pra doer deixa doer com força, se a cidade é fria e o inverno é longo, vamos incendiar essa porra toda com gasolina e autodepreciação, até não restar tijolo sobre tijolo.

Até eu me acabar.

Até a gente acabar.

Até a onda quebrar, arrasar e ir embora, pra eu arrumar a bagunça depois.

Veni, vidi, amavi

4fe0ed168c586.preview-620

Uma coisa é certa: De falta de amor eu não morro. Posso morrer por excesso dele, ou excesso de inconsequência, ou infarto depois que meu coração bater demais – mas não de falta de amor. Sei que ultrarromantismo é démodé, mas não posso evitar algo que está em cada uma das minhas células – essa vontade incontrolável de me atirar no fogo toda vez que ele aparece na minha frente. E eu que sou uma pessoa até razoável em muitos setores da vida, não tenho escrúpulos em se tratando de amor. Porque é só assim que vale a pena. Muita gente se admira e não consegue entender esse meu afã de viver as paixões até a última gota como se elas fossem veneno. Mas o que elas não sabem é que em troca eu levo pra mim uma coleção de memórias que valem vidas inteiras. Eu vivo mil anos em uma semana. Eu vou viver muitas vidas em uma só. Então, na minha lápide, por favor coloquem que eu vim, eu vi e eu amei. E se eu morrer de amor, ah antes seja, do que morrer de falta dele.

Inveterado

Meu Julho foi como um sopro de sonho que invadiu os meus dias. Tanto que parecia que eu estava vivendo a vida de outra pessoa. Tudo ficou em pausa. Fui abrandar a aspereza do cotidiano na sua voz baixinha, sua doçura inesgotável, fui me inspirar nas suas histórias, na sua coragem, no seu jeito de se atirar sem medo nas coisas – afinal, não deveria ser assim? Eu me afundei, me afoguei nessa nossa bolha de languidez e ternura. Fazia muito tempo que o sol por dentro não brilhava tão forte. Eu me deixei levar pelo seu senso de companhia. Eu me deixei me perder nos seus braços e o deixei penetrar fundo em cada um dos meus poros. Porque a gente se entendeu. Porque não tivemos medo. E agora, eu estou aqui me perguntando como eu consigo fazer isso tantas vezes. Como eu tenho coragem de enfiar meu coração no liquidificador sabendo que vai doer. Como eu tenho a capacidade de continuar me entregando tão completamente a tudo que vem e não fica. Mas eu sei, eu sei que meu Julho foi só meu e só nós dois sabemos o quanto. E eu vou levar cada sussurro, cada segredo, cada momento pelo resto da minha vida. Agora só me resta respirar fundo, juntar meu pedacinhos e continuar a estrada. Ele pode me levar pelo mundo afora no seu caderninho. Quem sabe um dia o universo se encarrega de nos esbarrar outra vez.