O Pânico, esse incômodo inquilino

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O Pânico esteve presente na minha vida desde que eu era pequena, de duas formas. A primeira, era a severa síndrome do pânico da minha avó. Ela a debilitava e a limitava de todos os modos; eu ouvi desde pequena, que “vovó não pega avião”, “vovó não pega estrada”, “vovó não fica sozinha”, “vovó não gosta de multidão”, “vovó não pode com elevador”. O pânico dela era um transtorno para ela mesma e os filhos, e muitas vezes ela deixava de fazer coisas que queria e gostava porque o medo a impedia. Lembro bem de ela me perguntar, quando eu era bem pequena, se eu sentia medo das coisas, de viajar, de morrer. Eu disse que não e ela me olhou com muita inveja; “tomara que seja pra sempre assim”. Minha avó morreu de morte morrida e tendo medo de tragédia a vida toda, viveu além dos noventa. 

O medo porém, teve uma forma muito definida na minha vida desde que eu me entendo por gente: Minha motefobia. Ou seja. Fobia de borboletas. É, borboletas. Aquele bicho que todo mundo acha lindo? Pois é, foi pra mim a maior fonte de pavor a minha vida inteira. E embora ele seja até hoje, o maior medo que eu tenho, aquele que jamais consegui enfrentar, vivi bem com ele durante a infância. A vida era boa, desde que não houvesse borboleta por perto e assim foi por um bom tempo.

Mais tarde, sorrateiramente, o Pânico começou a se infiltrar em outros setores da minha vida. Foi quando teve início a minha segunda grande fobia: O medo de andar de avião. Algo que talvez eu nunca tivesse sido muito simpatizante, mas de repente, começou a ser um problema. Um problema tão grande que hoje chego a ter crises de choro, vômito, quase desmaiar e até gritar de medo dentro de um avião. Na adolescência, comecei a conhecer a terrível sensação do descontrole do desconhecido. Ver uma ambulância ou um carro de bombeiro correndo na rua era ter a certeza de que a emergência era na minha casa, e alguma tragédia estava acontecendo com alguém que eu amava. Ficar longe da minha cadelinha era um pesadelo; passei noites em claro imaginando que coisas terríveis poderiam estar acontecendo com ela longe da minha “proteção”.

 

De lá pra cá, tive altos e baixos. Momentos muito bons em que me senti totalmente curada do meu medo e momentos totalmente paralisantes. Em alguns períodos sair de casa pra mim era um problema. O problema é que ter Pânico é como ter um inquilino infernal dentro da sua mente; alguém que vai te fazer desconfiar do que você vê, escuta, das pessoas queridas, de tudo. Porque não importa quantas vezes você berre dentro da sua cabeça “CALA A BOCA ESTÁ TUDO BEM” ele grita duas vezes mais alto “NÃO ESTÁ E VOCÊ VAI SE FERRAR SE NÃO ME ESCUTAR”. Ele vai tomando conta da sua mente e distorcendo a realidade. Conviver com o Pânico é: O problema é ir de A para B, quando eu chegar em B, vou estar segura. Mas aí, chegando em B, você precisa chegar em C para estar segura de verdade. E assim infinitamente.

Claro que ajuda muito ter tanta divulgação das tragédias mais horrendas todos os dias. Isso ajuda a alimentar a minha imaginação que gasta horas e mais horas imaginando os piores cenários, as piores torturas pra mim e para aqueles que são importantes pra mim. Às vezes penso que toda a minha criatividade está sendo sugada e canalizada para me torturar, e não sobra quase nada para criar.

O inquilino usa minha criatividade para deturpar a realidade, muito racionalmente e dizer pra mim tin-tin por tin-tin porque uma desgraça está prestes a acontecer. Quando isso acontece, eu entro em crise. Tenho um ataque de pânico e saio totalmente do controle do meu corpo. Entro em modo de sobrevivência, alerta máximo. O Pânico diz pro meu cérebro que a situação é de vida ou morte – e ele acredita. Suor, respiração rasa, um desespero tão absurdo que às vezes eu desejo apagar porque é insuportável sentir tanto medo. E todo mundo à minha volta fica me olhando com uma cara de incógnita, porque, obviamente não existe perigo nenhum e quase sempre está tudo bem mesmo. Só que a minha cabeça grita “PERIGO”. Eu crio um cenário de horrores na minha cabeça. E ele é real. É totalmente real pra mim. É essa a parte que as pessoas não entendem. Pra mim, o que eu criei é a verdade mais absoluta, é assim que eu sinto. Aquele barulho na turbina É um problema e o avião VAI cair a qualquer momento. Pro inquilino, a certeza é tão sólida, é tão concreta que não existe espaço para a dúvida.

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Depois da crise, num lugar seguro, o alívio é tão grande que eu poderia chorar – e às vezes choro mesmo. Desse modo, atividades absolutamente corriqueiras para todo mundo – pegar um táxi, viajar, ir num show lotado – acabam se tornando verdadeiras lutas pela vida pra mim. As pequenas coisas são um grande feito. “Matar um leão por dia” tem um significado bem diferente quando se tem Pânico.

Demorei para identificar a extensão do meu problema. Porque tanta gente vem dizer “ah, mas que bobagem”, que você tenta se convencer de que é bobagem. Só que não é bobagem. O Pânico te paralisa. Meu maior medo, é claro, é que ele me paralise de  vez. É deixar de fazer as coisas que eu gosto, que eu sempre amei fazer por causa dele. É que eu não saia mais de casa, deixe de cuidar da minha vida, deixe de ser uma pessoa independente por causa dele.

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Houve um tempo na minha vida em que conviver com a incerteza e o desconhecido era muito fácil. Hoje, é uma batalha constante. Mas para mim, o primeiro passo é reconhcer que tenho um problema grave, que precisa ser tratado e precisa ser respeitado. Ignorá-lo nunca ajudou em nada. 

Eu já cansei de conviver com esse inquilino. A energia que eu gasto para me proteger dos inimigos que ele cria pra mim é grande demais. Eu é que estou pagando esse aluguel, e ele é muito alto. Pesa nas minhas relações, na minha saúde, na minha vida em geral. Quero despejá-lo o quanto antes, pra ontem.

Mas isso não é fácil. Bem que eu gostaria de terminar esse texto com uma frase bem otimista e dizer que está tudo bem, mas infelizmente, por enquanto ele está ganhando. Talvez eu nunca vença – os inimigos que estão dentro da gente sempre são os mais difíceis de vencer. Mas estou sim otimista. Venho tentando técnicas que podem me ajudar – terapia, meditação, yoga. Escrever esse texto também foi uma delas. E se você sente a mesma coisa, comente. Vamos conversar. Duas cabeças pensam melhor do que uma.

 

Quem sabe um dia eu encontro a solução? Prometo que escrevo outro texto, contando.

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